Por Daniele Motta
10 de agosto de 2026O shopper sem álcool redesenha a gôndola: cinco perfis, uma jornada e o que muda na gestão de categoria
Confira o primeiro artigo exclusivo de Daniele Motta, VP de Trade e Shopper Marketing na SHOP!Br
Por muito tempo, o corredor de bebidas alcoólicas foi tratado pelo varejo como zona de certeza: giro previsível, margem conhecida, comprador fiel à marca. Os dados de 2025 e 2026 mostram que essa certeza está sendo redesenhada — e não por um movimento passageiro de “Janeiro seco”, mas por uma mudança estrutural de comportamento que já aparece no ticket médio, no mix de categorias e na frequência de compra.
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Mais da metade dos brasileiros aproximadamente 53%, segundo pesquisa do Datafolha reduziu o consumo de álcool no último ano. Entre a Geração Z, apenas 45% ainda bebe, contra 57% dos Millennials e 67% da Geração X. Em nível global, o consumo de bebidas sem álcool cresceu 9% em volume em 2025, com projeção de alta acumulada de 36% entre 2024 e 2029.
O caso mais maduro dessa transição é a cerveja sem álcool. O Brasil deve consumir 885 milhões de litros da categoria em 2026 e já representa o segundo maior mercado do mundo. A produção nacional saltou 537% entre 2023 e 2024, passando a representar quase 5% de toda a cerveja produzida no país. E o dado mais relevante para quem decide sortimento e espaço de gôndola: o ticket médio desse shopper subiu de R$ 26 para R$ 32, com aumento também na quantidade de unidades levadas por compra. Ou seja, esse consumidor não está economizando, ele está gastando mais, só que em outra parte da prateleira.
Por que isso acontece: o motor é comportamental, não apenas de restriçãoUm estudo com 80 mil usuários que reduziram ou eliminaram o álcool mostra o que está por trás da decisão de compra: após 90 dias de abstinência, ganho médio de 47 minutos de sono por noite e perda de 3,2 kg. Quem corta álcool também passa a comprar 18% mais proteína. Isso significa que o comportamento não fica isolado na seção de bebidas, ele se espalha pela cesta inteira, incluindo hortifruti, frios e suplementação.
Cinco perfis de shopper, cinco gatilhos de compra diferentesTratar "sem álcool" como uma categoria com um comprador padrão é o principal erro estratégico nesse momento. Cruzando os estudos mais recentes do setor, é possível identificar pelo menos cinco perfis, cada um respondendo a um gatilho distinto.
O sóbrio curioso, majoritariamente Geração Z, decide por identidade e controle. Lê rótulo, pesquisa antes de comprar e é o público mais sensível a discurso vazio de sustentabilidade ele quer ingrediente natural de verdade, não apenas embalagem verde. Também é possível identificar esse comportamento na categoria de saudabilidade que exploramos na revista de julho.
O biohacker funcional busca performance cognitiva. É esse shopper que sustenta o mercado global de adaptógenos, avaliado em US$ 10 bilhões em 2022 e com projeção de quase dobrar até 2032. Paga preço premium por benefício funcional claro, mas tem baixa fidelidade de marca e testa muito e migra rápido.
O moderador social, conhecido como "zebra listrada", alterna bebida alcoólica e zero na mesma ocasião social para manter o controle sem abrir mão da sociabilidade. Esse perfil só confia em marca que já conhece e por isso converte mais quando a gôndola expõe lado a lado a versão tradicional e a versão zero da mesma marca.
O recuperador pós-esforço compra cerveja sem álcool associada a treino e corrida de rua, buscando recuperação física e sociabilidade pós-atividade. É justamente esse o perfil com maior ticket médio da categoria hoje.
O consumidor dentro de casa premium quer recriar em casa a experiência que teria fora com vinho desalcoolizado, kombucha, mocktail pronto para beber e sempre puxando junto itens de frios e hortifruti, especialmente em datas de consumo concentrado no lar.
A jornada não é um funil únicoO mesmo estudo com 80 mil usuários revela que essa decisão segue uma jornada em quatro estágios:
- gatilho pessoal: busca saúde, curiosidade ou busca por performance;
- substituição ativa do que se bebia antes: os principais substitutos noturnos são água com gás, mocktails, kombucha e cafés descafeinados;
- consolidação do hábito: com resultado mensurável em sono, peso e frequência cardíaca;
- identidade social: quando a escolha zero deixa de ser restrição e passa a ser posicionamento pessoal.
O erro mais comum do varejo é tratar essa jornada como linear e única para todos os perfis. O zebra listrada, por exemplo, nunca chega à consolidação total e não precisa chegar. Ele já é rentável no estágio de substituição, comprando combos híbridos de bebida alcoólica e zero na mesma visita.
O que muda na gestão de categoriaPara o varejo alimentar, três movimentos práticos que já podem ser aplicados no ponto de venda:
Tirar a cerveja zero do canto isolado da loja e posicioná-la ao lado de isotônicos e snacks leves, pois esse é o local onde o recuperador pós-esforço efetivamente circula.
Rever o espaço linear da seção de destilados e vinhos, redistribuindo parte dele para as versões sem alcool, que crescem mais rápido em volume e sustentam margem superior.
Priorizar extensões de marcas já consolidadas no sortimento de zero álcool, já que o shopper brasileiro segue resistente a marcas desconhecidas nesse território, uma vez que a confiança de marca converte mais rápido do que a novidade.
O risco de não agir agora não é perder uma tendência de nicho. É deixar a concorrência ocupar primeiro um espaço de gôndola que projeções do setor apontam crescer até cinco vezes mais rápido que o mercado tradicional de bebidas alcoólicas até 2028.
O que fica para o varejoO movimento sem álcool não é mais uma categoria emergente que pode esperar o próximo planejamento anual. Ele já tem volume, ticket médio crescente e comportamento de compra documentado o suficiente para justificar decisão agora e não daqui a um ou dois ciclos de reposicionamento de gôndola.
FontesBHB Food —
Ascensão das bebidas sem álcool transforma a gastronomia.
Bloomberg Línea
— Bebidas alternativas sem álcool criam mercado de US$ 10 bilhões e atraem
capital.
Afrebras —
Bebidas sem álcool devem consolidar papel de destaque em 2026.
Palenox — O
boom das bebidas sem álcool no Brasil: quando o "brinde consciente"
vira tendência.
IJFMR
(International Journal for Multidisciplinary Research) — Market Potential &
Consumer Behavior Towards Nonalcoholic Wines.
NielsenIQ (NIQ)
— Geração Z, saudabilidade, consumo no lar e sazonalidade moldam as tendências
da Copa em 2026.
Nutrola — Sober
Curious: Relatório de Dados de Redução de Álcool de 80 mil Usuários, 2026.
Revista VEJA —
Um brinde à moderação: o crescimento do mercado de cervejas sem álcool, julho
de 2026 G1 — Brasil com menos álcool: entenda o que está por trás da mudança e
como o mercado reage.