Por Redação
4 de maio de 2026Eficiência que alimenta o lucro
Como supermercados operam no mercado livre de energia
No varejo supermercadista, onde as margens são historicamente apertadas e a operação é intensiva em consumo energético, a eletricidade deixou de ser apenas uma despesa inevitável para assumir um papel estratégico. A adesão ao mercado livre de energia marca uma virada nesse cenário, permitindo que as redes avancem de uma gestão passiva para uma atuação mais inteligente, com ganhos em previsibilidade, eficiência e competitividade.
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O movimento já é significativo. Nos últimos anos, os supermercados lideraram a migração dentro do setor de comércio, impulsionados pela busca por redução de custos e maior controle sobre um dos principais itens do orçamento. A economia, que pode chegar a até 30% em relação ao mercado cativo, impacta diretamente o resultado das operações e abre espaço para novos investimentos.
Na prática, as redes que já operam nesse modelo mostram que o benefício vai além da conta de energia. No Grupo TriMais, por exemplo, três unidades já migraram para o mercado livre, combinando redução de custos com o uso de fontes renováveis. “O TriMais tem adotado soluções que atrelam redução de custo com sustentabilidade, como a aquisição de energia elétrica dentro do mercado livre, que além de ser mais barata, vem de fontes limpas e renováveis”, afirma Leandro Santos, gerente de Facilities do grupo.
A iniciativa também reforça o posicionamento da empresa, mas exige uma gestão mais sofisticada. A compra de energia passa a depender de decisões estratégicas, como o acompanhamento de indicadores e a identificação de janelas mais favoráveis de contratação. “É necessário estar sempre atento às possíveis janelas de oportunidade de contratação de energia, avaliando os indicadores que influenciam na formação do preço, para realizar contratações mais assertivas”, completa o executivo. Essa lógica mais ativa também se reflete no planejamento de longo prazo. A rede já avalia a incorporação de novas tecnologias para ampliar ainda mais a eficiência energética.
No Grupo Pereira, a energia já é tratada como um pilar estruturante da operação, combinando atuação no mercado livre, automação de sistemas, monitoramento do consumo e geração própria, como energia solar. “A migração para o mercado livre de energia é um passo estratégico para o varejo supermercadista, principalmente por conta do alto consumo energético das operações”, destaca Samuel Mutini, gerente nacional de Energia e Manutenção no Grupo Pereira.
Segundo o Grupo, o impacto vai além da economia direta. “Do ponto de vista financeiro, o ganho mais evidente é a redução de custos. Em um setor de margens estreitas, isso impacta diretamente a competitividade e a capacidade de investimento”, reforça Mutini.
Ao mesmo tempo, a previsibilidade passa a ser um diferencial relevante na gestão. “No aspecto energético, ganha-se previsibilidade e autonomia. A empresa passa a ter mais controle sobre contratos, volumes e prazos, permitindo uma gestão muito mais eficiente do consumo”, aponta o executivo.
Mudança exige preparo
Nesse contexto, a gestão energética deixa de ser reativa e passa a integrar o centro das decisões do negócio. O controle mais preciso do consumo e dos contratos reduz surpresas, melhora a eficiência operacional e contribui diretamente para a competitividade. Em muitos casos, a economia gerada é reinvestida na expansão da rede ou na modernização das lojas.
Outro vetor importante dessa transformação é a sustentabilidade. O acesso a fontes renováveis permite que os supermercados avancem na redução da pegada de carbono e fortaleçam seu posicionamento diante de consumidores cada vez mais atentos.
“A sustentabilidade deixou de ser apenas uma agenda institucional e passou a influenciar diretamente a decisão de compra dos consumidores”, destaca o executivo do Grupo Pereira. “Quando utilizamos energia limpa, reforçamos nosso posicionamento como uma companhia responsável, o que fortalece a marca e gera confiança”.
Apesar dos avanços, a migração ainda exige preparo. A complexidade regulatória, a necessidade de conhecimento técnico e a gestão estratégica dos contratos continuam sendo barreiras para parte do setor. O principal desafio ainda é a complexidade do processo, que exige conhecimento técnico e uma gestão mais ativa da energia, segundo avalia o Grupo Pereira.
Já no caso do TriMais, fatores externos também entram na equação. “Além das mudanças regulatórias, o momento de mercado, com preços mais elevados, pode impactar a atratividade da migração em alguns casos”, pondera Santos.
O que se desenha, no entanto, é um cenário em que a energia ocupa um novo lugar na agenda do varejo supermercadista. Mais do que reduzir custos, trata-se de incorporar inteligência à operação, ganhar previsibilidade e alinhar eficiência com sustentabilidade. “A tendência é que a energia deixe de ser tratada apenas como um custo operacional e passe a ocupar um papel estratégico dentro das empresas”, conclui Mutini.
Em um setor pressionado por margens, essa transformação pode ser decisiva não apenas para manter a competitividade, mas para sustentar o crescimento nos próximos anos, afinal a energia é um vetor central da operação supermercadista, sustentando atividades críticas como refrigeração, climatização e iluminação.
As redes mais maduras passaram a administrá-la como uma agenda de eficiência, previsibilidade e competitividade, o que envolve modernização da cadeia de frio, uso de LED, automação, monitoramento contínuo e uma visão estruturada sobre contratação. “A Cencosud Brasil utilizou soluções de medição em tempo real para monitorar o consumo, resultando em uma redução de 3.840 MWh em 10 meses, evitando 658 toneladas de CO2 e diminuindo em 98% o consumo pós-horário dos sistemas de ar-condicionado”, explica Luma Boufleur, head de consultoria de energia na Schneider Electric, que tem como cliente a rede supermercadista.
Dados da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) revelam a magnitude desse movimento: em 2025, o ambiente de contratação livre registrou a entrada de mais de 21,7 mil novos consumidores, totalizando cerca de 85 mil participantes que respondem por 43% de toda a eletricidade consumida no Brasil. Somente em 2024, os supermercados lideraram as migrações no setor de comércio, com 1.248 unidades aderindo ao novo modelo.
