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Por Felipe Queiroz
9 de março de 2026

O que esperar da economia em 2026?

Confira o primeiro artigo exclusivo de Felipe Queiroz, economista-chefe da Associação Paulista de Supermercados (APAS), para a SuperVarejo

Foi com muita alegria que recebi o convite da SuperVarejo para escrever neste espaço. Como economista “puro-sangue”, mas criado no varejo, espero construir com você, leitor, um espaço de debate sobre como as variáveis econômicas impactam o setor.

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Não haveria tema melhor para inaugurar esta coluna do que o resultado do PIB divulgado nesta semana e as projeções para 2026.

Dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 3 de março, mostram que o PIB do país cresceu 2,3% em 2025, após uma alta de 3,4% no ano anterior. O crescimento foi apoiado, de um lado, pelos setores de Agropecuária (11,7%), Serviços (1,8%) e Indústria (1,4%). Do outro, os investimentos cresceram 2,9%, enquanto os gastos do governo avançaram 2,1% e o consumo das famílias aumentou 1,3%.

A economia brasileira continua crescendo, mas em um ritmo menor, e a atual taxa de juros tem contribuição importante para essa desaceleração. Não por acaso, mesmo com a alta anual de 2,9%, os investimentos caíram no último trimestre: recuaram 3,5% em relação ao trimestre imediatamente anterior e 3,1% na comparação com o mesmo período de 2024.

O setor agropecuário tem puxado o crescimento da economia. Mas crescer apoiado apenas na produção e exportação de commodities não é positivo para nenhum país. Entre os efeitos desse tipo de crescimento estão a desindustrialização, a primarização da economia, salários médios mais baixos e perda de competitividade no médio e no longo prazo.

Em relação ao consumo das famílias, os dados do PIB mostram que ele é um importante vetor de crescimento. Ainda assim, os juros e o endividamento têm impedido que, mesmo com a menor taxa de desemprego da série histórica e com o aumento da renda real, o consumo cresça acima (ou ao menos na média) do PIB.

Mas o que podemos esperar da economia em 2026? Será que ela continuará crescendo? E os efeitos da guerra sobre a economia brasileira poderão afetar o crescimento do país?

Fazer projeções nunca é simples, especialmente quando se trata de projeções econômicas. Os economistas nem sempre dizem isso abertamente, mas os modelos econométricos costumam privilegiar apenas um conjunto limitado de variáveis, deixando muitas outras de fora. Por isso, qualquer exercício de projeção, mesmo no curto prazo, sempre exclui parte da realidade. A situação fica ainda mais complexa no cenário atual, marcado por instabilidade e incertezas na conjuntura internacional.

Você, leitor, já deve ter percebido que estou evitando responder diretamente à pergunta sobre o crescimento da economia neste ano. Mas, a análise do PIB e de algumas outras variáveis econômicas e políticas podem dar algumas pistas sobre os rumos da economia brasileira em 2026.

(i) Política monetária: a inflação acumulada de 4,44% sugere espaço para redução da Taxa Selic, atualmente em patamar restritivo. A queda dos juros tende a reativar investimentos e consumo, contribuindo para uma aceleração moderada da atividade econômica. O último ano terminou com a Selic em 15,00% ao ano, e hoje o mercado projeta que ela poderá encerrar 2026 em torno de 12,00%.

(ii) Setor externo: a continuidade da demanda global por commodities pode sustentar o desempenho do agronegócio brasileiro. No entanto, vale lembrar que a dependência dessas exportações pode reforçar a primarização da economia e a desindustrialização.

(iii) Mercado de trabalho: a manutenção do desemprego em níveis historicamente baixos e o crescimento da renda real tendem a favorecer o consumo das famílias, beneficiando especialmente o varejo. Ainda assim, o custo do crédito continua sendo uma variável importante, e pode limitar o crescimento do consumo, como ficou evidente com os dados do PIB.

(iv) Riscos: tensões geopolíticas e oscilações nos preços internacionais podem afetar exportações, inflação, taxa de câmbio e expectativas.

(v) Eleições: historicamente, em anos eleitorais, governos costumam adotar medidas para estimular a economia e melhorar a percepção dos eleitores sobre a gestão.

Enfim, considerando essas variáveis, o cenário para 2026 é de crescimento moderado da economia, condicionado principalmente ao ritmo de flexibilização monetária e à capacidade de recuperação do investimento, mas não tão “moderado” quanto projeta o mercado. Segundo as projeções do mercado, medidas pelo Boletim Focus, a economia deverá crescer 1,82%. O “mercado” costuma ser excessivamente pessimista e, nos últimos anos, tem errado com frequência suas projeções.

Com base nos indicadores apresentados, acredito que a economia brasileira crescerá mais de 2% neste ano. Vamos aguardar.

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