Por Redação
27 de maio de 2026Textura virou inovação: a nova disputa da indústria de alimentos pela experiência sensorial
Crocância, cremosidade e contrastes táteis ganham protagonismo nas estratégias da indústria e transformam experiência de consumo em diferencial competitivo no varejo alimentar
A experiência de consumo deixou de estar concentrada apenas no sabor e passou a envolver estímulos cada vez mais complexos dentro da indústria de alimentos. Em meio a um consumidor mais conectado, visualmente estimulado e em busca de novidades constantes, a textura ganhou protagonismo nas estratégias de inovação das marcas. Crocância, cremosidade, contrastes sensoriais e construções híbridas passaram a funcionar como ferramentas de diferenciação no varejo supermercadista, impulsionando lançamentos que unem indulgência, memória afetiva, funcionalidade e apelo visual. O movimento acompanha uma transformação mais ampla do setor, que passou a enxergar a experiência tátil e multissensorial como elemento central de competitividade e valor agregado.
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Segundo João Ramalho, head de Inovação e Renovação de Confectionery da Nestlé Brasil, a textura passou a ocupar posição estratégica dentro do desenvolvimento de produtos. “A textura é um dos principais vetores de diferenciação na indústria de alimentos. Hoje, ela é trabalhada de forma estratégica desde o desenvolvimento até a entrega final ao consumidor, porque influencia diretamente a percepção de qualidade e valor agregado”, afirma Ramalho.
De acordo com o executivo, a evolução tecnológica permitiu ampliar a complexidade sensorial dos produtos e criar novas possibilidades de consumo dentro das categorias tradicionais. “Na Nestlé, essa evolução está muito conectada ao avanço da ciência de alimentos e ao uso de tecnologias que permitem modular estruturas, criar contrastes e equilibrar a liberação de sabor ao longo da mastigação. Mais do que reproduzir sensações conhecidas, o foco tem sido construir experiências mais agradáveis e envolventes, em que diferentes camadas sensoriais coexistem e evoluem durante o consumo”, explica Ramalho.
Multissensorialidade ganha força no varejo
Na visão da Nestlé Brasil, os produtos que conseguem reunir diferentes estímulos sensoriais dentro da mesma experiência tendem a gerar maior conexão com o consumidor. “Inclusive, os maiores lançamentos que fizemos recentemente foram justamente produtos que se valem dessa multisensorialidade”, destaca Ramalho.
Segundo o executivo, um dos movimentos mais relevantes está na combinação de texturas contrastantes dentro de um mesmo produto. “A nossa linha de ChocoBakery, onde há diversos produtos como ChocoBiscuit, ChocoCookies, ChocoPretzel, que juntam a crocância dos biscoitos com a cremosidade dos chocolates e recheios”, diz Ramalho.
De acordo com Flávia Carneiro, gerente de Produtos em Kopenhagen, o mercado premium também passou a explorar a textura como componente essencial da indulgência. “Já pensando em Kopenhagen, igualmente temos a linha Forno K, que conta com wafer, recheio e chocolate, e traduz exatamente essa multisensorialidade num conceito com a sofisticação e indulgência da marca Kopenhagen. Temos no portfólio lançamentos recentes que exploram o contraste sensorial, como os canudos wafer com recheio cremoso e cobertura de chocolate, e o wafer Língua de Gato, que combina camadas crocantes de wafer com recheio e cobertura de chocolate ao leite, criando uma experiência que equilibra textura, cremosidade e indulgência”, afirma Flávia.
Sensação tátil impulsiona recompra e valor percebido
A construção de experiências sensoriais mais elaboradas também passou a influenciar diretamente a percepção de valor dos produtos dentro das categorias de alto giro. Segundo João Ramalho, a textura atua como elemento decisivo para transformar a experimentação em fidelização. “A experiência sensorial é, muitas vezes, o fator que transforma uma compra pontual em hábito. Em categorias de alta recorrência, o consumidor tende a desenvolver uma expectativa muito clara em relação à textura, seja a cremosidade de um chocolate, a crocância de um snack ou a consistência de um produto proteico”, analisa Ramalho.
