Por Redação
5 de maio de 2026Reforma Tributária: o que muda para os supermercados
Especialistas detalham como a transição para o IVA dual vai redesenhar preços, margens e o comportamento do consumidor nas gôndolas brasileiras
A Reforma Tributária aprovada no Brasil representa a mais profunda reestruturação do sistema de impostos em décadas — e o varejo supermercadista está entre os segmentos que mais sentirão seus efeitos. A substituição de tributos como PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS por um modelo de Imposto sobre Valor Agregado (IVA) Dual, composto pela CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), de competência federal, e pelo IBS (Imposto sobre Bens e Serviços), de estados e municípios, redefine as regras do jogo para toda a cadeia. Da precificação ao fluxo de caixa, passando pela logística e pela gestão de fornecedores, nada ficará exatamente como era.
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Para o setor supermercadista, os impactos são concretos e urgentes. A criação de uma Cesta Básica Nacional com alíquota zero abre oportunidades de acesso a itens essenciais, mas exige revisão tributária de todo o portfólio. O novo Imposto Seletivo — apelidado de "imposto do pecado" — recairá sobre bebidas alcoólicas, açucaradas e produtos fumígenos, categorias relevantes no mix de qualquer rede. E a adoção plena da não cumulatividade permitirá créditos sobre aquisições que antes ficavam de fora, como energia elétrica, aluguel e serviços de marketing. O desafio, porém, está em transformar esse conjunto de mudanças em vantagem competitiva antes que a concorrência o faça.
Novos tributos, nova lógica de preços
De acordo com João Giacomassi, diretor de produtos para Supermercados da TOTVS, a mudança mais transformadora da reforma pode ser justamente aquela menos visível ao consumidor final. "Com a não cumulatividade plena, as empresas poderão se creditar sobre praticamente todas as aquisições de produtos e serviços, como energia elétrica, aluguel e até serviços de marketing", afirma. "Isso tem o potencial de otimizar a carga tributária real, mas exige um controle muito mais rigoroso", ressalta.
A formação de preços também muda de estrutura. O cálculo "por dentro", no qual o imposto compõe sua própria base, dá lugar ao cálculo "por fora", tornando a tributação mais transparente — mas impondo uma adaptação obrigatória nos sistemas de gestão. Sobre as margens, o executivo identifica um efeito duplo: de um lado, a possibilidade de aproveitamento ampliado de créditos pode melhorar o resultado líquido; de outro, a alíquota padrão do IVA, ainda indefinida, deve ser elevada e seu repasse ao preço final dependerá da dinâmica competitiva de cada mercado. "O 'jogo' para o supermercadista será gerenciar com extrema eficiência o fluxo de créditos", resume o executivo da TOTVS. "Quem tiver processos e tecnologia para garantir o aproveitamento de 100% dos créditos a que tiver direito sairá na frente."
Outro efeito estrutural destacado pelo especialista é a mudança na lógica logística. Historicamente, decisões sobre onde produzir, armazenar e faturar eram influenciadas por benefícios fiscais regionais. Com a tributação passando a incidir no destino, essa equação muda: a expectativa é de redes redesenhadas para eficiência operacional real, com estoques mais próximos da demanda.
Comportamento do consumidor e estratégia de portfólio
Já Daniel Los Angeles, executivo de Novos Negócios e Parcerias da Boavista Tecnologia, reforça que os impactos da reforma vão além do fiscal e devem reconfigurar o comportamento de compra nas lojas. Para ele, a reforma não é só tributária: "ela é estrutural para o modelo de negócios do varejo supermercadista." A expectativa é de migração do consumidor para itens mais baratos caso industrializados e bebidas sofram aumento de carga. Nesse movimento, dois segmentos tendem a se destacar: os produtos básicos, valorizados pela acessibilidade, e as marcas próprias, que devem ganhar tração à medida que o consumidor busca qualidade a preço controlado. Para as redes, esse é um momento estratégico de ampliar a participação de marcas próprias no portfólio — categoria que oferece maior controle de margem justamente quando a pressão sobre os custos aumenta.
Nesse cenário, Daniel defende que a antecipação é o maior diferencial competitivo disponível agora. "Quem se antecipar com análise de dados, pricing inteligente e revisão de portfólio tende a sair na frente", salienta. Entre as frentes prioritárias, ele destaca a simulação de novos cenários de preço com CBS e IBS por categoria, a renegociação de contratos com fornecedores considerando os novos créditos tributários, o investimento em automação fiscal e o fortalecimento de estratégias de marca própria — que oferecem mais controle de margem em um ambiente de maior pressão.
Para João Giacomassi, o caminho começa internamente, com organização e tecnologia. Ele recomenda que cada rede eleja um ponto focal responsável por traduzir a reforma para a realidade do negócio, envolvendo as áreas de TI, fiscal, comercial, financeiro e compras. O saneamento do cadastro de produtos — com revisão da classificação fiscal de todo o mix — é tarefa considerada indispensável. "A hora de agir é agora, porque a espera pode custar muito caro", alerta o diretor da TOTVS. "Comece agora, baseie-se em informações oficiais e use a tecnologia como sua principal aliada para transformar este desafio em uma oportunidade de ganho de eficiência e competitividade."
