Vinhos para todas as taças

Vinhos para todas as taças

por TATIANA FERRADOR revista@supervarejo.com.br

O consumo da bebida segue em crescimento, com destaque para as combinações com queijos em busca da harmonização

Os hábitos de consumo dos brasileiros vêm mudando ao longo dos anos, e alimentos e bebidas que antes eram considerados inacessíveis em algumas classes sociais têm se mostrado cada vez mais tangíveis. Além do fator econômico, há também a questão cultural, principalmente quando o assunto é bebida. Se antes a cerveja era unanimidade, ela agora passa a dividir a preferência com outras opções que conquistam cada vez mais espaço nas prateleiras e na mesa dos consumidores, como é o caso dos vinhos.

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A projeção do instituto para daqui a quatro anos é de que este mercado no Brasil alcance um valor total de R$ 7,7 bilhões

Ainda que a ingestão média de cada brasileiro seja irrisória quando comparada à da cerveja – 2 litros x 62 litros/ano –, a previsão da Euromonitor é de que o consumo da bebida aumente até 2019*, quando deverá chegar aos 400,1 milhões de litros no Brasil, registrando crescimento de 4,9%, e ultrapasse a marca dos 30 bilhões de litros na análise global.

Mercado promissor

O ano de 2016 não foi fácil para o varejo de modo geral, e não foi diferente no setor de vinicultura, mas, ainda assim, muitas empresas produtoras de vinho não têm do que reclamar. É o caso da Vinícola Aurora, que mesmo diante de um cenário econômico complexo e desafiador, apresentou bom desempenho, com crescimento de 4% no período.

“O brasileiro está cada vez mais interessado em vinhos e também em cozinhar, o que é uma ótima oportunidade para o mercado de enogastronomia”, diz a gerente de marketing da vinícola, Lourdes Conci da Silva. “Por essa razão, o varejo deve estar preparado com uma boa seleção de vinhos, que atenda a todos esses diferentes perfis de consumo, que efetivamente estão buscando comer e beber bem.”

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LOURENÇO FILHO
, executivo da CRS Brands, diz que o vinho de mesa representa grande volume de vendas no país. Acima, tonéis de vinho da empresa
LOURENÇO FILHO

O fato de o mercado de vinhos no Brasil ainda estar em ascensão é uma promissora oportunidade para o varejo apostar na bebida em suas gôndolas. “Acreditamos que temos uma oportunidade nas mãos, com consumidores querendo entender mais de vinhos, com aumento do número de confrarias, de cursos dessa bebida”, afirma Lourdes.

O Chile lidera o mercado de importações de vinhos, com 49,1%, seguido pela Argentina (15,9%), por Portugal (12,2%), pela Itália (8,9%), pela Espanha (4,4%), pela França (4,3%) e pelo Uruguai (2,5%)

O varejo no país ainda oferece um espaço pequeno para os vinhos brasileiros. E os importados ainda ocupam os maiores espaços*. “Os importados têm um apelo forte pelo fator status, mas temos excelentes opções nacionais. O grande volume comercializado no Brasil está em vinho de mesa, sendo esse o preferido pelo consumidor”, explica o diretor comercial e de marketing da CRS Brands, Lourenço Filho. Para o executivo, na hora da compra, o brasileiro analisa a tríade tradição, visual dos rótulos e também o custo-benefício.

Por ser um mercado relativamente novo, os vinhos de entrada têm um papel determinante no volume consumido. Quando o consumidor começa a degustar vinho, está em busca de uma bebida mais leve, suave, com menos complexidade, que lhe proporcione prazer.

Em busca de compensações para a queda do poder econômico, a insegurança e até a lei seca, o brasileiro busca alternativas de autoindulgência – “eu mereço” – que podem ser muito vantajosas para o varejista que souber aproveitar essa demanda crescente. “A sugestão de um espaço nos supermercados destinado a queijos e vinhos, por exemplo, é sempre uma ótima opção, visto que reunir amigos e família para tal degustação é uma prática que vem crescendo e que favorece o aumento do tíquete médio”, pondera a gerente da Aurora.

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Exposição

Os supermercados vêm cuidando melhor dos espaços de vinhos, oferecendo diversas opções, e alguns têm inovado bastante, convidando fornecedores de vinhos, massas, queijos para apresenta- ção conjunta aos seus clientes.

A ideia é despertar o interesse dos consumidores, atendendo a diferentes perfis de consumo, com exposições diferenciadas, buscando sair do ponto natural para as áreas que tenham afinidade com vinhos. “Massas, queijos, pães, molhos, expostos com vinhos próximos podem despertar o cliente para um jantar diferente e elevar o tíquete médio”, analisa Lourdes.

Muitos supermercados já usam canais como Facebook, YouTube ou mesmo os tabloides como ferramentas para divulgar receitas e opções de produtos para compor um almoço ou um jantar

Outra opção é apresentar receitas simples e saborosas do dia a dia* e receitas elaboradas para o fim de semana e datas especiais harmonizadas com vinhos.

Para Lourenço Filho, os supermercados estão atentos à importância de um local destinado especificamente a vinhos e investem na ampliação desse espaço, porém, não há uma unanimidade nisso. “O supermercado deve sempre analisar seu consumidor e então decidir sobre isso, pois existem casos de grandes espaços que têm giro pequeno, prejudicando a rentabilidade. A equação entre os vinhos de mesa, que geram volume, versus os finos, que têm maior margem, deve ser bem ponderada para deixar a gôndola rentável”, considera.

