Por Redação
2 de janeiro de 2026Entre o excesso e a falta: os desafios da gestão de estoque no supermercado moderno
Evitar ruptura sem inflar o estoque tornou-se um exercício de precisão, que exige indicadores, previsão de demanda e execução rigorosa no chão de loja
Manter o equilíbrio entre capital investido, nível de serviço e disponibilidade em gôndola tornou-se um dos maiores desafios da gestão supermercadista. De um lado, estoques elevados pressionam o caixa e ampliam perdas; de outro, qualquer falha de abastecimento se traduz rapidamente em ruptura, perda de venda e impacto direto na fidelidade do consumidor.
Segundo Eduardo Terra, presidente da SBVC (Sociedade Brasileira de Varejo e Consumo), esse equilíbrio deixou de ser apenas um exercício de gestão tradicional para se tornar um trabalho de alta precisão. “Hoje, não é mais possível equilibrar estoque apenas com processo; isso exige tecnologia, dados e, cada vez mais, inteligência artificial, para aumentar a acuracidade da previsão e reduzir o risco de errar para mais ou para menos”, afirma.
A volatilidade do consumo, intensificada por promoções frequentes, mudanças de comportamento e fatores externos como clima e eventos sazonais, tornou a previsão de demanda um ponto crítico da operação. Para Terra, o uso de dados externos, como previsão do tempo e calendário de eventos, passou a ser determinante para melhorar as decisões de compra. “Quanto melhor a previsão, maior a precisão na compra e menor a chance de gerar ruptura ou excesso”, explica.
Na mesma linha, Christiane Cruz Citrângulo, diretora executiva de Supply Chain e Execução do Varejo da Neogrid, destaca que prever demanda hoje é um exercício de antecipação dinâmica. “O histórico puro já não é suficiente, pois hoje é preciso captar rapidamente sinais de mudança no comportamento do consumidor para evitar compras inadequadas, que geram tanto ruptura quanto estoque inflado”, defende.
Indicadores fazem a diferença
A leitura correta dos indicadores também ganhou complexidade. Giro, cobertura, ruptura e OSA (On Shelf Availability) continuam sendo fundamentais, mas precisam ser analisados de forma integrada e com alto nível de granularidade.“O indicador só funciona se for detalhado por categoria, loja, subcategoria e até por SKU”, ressalta Terra, que chama atenção ainda para o chamado estoque virtual: quando o sistema indica saldo positivo, mas o produto não está fisicamente disponível. “Nesse caso, o varejista não compra porque acredita ter estoque, mas a venda não acontece porque o item não está na gôndola”, alerta.
Para Marcelo Paciolo, head de Supply Chain da AGR Consultores, o erro mais comum do varejo é analisar indicadores de forma isolada. “Buscar giro elevado sacrificando cobertura aumenta matematicamente a probabilidade de ruptura, enquanto no sentido oposto, elevar cobertura sem controle destrói capital e amplia perdas”, avalia .
Categorias como FLV, laticínios e itens de alto giro concentram grande parte das rupturas e perdas. Para os especialistas, o desafio está menos na compra e mais na execução diária. “Perecíveis exigem gestão por tempo. O risco não é apenas a ruptura, mas a perda silenciosa causada por falhas no recebimento, no armazenamento e na reposição de gôndola”, explica Paciolo
Christiane reforça que essas categorias pedem diagnósticos diários por SKU e loja. “É fundamental identificar rapidamente se o problema é abastecimento, estoque virtual ou falha de execução, pois sem esse nível de detalhe, o impacto sobre a imagem do varejo é imediato”, pontua.
Planejamento de picos
Datas como Páscoa, festas juninas e Natal ampliam o risco de erro. Para evitar sobras no pós-evento, o consenso é abandonar a lógica de “empilhar estoque” e investir em cadeias mais ágeis. “O diferencial competitivo está na capacidade de resposta rápida à demanda, com redistribuição, fornecedores de lead time curto e sistemas que reajam ao sell out em dias, não em semanas”, afirma o consultor da AGR.
No fim, reduzir ruptura sem inflar estoque passa mais por processo do que por volume. “A ruptura não se combate com mais estoque, mas com disciplina operacional, indicadores bem lidos e governança de dados no chão de loja”, conclui Paciolo.