Na avaliação do executivo, a consistência sensorial se tornou um dos principais desafios da indústria diante de consumidores mais exigentes e atentos à experiência de consumo. “Quando essa expectativa é atendida ou superada, há um reforço positivo que sustenta a recompra. Além disso, a experiência sensorial está fortemente associada à memória e emoção, o que contribui para a construção de vínculo com a marca ao longo do tempo. Por outro lado, qualquer inconsistência pode impactar rapidamente a percepção de qualidade e, por isso, garantir uma entrega sensorial consistente é tão importante quanto inovar”, afirma Ramalho.
Para Flávia Carneiro, a indulgência premium também passou a depender de uma entrega tátil mais refinada e equilibrada. “Ainda exploramos em produtos da marca Língua de Gato, a textura extra cremosa derrete na boca. O produto é ao leite, com maior teor de leite se comparado às versões tradicionais”, destaca a executiva.
Saudabilidade e prazer passam a coexistir
A indústria também passou a enfrentar o desafio de manter prazer e indulgência em produtos voltados à saudabilidade e funcionalidade. Segundo João Ramalho, a textura se tornou peça-chave nesse equilíbrio. “O avanço dos produtos funcionais trouxe um desafio importante: garantir que o benefício nutricional venha acompanhado de uma experiência prazerosa. Nesse contexto, o trabalho com textura é bastante relevante”, aponta Ramalho.
De acordo com o executivo, o desenvolvimento tecnológico permite reconstruir atributos sensoriais mesmo em formulações mais funcionais. “A Nestlé investe em tecnologias e ingredientes que permitem preservar ou reconstruir características desejadas, como cremosidade, leveza ou estrutura, mesmo em produtos com redução de açúcar, gordura ou enriquecidos com proteínas e fibras”, explica Ramalho.
Na visão da Nestlé Brasil, o ambiente digital também acelerou a valorização das experiências táteis e visuais no comportamento de consumo. “A experiência sensorial passou a ter também uma dimensão de descoberta e compartilhamento. Em um ambiente em que o consumo começa muitas vezes no digital, atributos visuais e sensoriais ganham relevância como gatilhos de curiosidade”, avalia Ramalho.
A próxima geração de alimentos será sensorial
A combinação entre experiência, conveniência e personalização deve ampliar ainda mais o papel da textura nas estratégias da indústria alimentícia. Segundo João Ramalho, o consumidor tende a exigir produtos mais completos do ponto de vista sensorial. “Texturas diferenciadas, contrastes e formatos inovadores ajudam a contar uma história sobre o produto antes mesmo da experimentação. Isso se reflete tanto no engajamento em redes sociais quanto no comportamento no ponto de venda, onde o consumidor está mais aberto a testar novidades que trazem uma experiência distinta”, afirma Ramalho.
De acordo com o executivo, a inovação sensorial deixará de ser apenas diferencial competitivo e passará a ocupar posição central no desenvolvimento de novos produtos. “A tendência é que a experiência sensorial se torne cada vez mais integrada a outros atributos de valor, como saudabilidade, conveniência e personalização. Creio que do ponto de vista técnico, veremos avanços no uso de estruturas alimentares mais complexas, que permitam criar sensações variadas dentro de um mesmo produto”, diz Ramalho.
Na avaliação da Nestlé Brasil, o consumidor continuará ampliando seu repertório de exigências dentro do varejo alimentar. “Além disso, a digitalização e o acesso à informação ampliam o repertório do consumidor, elevando o nível de exigência em relação à qualidade e à experiência. Nesse cenário, a inovação sensorial deixa de ser diferencial e passa a ser um elemento central de competitividade”, conclui Ramalho.