Importações

Segundo dados da pesquisa realizada pela Ideal Consultoria, o crescimento das importações na categoria vinhos foi de 15,8% em volume em 2016, sendo o maior importador a VCT Brasil, seguido por Grupo Pão de Açúcar e Wine.com. br. Já para a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), o crescimento geral de importados e a produção nacional foram de 10,4% no período de 2016, em comparação com 2015.

Percebe-se uma tendência por vinhos com menos açúcar, mais leves e frescos, como o rosé, que já é notada no mercado como uma “moda” que veio para ficar

Para o diretor de vendas Américas da LFEWines, Eugenio Echeverria, o comportamento de consumo do brasileiro está mudando, pois há o interesse por cursos e até mesmo postagens em grupos de redes sociais sobre a bebida, o que marca não apenas uma tendência, como também a democratização do vinho. O acesso à informação e à variedade de opções disponíveis no mercado faz com que o consumidor amadureça sua relação com o vinho”, acredita.

Para a escolha do melhor mix, é preciso considerar que o consumo está focado em 70% a 80% nos vinhos de entrada, chamados de clássicos; 20% na linha reserva; e 10% na linha Gran reserva. Vinhos acima de R$ 100 normalmente ficam com 1% ou menos.

“Tendo isso em mente, as uvas mais vendidas são Cabernet Sauvignon, Carménère e Merlot, com um aumento do consumo da uva Pinot Noir, seguindo a tendência por vinhos mais leves e menos encorpados”, explica o diretor da LFEWines. “Já nos brancos, Chardonnay e Sauvignon Blanc são as cepas mais vendidas, sem esquecer do Rosé”, diz.

Um fator de sucesso nessa seara é o treinamento dos atendentes de lojas, onde se destaca o Pão de Açúcar, com um trabalho pioneiro nesse sentido, de consultoria e combinações, assim como o Mambo, que no ano passado reformulou sua equipe de lojas e treinou e contratou pessoal especializado.

O St Marche também tem um excelente time, profissionais formados pela Associação Brasileira de Sommeliers (ABS), com grande conhecimento em vinhos. “No entanto, mesmo com investimento relativamente baixo, muitos varejistas ainda não fazem isso, ainda que traga excelentes resultados à lucratividade do setor, além de gerar emprego e capacita- ção profissional”, explica Echeverria. “Para ter uma ideia da dimensão de atuação desse profissional, muitos conhecem seus clientes pelo nome e têm confrarias e organizam eventos de degustações nos supermercados, gerando venda e conhecimento de marca”, completa.

Acompanhamento

BUENO, DA VIGOR:
Categoria de queijos está se desenvolvendo e já é destaque no PDV
BUENO, DA VIGOR

Em um país tropical como o Brasil, o cenário para explorar novos comportamentos de consumo é muito grande e desafiador. A dupla queijo e vinho é um clássico e o brasileiro gosta muito, normalmente efetuando a compra casada ao visitar o autosserviço.

O Brasil ainda é um país que consome predominantemente os queijos tradicionais e básicos, como muçarela, prato e branco. A penetração de queijos especiais nos lares é de 9%, enquanto a de queijos básicos chega a quase 85%, sendo que os consumidores de queijos especiais compram o produto em média duas vezes ao ano, segundo dados Kantar Worldpanel.

O mercado de vinho está em ascensão e é promissor para o queijo

Essas compras normalmente são feitas em ocasiões especiais, por isso, a tendência do brasileiro ainda é consumir queijos especiais in natura, na tábua de frios, normalmente com acompanhamento de vinhos. Mas começa a crescer a utilização de queijos especiais também na culinária. As compras ainda são feitas por produto, e não por marca.

arte1O mercado de queijos especiais cresceu 45% em 2016, com perspectivas ainda mais promissoras para os próximos anos, graças à gourmetização dessa matéria-prima. Hoje, os tipos mais consumidos são parmesão, provolone, brie, gorgonzola e reino.

Para responsável pela unidade de negócios de queijos da Vigor, Luís Bueno, o brasileiro, no geral, conhece muito pouco sobre os tipos de queijos, os usos e as harmonizações ideais, e o sabor costuma ser o principal atributo valorizado.

Os consumidores mais assíduos costumam variar mais que os consumidores pontuais e gostam de provar sabores novos e diferentes. “Há dois anos lançamos nossa linha de queijos especiais, que vão além do tradicional parmesão, e formamos um portfólio amplo, que inclui brie, gruyère, blue cheese, camembert, emmental e gouda, com o intuito de oferecer um leque maior de opções”, explica Bueno.

Para o executivo, há um grande movimento do varejo no desenvolvimento da categoria de queijos, com atenção especial da exposição no ponto de venda. Atualmente, diversas lojas já têm um espaço separado, organizado e bem sinalizado, até mesmo com uma ambientação mais personalizada, com diferenciação por tipo de queijo e por formato deembalagem; com informações de origem, textura e harmonização. “Isso facilita o consumidor na hora de encontrar o seu queijo e aumenta a venda por ocasião de consumo para aqueles consumidores que ainda não sabem como consumir e escolher os queijos especiais”, conclui Bueno.

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