Por Redação
9 de outubro de 2026Falta de mão de obra no supermercado: como as redes estão redesenhando funções, treinamento e atendimento
Com a escassez de trabalhadores, a automação e a transformação do comportamento do consumidor, os supermercados precisam rever modelos de contratação, capacitação e gestão para combinar pessoas, tecnologia e experiência de compra
A escassez de mão de obra está levando os supermercados a repensar não apenas como contratar, mas também como organizar suas operações e desenvolver profissionais. À medida que tecnologias como self-checkout, sistemas de gestão e ferramentas de análise de dados avançam, o setor passa a demandar trabalhadores com competências mais amplas, capazes de transitar entre diferentes funções e oferecer respostas às necessidades do consumidor. Para especialistas da ESPM e do Senac, essa transformação envolve a revisão dos modelos de contratação, o fortalecimento da capacitação e uma mudança na forma como as empresas estruturam a relação entre produtividade, atendimento e desenvolvimento profissional.
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A transformação tecnológica está alterando a natureza das atividades realizadas nas lojas, enquanto o contato humano ganha importância em situações que exigem relacionamento e resolução de problemas. Segundo Bruno Mayworm, professor do curso de Gestão Comercial da graduação Tecnóloga da ESPM, o varejo precisa de profissionais preparados para atuar de maneira mais integrada. “A escassez de mão de obra está provocando uma mudança importante no perfil profissional do varejo. O supermercado começa a precisar menos de pessoas preparadas exclusivamente para executar uma determinada tarefa e mais de profissionais capazes de atuar em diferentes momentos da jornada do cliente. Por isso, algumas competências ganham relevância: capacidade de relacionamento, comunicação, empatia, resolução de problemas, autonomia, adaptabilidade, domínio básico de tecnologia e capacidade de exercer múltiplas funções”, afirma Mayworm.
A ampliação das competências exigidas também alcança a gestão comercial, que precisa compreender diferentes formatos de loja e os comportamentos específicos de seus consumidores. De acordo com Luiz Fernando Gomes Pinto, coordenador dos cursos superiores de Tecnologia em Gestão Comercial e Tecnologia em Marketing do Senac, conhecimentos mercadológicos e operacionais são fundamentais para alinhar a oferta às necessidades de cada público. “Apesar das diferenças entre os formatos de loja, há competências que se tornaram transversais ao varejo alimentar, como conhecimento sobre o consumidor, gestão de categorias, merchandising, análise de dados e capacidade de proporcionar uma boa experiência de compra. Em todos esses formatos, é fundamental que o profissional tenha conhecimentos mercadológicos básicos para identificar o perfil do consumidor e compreender suas necessidades e desejos. Também é importante que saiba trabalhar, juntamente com os fornecedores, na definição do mix de produtos mais adequado a cada público”, explica Gomes Pinto.
Contratação e capacitação entram em revisão
A dificuldade de encontrar profissionais já preparados para funções específicas está estimulando uma mudança nos critérios de contratação. Em vez de depender exclusivamente da experiência anterior, as empresas precisam ampliar a atenção à capacidade de aprendizagem e ao desenvolvimento de competências. Para Mayworm, esse movimento está associado a alterações estruturais na organização do trabalho. “Diante da dificuldade de contratação, treinamento e desenvolvimento passam a ter papel mais estratégico. Em vez de procurar exclusivamente experiência anterior, as empresas podem ampliar o olhar para competências comportamentais, capacidade de aprendizagem e potencial de desenvolvimento. Vejo pelo menos três movimentos estruturais acontecendo simultaneamente: simplificação dos processos, desenvolvimento de profissionais multifuncionais e automação das atividades de menor valor agregado”, analisa o professor da ESPM.
A formação prática torna-se especialmente relevante quando o supermercado contrata profissionais sem experiência no setor. Segundo Gomes Pinto, a capacitação precisa conectar os conhecimentos conceituais à rotina das lojas, permitindo que o colaborador desenvolva habilidades aplicáveis às necessidades da operação. “A formação de profissionais sem experiência exige uma combinação entre conhecimentos conceituais e aprendizagem prática. Embora os cursos superiores da área de negócios abordem conceitos importantes, é fundamental que as empresas complementem essa formação com treinamentos voltados às ferramentas e situações encontradas no dia a dia do varejo. Uma das estratégias que podem ser utilizadas para proporcionar ao colaborador uma experiência prática com plataformas analíticas e, ao mesmo tempo, desenvolver sua visão estratégica é o ‘treinamento on-the-job’, ou treinamento no trabalho”, destaca o coordenador do Senac.
