Newsletter
Receba novidades, direto no seu email.
Assinar
Varejo
...
Por Redação
5 de outubro de 2026

Fim do R-22 exige planejamento no setor supermercadista

Redução da disponibilidade do fluido exige diagnóstico dos equipamentos, manutenção preventiva e planejamento de investimentos

A redução gradual da disponibilidade do R-22 coloca a refrigeração no centro do planejamento dos supermercados. Ainda presente em muitos sistemas do setor, o fluido tende a ficar mais difícil de encontrar, o que pode trazer impactos para a manutenção e para os custos das operações. Como a refrigeração é essencial para a conservação dos alimentos e a segurança do consumidor, a orientação é que os supermercados antecipem a avaliação dos equipamentos e definam uma estratégia de transição.

LEIA TAMBÉM
NR-1: o que o supermercado precisa ter documentado sobre riscos psicossociais?
Reforma Tributária chega ao caixa e coloca cadastro do supermercado à prova

Para Shirlei Castanha, vice-presidente da Associação Paulista de Supermercados (APAS) e membro do comitê de ESG da entidade, o maior desafio é evitar que os estabelecimentos deixem a questão para o momento em que a disponibilidade do R-22 já esteja comprometida. “Nossa principal preocupação é que os supermercados se antecipem e façam essa transição de forma planejada”, afirma. Segundo ela, o R-22 ainda está muito presente nos sistemas de refrigeração do setor e a redução gradual da disponibilidade pode dificultar o acesso ao produto e trazer possíveis impactos aos custos de manutenção.

Diagnóstico é o primeiro passo

Para os supermercados que ainda utilizam o fluido, a APAS recomenda começar pelo levantamento dos equipamentos. “O primeiro passo é fazer um diagnóstico: identificar quais equipamentos ainda utilizam R-22, avaliar a idade, o estado de conservação, a eficiência e o histórico de manutenção de cada sistema”, orienta Shirlei.

Esse diagnóstico permite estabelecer prioridades e analisar qual alternativa é mais adequada para cada operação. Entre as possibilidades estão o uso de fluidos substitutos, o retrofit ou a modernização do sistema. A executiva ressalta que não há uma solução única para todos os estabelecimentos e que a decisão deve levar em conta as características de cada equipamento.

A manutenção preventiva e o controle de vazamentos também entram como medidas importantes para reduzir riscos. Segundo Shirlei, o primeiro passo é fazer um diagnóstico dos equipamentos, identificando quais ainda utilizam R-22, a idade e as condições dos sistemas, além do histórico de manutenção. A partir desse levantamento, as empresas podem definir quais instalações demandam retrofit, substituição ou modernização. “Vemos essa transição também como uma oportunidade de modernização do setor”, diz a vice-presidente da APAS.

A revisão dos sistemas permite avaliar não apenas a substituição do R-22, mas também aspectos como eficiência energética, consumo de energia, prevenção de vazamentos e adoção de tecnologias de menor impacto ambiental. Esse processo precisa considerar ainda a realidade econômica de empresas de diferentes portes.

A modernização precisa considerar a realidade financeira dos diferentes negócios. A APAS defende que a mudança seja ambientalmente responsável, mas também economicamente viável para empresas de diferentes portes. Nesse processo, a associação afirma ter como papel orientar os associados para que conheçam a situação de seus equipamentos e possam tomar decisões com antecedência e segurança.

Alternativas de menor impacto

A substituição dos fluidos refrigerantes está relacionada às ações previstas pelo Protocolo de Montreal e pela Emenda de Kigali. No Brasil, a Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO) atua em parceria com o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) na conversão tecnológica, capacitação de profissionais, fortalecimento de normas de segurança e demonstração de tecnologias que utilizam refrigerantes de baixo potencial de aquecimento global (GWP). “A principal iniciativa é a implementação do Protocolo de Montreal e da Emenda de Kigali, por meio do Fundo Multilateral para a Implementação do Protocolo de Montreal (FML)”, explica Sérgia Souza Oliveira, gerente de Projetos do Protocolo de Montreal e da Emenda de Kigali pela UNIDO no Brasil.

Entre as tecnologias trabalhadas estão soluções com CO₂, amônia e hidrocarbonetos, como o propano. A UNIDO também desenvolve projetos demonstrativos para substituir sistemas baseados em R-22 em supermercados por chillers modulares com fluidos de baixo GWP, como o R-290, e unidades condensadoras de baixa temperatura que operam com CO₂.

A organização também mantém ações de capacitação para técnicos e empresas e, em fase de implementação, programas voltados a alunos de engenharia. “As ações da UNIDO estão divididas em três frentes: Conversão Industrial, Projetos demonstrativos para substituição de equipamentos baseados em R-22 em supermercados e Capacitação”, detalha Sérgia.

Custos e decisão entre retrofit e substituição

A redução da oferta do R-22 tende a tornar mais complexa a manutenção dos equipamentos que ainda dependem do fluido. Para Mauro G. Gomes, engenheiro e presidente do Departamento Nacional de Refrigeração Comercial e Industrial da Associação Brasileira de Refrigeração, Ar-Condicionado, Ventilação e Aquecimento (ABRAVA), o impacto não se limita ao preço do refrigerante. “A tendência natural é de aumento da complexidade e, consequentemente, dos custos associados à manutenção de equipamentos que ainda utilizam R-22”, observa. Entre os fatores estão a menor disponibilidade de produto virgem, maior dependência de fluidos reciclados ou regenerados, aumento do tempo de aquisição e logística, contratação de profissionais especializados e maior necessidade de manutenção preventiva.

Segundo Mauro, a escolha entre retrofit e substituição completa depende das características de cada instalação. “A escolha da alternativa ao R-22 deve ser feita individualmente para cada instalação. Não existe uma solução universal que possa ser aplicada a todos os supermercados”, destaca.

Entre os critérios estão idade e estado dos equipamentos, histórico de vazamentos e falhas, eficiência energética, disponibilidade de peças, custo do retrofit, investimento em um novo sistema, prazo de retorno e disponibilidade de assistência técnica.

Experiência com CO₂

A rede Delta Supermercados, do interior paulista, vem acompanhando os resultados da iniciativa em parceria com a fornecedora de refrigeração NSF. A experiência também trouxe desafios para a equipe técnica da empresa. “Decidimos implementar o CO₂ em uma primeira loja em Americana, como projeto piloto de loja verde, com a pretensão de avaliar o desempenho comparando com outras lojas que temos com outros gases”, conta Alexandre Ferrato, CEO da rede.

O executivo explica que a comparação entre as unidades não é simples, porque cada loja tem características diferentes. Entre os pontos observados estão a estabilidade da operação, a eficiência térmica e as demandas de manutenção do sistema.

Na operação, a empresa identificou mudanças no comportamento do sistema. “Percebemos operação mais estável e maior eficiência térmica. O sistema também é mais compacto. Na manutenção, exige equipe mais especializada, mas tem menos vazamentos e menos reposição de gás”, afirma Ferrato.

O investimento inicial foi superior ao de um sistema convencional com R-22 ou R404A. A empresa ainda está em fase de medição e espera redução dos custos de energia e manutenção no médio prazo.

A experiência reforça um dos pontos destacados pela APAS: a transição precisa ser planejada com antecedência e considerar as características e possibilidades de cada operação. Para os supermercados, o caminho envolve mapear os equipamentos, reforçar a manutenção preventiva, controlar vazamentos e avaliar, de forma gradual, as alternativas tecnológicas disponíveis.

Deixe seu comentário