Por Redação
4 de maio de 2026Do CPF na nota ao vínculo contínuo: como supermercados transformam dados em relacionamento e recorrência
Redes e fornecedores de tecnologia mostram que o futuro da fidelização no varejo alimentar passa por CRM, personalização e integração de canais para converter cadastro em engajamento de longo prazo
Durante anos, o CPF na nota foi tratado pelo varejo supermercadista como uma ferramenta transacional, associada a identificação de compra, promoções e obrigações fiscais. Mas, em um ambiente em que retenção, recorrência e relevância passaram a ser ativos estratégicos, esse modelo vem evoluindo. Mais do que capturar dados no checkout, a nova lógica do setor está em transformar o cadastro em inteligência, e a inteligência em relacionamento contínuo. Nesse movimento, supermercados começam a usar histórico de compras, jornadas personalizadas e integração entre canais para construir conexões mais duradouras com o consumidor, deslocando o foco da simples identificação para o engajamento.
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Na visão de Paula Cardoso, gerente de Marketing Digital e CRM da rede Supernosso, o avanço começa quando o CPF deixa de ser apenas um registro e passa a organizar toda a jornada do shopper. “A gente evoluiu esse papel. O CPF deixou de ser apenas um dado cadastral e passou a ser a chave que conecta toda a jornada do cliente. A partir dele, conseguimos integrar o comportamento de compra entre loja física, e-commerce e app, consolidando essas informações em uma visão única. Com o apoio do Salesforce Marketing Cloud, estruturamos essa base e passamos a trabalhar os dados de forma estratégica”, afirma a gerente de marketing digital e CRM.
Segundo a executiva, a mudança está menos na coleta de dados e mais na capacidade de gerar relevância ao longo do tempo. “Hoje não olhamos só para a compra isolada, mas para padrões de comportamento: frequência, categorias mais consumidas, ticket, momentos de consumo e canais preferidos. É isso que sustenta nossa estratégia de relacionamento e personalização. Conseguimos segmentar melhor, definir jornadas específicas e ativar comunicações e ofertas mais relevantes ao longo do tempo”, destaca Paula Cardoso.
De acordo com Raylander Henrique da Silva, diretor Comercial da VR Software, olhando para o setor ainda existem barreiras para essa evolução, especialmente quando o CPF permanece restrito à função operacional. “Na prática, o ‘CPF na nota’ ainda é muito utilizado como uma ação fiscal ou promocional, e não como parte de uma estratégia estruturada de relacionamento. Muitos varejistas ainda não transformam esses dados em inteligência acionável. Falta integração entre sistemas, organização da base de dados e, principalmente, uma visão mais estratégica de que relacionamento gera recorrência e aumento de ticket”, avalia.
Personalização em escala e o avanço do engajamento
Para Paula Cardoso, o diferencial está em fazer com que os dados saiam da base e se convertam em ativação prática. “A gente tem uma preocupação muito grande de não deixar dado parado. Tudo que a gente coleta precisa virar ação. Hoje, o histórico de compras já é usado de forma bem prática no dia a dia. Conseguimos trabalhar ofertas muito mais direcionadas, olhando para o que o cliente realmente consome”, explica a executiva.
Segundo a gerente do Supernosso, a personalização já avança para jornadas coordenadas e experiências mais sofisticadas. “Hoje a gente já tem jornadas rodando que acompanham o cliente desde a entrada até a retenção, usando e-mail, push, SMS e WhatsApp de forma coordenada. Além disso, esse mesmo histórico de compras tem um papel fundamental na nossa estratégia de retail media, permitindo direcionar a campanha certa, para o cliente certo, no momento certo”, aponta Cardoso.
Na visão de Raylander Henrique da Silva, a fidelização passa a ser consequência de uma estratégia mais ampla de engajamento. “A partir do histórico de compras, é possível identificar padrões de consumo e criar campanhas segmentadas, como cupons personalizados, ofertas direcionadas e comunicações automatizadas. Mais do que pensar apenas em fidelização, o ponto-chave está no engajamento contínuo do cliente. Clientes engajados interagem mais, retornam com maior frequência e constroem uma relação ativa com a marca”, analisa o diretor.
Omnicanalidade e jornada integrada como novo padrão
Para Paula Cardoso, o avanço do relacionamento contínuo depende da quebra da lógica de canais isolados. “O cliente não pensa em canal, ele simplesmente compra. Então não faz sentido a gente trabalhar de forma separada internamente. Hoje, conseguimos ter uma visão mais integrada e orquestrar melhor as comunicações. Nosso foco não é o canal, é a experiência. O cliente precisa sentir em qualquer ponto de contato”, afirma a executiva.
De acordo com Raylander Henrique da Silva, integração tecnológica deixou de ser suporte e passou a ser condição para a estratégia funcionar. “A integração entre sistemas é o que viabiliza uma visão única do cliente. Quando PDV, ERP, aplicativos e canais como WhatsApp não conversam entre si, o varejista perde eficiência e consistência na comunicação. O erro mais comum é tratar essas ferramentas de forma isolada, sem uma estratégia integrada”, observa o executivo.
Segundo o diretor da VR Software, quando dados de comportamento passam a ser interpretados em profundidade, abre-se espaço para decisões mais preditivas. “Frequência de compra, ticket médio, categorias mais consumidas e recorrência de produtos são fundamentais. Quando esses dados são bem trabalhados, o varejista consegue antecipar necessidades, como reposição de produtos, e atuar de forma mais proativa”, ensina Silva.
Da fidelidade à previsibilidade do negócio
Para Paula Cardoso, a evolução dos programas de relacionamento também muda a forma de medir resultados. “A gente acompanha indicadores clássicos, como frequência, ticket médio, retenção, churn e LTV, mas sempre olhando esses indicadores dentro de uma lógica de relacionamento, não isolados. O que temos visto na prática é que clientes mais engajados com CRM e com o Prime tendem a comprar mais vezes, aumentar ticket e se manter ativos por mais tempo”, destaca a gerente.
Na avaliação da executiva de Marketing e CRM do Supernosso, o próximo salto está em escalar personalização com inteligência sem perder eficiência. “Temos avançado com o uso de inteligência artificial, que nos permite analisar grandes volumes de dados, identificar padrões de comportamento e prever propensão de compra com mais precisão. No fim, o desafio não é só personalizar mais, mas personalizar melhor, de forma inteligente, eficiente e conectada ao negócio”, diz Paula Cardoso.
Para o diretor Comercial da VR Software, o impacto dessa transformação já aparece de forma concreta em operações que estruturam relacionamento baseado em dados. “Observamos aumento na frequência de compra, crescimento do ticket médio e melhora nos indicadores de relacionamento com o cliente. O varejista deixa de atuar de forma reativa e passa a operar com inteligência, construindo estratégias consistentes, mensuráveis e orientadas por dados, que impactam diretamente no crescimento das vendas e na recorrência de compra”, conclui Silva.