Automação redesenha funções dentro das lojas
A incorporação de tecnologias modifica o papel de profissionais que antes estavam concentrados em tarefas transacionais. Caixas, processos de pagamento e outras atividades repetitivas passam a ser reorganizados, enquanto novas demandas surgem em áreas relacionadas ao atendimento, à operação digital e à gestão de dados. Na visão de Mayworm, a automação precisa ser analisada também pelo potencial de deslocar trabalhadores para funções de maior valor. “As funções mais transacionais, repetitivas e previsíveis tendem a sofrer maior transformação. Isso não significa necessariamente o desaparecimento imediato desses empregos, mas uma mudança significativa na forma como o trabalho é realizado. A tecnologia, portanto, não deve ser analisada apenas como substituição de mão de obra. Em muitos casos ela desloca a mão de obra de uma atividade transacional para uma atividade de maior valor para o negócio e para o cliente”, avalia o professor da ESPM.
Nesse cenário, o domínio de dados passa a integrar as competências esperadas dos profissionais do varejo. O avanço das ferramentas digitais amplia a capacidade de compreender o comportamento dos consumidores, ajustar a oferta e apoiar decisões operacionais. Gomes Pinto destaca a necessidade de uma formação que vá além da interpretação de resultados passados. “O avanço da tecnologia está fazendo com que os profissionais do varejo precisem desenvolver, cada vez mais, uma cultura orientada por dados, habilidades analíticas e domínio de ferramentas que apoiem a tomada de decisão. É importante que esses profissionais saibam ir além das análises descritivas, que permitem interpretar os resultados obtidos. Também é necessário desenvolver conhecimentos sobre análises preditivas e prescritivas, que podem apoiar, respectivamente, a previsão de demandas e a definição de ações e decisões mais adequadas para o negócio”, explica o coordenador do Senac.
A disputa por profissionais exige novas propostas
A concorrência por trabalhadores não se restringe ao varejo alimentar. Diferentes modalidades de geração de renda e atividades profissionais influenciam a percepção de atratividade das vagas em supermercados, tornando fatores como jornada, flexibilidade e perspectiva de crescimento parte da decisão do candidato. Para Mayworm, as empresas precisam observar o conjunto da experiência oferecida ao colaborador. Não podemos analisar atratividade apenas pelo salário. O profissional compara um conjunto de fatores: remuneração total, benefícios, escala, flexibilidade, deslocamento, ambiente de trabalho, relacionamento com a liderança, possibilidade de desenvolvimento e perspectiva de crescimento. Isso exige que o supermercado pense na sua proposta de valor para o colaborador quase da mesma maneira que pensa na proposta de valor para o cliente”, observa Mayworm.
A retenção também depende de oportunidades concretas de desenvolvimento e de modelos de treinamento ajustados às diferentes responsabilidades. De acordo com Gomes Pinto, a educação corporativa precisa considerar as necessidades específicas das equipes operacionais e gerenciais, utilizando práticas que ampliem a autonomia e o conhecimento sobre a operação. “Um dos desafios das atividades operacionais é torná-las mais interessantes e proporcionar oportunidades de desenvolvimento, contribuindo para reduzir o turnover. Uma das estratégias que pode ser utilizada é a rotação de trabalho, na qual os colaboradores são movimentados temporariamente entre diferentes funções. Além de contribuir para a motivação e ampliar o conhecimento dos colaboradores sobre a operação, essa prática pode ajudar a reduzir a dependência de uma única pessoa em determinadas atividades e dar maior flexibilidade à gestão da mão de obra”, explica o coordenador do Senac.
O supermercado do futuro será mais integrado
A crise de mão de obra aponta para uma revisão mais ampla do modelo operacional. O desafio passa por identificar quais atividades dependem da atuação humana, onde a tecnologia pode elevar a produtividade e como direcionar profissionais para funções que contribuam para a experiência do consumidor e os resultados da empresa. Segundo Mayworm, essa integração deve orientar as decisões estratégicas do setor. “A questão estratégica deixa de ser simplesmente ‘como substituir as pessoas que não conseguimos contratar?’ e passa a ser ‘como redesenhar a operação para encontrar a melhor combinação entre pessoas, processos e tecnologia?’ O profissional que o varejo passa a demandar é cada vez menos aquele preparado para executar uma função isolada e cada vez mais aquele capaz de compreender o negócio de forma integrada, identificar oportunidades e tomar decisões sobre a melhor combinação entre pessoas, processos e tecnologia”, conclui o professor da ESPM.