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Tecnologia
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Por Redação
18 de março de 2026

Tecnologia: como os supermercados estão investindo em IA no e-commerce

Uso de dados e algoritmos vem redesenhando a jornada digital, a gestão de estoques e a eficiência das operações no varejo alimentar

A inteligência artificial (IA) passou a ocupar posição estratégica no e-commerce dos supermercados brasileiros. Mais do que uma inovação pontual, a tecnologia vem sendo aplicada para resolver problemas “comuns” do setor, como ruptura de estoque, baixa conversão, dificuldade de personalização e pressão sobre margens. As iniciativas se concentram tanto na experiência do consumidor quanto na retaguarda operacional, criando um elo mais eficiente entre o que o cliente busca na tela e o que a loja consegue entregar.

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Segundo Maurício Salvador, presidente do conselho da ABCOMM (Associação Brasileira de Comércio Eletrônico), a IA já atua em quatro frentes principais nos supermercados: personalização e recomendação de produtos, previsão de demanda e ruptura, precificação dinâmica e automação do atendimento. “Em supermercados, onde a compra é de abastecimento, essa inteligência tem impacto maior do que em outros segmentos”, afirma. Para ele, a combinação entre recomendação contextual e gestão de estoque é onde o retorno financeiro aparece com mais força.

Na mesma direção, Cynthia Prado Andrade de Menezes, gerente sênior LATAM de Estratégias Digitais da Neogrid, explica que a IA vem sendo aplicada principalmente em três eixos: personalização da jornada, decisões comerciais e eficiência operacional. “Na jornada de compra, os algoritmos analisam histórico, recorrência e comportamento de navegação para organizar vitrines, priorizar categorias e recomendar produtos com maior aderência ao perfil do consumidor”, diz. O resultado, segundo ela, é a redução de fricções e o aumento da conversão e do tíquete médio.

Jornada digital mais personalizada e inteligente

Conforme os especialistas, a personalização é uma das áreas em que a IA mais evoluiu no e-commerce supermercadista. Os sistemas analisam dezenas de microdados dos clientes, como hábitos de compra, frequência, sensibilidade a promoções e últimas aquisições. Com isso, conseguem sugerir produtos relacionados, reposição automática e até reorganizar vitrines e prateleiras conforme o perfil e o momento do consumidor.

Para Salvador, a busca inteligente é peça-chave nesse processo. “A IA entende sinônimos, marcas equivalentes e até erros de digitação, aumentando a taxa de conversão e reduzindo a chance de o consumidor não encontrar o que procura”, afirma. Já a recomendação contextual amplia o potencial de venda: se o cliente compra massa, o sistema sugere molho, queijo e vinho, elevando o valor da cesta.

Já Cynthia destaca que a personalização entrou em um novo patamar com o avanço dos agentes de IA autônomos, no modelo conhecido como agentic commerce. “Eles aprendem em tempo real com cliques, tempo de navegação e abandono de carrinho e passam a sugerir, reorganizar vitrines e até antecipar compras recorrentes”, explica. Na avaliação da executiva, isso reduz a frustração e o tempo até a conversão, aproximando a experiência digital de um atendimento especializado.

A IA generativa também transformou a apresentação dos produtos no e-commerce, conforme Cleber Morais, diretor-geral da AWS. “Ela permite comunicações hiperpersonalizadas, criação automatizada de imagens, descrições mais precisas e resumos de avaliações, facilitando que o consumidor encontre e compre o que deseja com menos atrito”, salienta. Além disso, segundo ele, a tecnologia reduziu drasticamente o tempo gasto pelas equipes no cadastro de produtos, com ganhos superiores a 80% em alguns casos.

Estoque, demanda e logística sob controle algorítmico

Na retaguarda, a IA atua principalmente na previsão de demanda e na gestão de estoques. Modelos preditivos analisam histórico de vendas, clima, calendários promocionais, datas comemorativas e comportamentos regionais para antecipar volumes e orientar compras. Isso ajuda a reduzir tanto a ruptura quanto o excesso de mercadorias, dois problemas recorrentes no varejo alimentar.

Maurício Salvador ressalta que a gestão de estoque se beneficia da leitura de padrões por loja, região e canal. “A IA identifica o giro por unidade e pode sugerir novas compras ou a queima em promoções, reduzindo perdas e melhorando a disponibilidade”, diz. Ele cita o Carrefour como exemplo de uso da tecnologia na previsão de demanda e no abastecimento, especialmente em frutas, legumes e verduras, a partir da centralização de dados de vendas, preços, promoções e perfil de cada loja.

Para Morais, a IA torna a cadeia de suprimentos mais ágil e econômica. “Ela permite antecipar a demanda, ajustar rotas e refinar operações em tempo real, garantindo que o cliente não pague por um produto indisponível nem sofra com atrasos na entrega”, afirma. O executivo cita ainda iniciativas do Assaí Atacadista na leitura de estoque e análise de performance de vendas, e da Amazon.com na previsão de demanda e eficiência de centros de distribuição. No caso de perecíveis, a tecnologia ganha peso adicional.

Desafios passam mais por cultura e dados do que por tecnologia

Apesar do avanço, a adoção da IA ainda enfrenta barreiras importantes. Para Maurício Salvador, o maior obstáculo é cultural. “Os desafios não são tecnológicos, são culturais: ainda há muita resistência por desconhecimento e medo, e treinar as equipes é crucial para trazer a IA para dentro das empresas”, opina o especialista. Segundo ele, muitas redes ainda operam com mentalidade tradicional, o que limita o uso pleno da tecnologia.

Na avaliação de Cynthia, a maturidade na gestão de dados é determinante. “Quando as informações estão fragmentadas entre canais e sistemas, o potencial da IA fica restrito”, diz. A executiva também aponta a necessidade de integração entre áreas comerciais, logística e digital, para que a promessa feita no e-commerce seja cumprida na operação física. Além disso, é preciso transformar análises em ações práticas, como ajustes de sortimento e revisão de preços.

Do ponto de vista da infraestrutura, Morais destaca a segurança da informação como pilar central. “O uso de IA exige políticas responsáveis e mecanismos robustos de proteção para garantir confiança e conformidade com a legislação”, afirma. Ele lembra que a maioria das empresas brasileiras ainda está em estágios iniciais de uso da tecnologia, obtendo ganhos incrementais, enquanto uma parcela menor já consegue reinventar produtos e serviços.

Paulo Moratore, head da Selbetti Retail Experience, acrescenta que a mudança cultural passa pela valorização dos dados e pela adoção responsável. “É preciso organizar as informações, definir diretrizes de governança e respeitar a LGPD para usar o potencial da IA de forma ética e segura”, diz. Para ele, o caminho mais eficiente é começar por projetos-piloto em problemas reais e, à medida que a equipe ganha confiança, ampliar o uso para outras áreas.

Com aplicações que vão da recomendação de produtos à previsão de demanda e à logística, a inteligência artificial vem se consolidando como um dos principais vetores de transformação do e-commerce supermercadista. O desafio agora é avançar em cultura, integração e governança para que a tecnologia deixe de ser apenas uma ferramenta de apoio e passe a integrar, de forma estruturada, a estratégia digital dos supermercados.

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