Varejo vai melhor que a indústria - SuperVarejo
Varejo vai melhor que a indústria

Varejo vai melhor que a indústria

texto Renata Perobelli
fotos Eliane Cunha

Luiz Carlos Mendonça de Barros é engenheiro de produção graduado na USP e doutor em Economia pela Unicamp. No governo FHC, esteve à frente do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social) entre 1995 e 1998. Deixou a presidência para assumir o Ministério das Comunicações em meio às privatizações do setor. Hoje, com 76 anos, considera-se integrante da geração Plano Real. Em entrevista a SuperVarejo, Mendonça de Barros aponta erros crassos na atual política econômica, principalmente, no que diz respeito à tímida redução dos juros ao longo de uma recessão gravíssima. O especialista enxerga com muita preocupação a eleição presidencial, o futuro do Legislativo e o festival de corrupção em todos os níveis que desmotiva o brasileiro a votar. Em 2018, o economista vê um crescimento do varejo em detrimento da indústria e chama a atenção para as mudanças no padrão mundial de consumo.

O dólar vai ficar na casa dos R$ 4 até o final do ano, ou seja, após os resultados da eleição do novo presidente?

Na minha opinião, o dólar está mais alto um pouco por causa da elevação do preço do barril do petróleo, da pressão política e da guerra comercial entre China e Estados Unidos. A greve dos caminhoneiros em maio só serviu para agravar a situação econômica do país, onde cerca de 14 milhões de pessoas perderam emprego, levando em conta a recessão da década. A mobilização dos condutores de transporte de carga foi o golpe final na credibilidade do governo.

Um verdadeiro tombo na indústria?

Infelizmente, o consumo caiu e a recessão persiste neste segundo semestre. Tanto é que eu cheguei a prever, no final de 2017, um crescimento de 3,5% para o ano todo, isso se tudo tivesse caminhado da forma prevista. Hoje, estamos com expectativa de 1,5%.

A indefinição da eleição presidencial agravou a situação?

Sim, no processo eleitoral que começou a ganhar corpo, a centro-direita, que defendia uma política econômica racional, perdeu espaço para a esquerda, que volta hoje com o discurso de que temos de retomar o crescimento e gastar dinheiro. Esse é o quadro atual, que se mostra muito complicado. Saiu o primeiro indicador pós-crise da greve – que é a confiança da indústria, a qual tomou um tombo terrível. Além disso, com toda a instabilidade, os juros reais de longo prazo voltaram a subir. Na minha opinião, viveremos uma recaída recessiva até o final do ano. Não tenho dúvidas disso, tanto é que o mercado já vive uma paralisia de todo o processo de investimento, reflexo direto da confiança da indústria. Todo mundo vai jogar na defesa para as eleições e a situação ficará ainda mais difícil para quem produz na indústria e no setor de serviços. Tenho muito medo de que, nessas condições, a gente faça novamente um governo de esquerda com uma política populista para o próximo mandato. Confesso que, pela primeira vez em dois anos, me encontro muito desanimado em relação ao futuro. Claramente, leio que o risco de termos um governo de esquerda no próximo mandato é maior do que o benefício de um governo mais organizado. A perda de credibilidade da política econômica da centro-direita está diretamente ligada ao enfraquecimento dos dois polos políticos, PSDB e PT. Sem referência, virou uma bagunça e ninguém sabe quem é quem. Em tempo, sempre fui considerado muito otimista. O quadro político está completamente desequilibrado em relação à estabilidade que tivemos por 25 anos. Hoje, à direita, Geraldo Alckmin e Jair Bolsonaro, e à esquerda, Ciro Gomes e o PT. O político Álvaro Dias, mesmo com baixa representatividade, pode enfraquecer o ex-governador de São Paulo.

Como o empresário que trabalha com varejo pode salvar 2018 depois desse cenário que apresentou?

O varejo em 2018, mesmo com toda essa crise, vai crescer uns 3,5%. Você tem, por exemplo, o mercado automobilístico, com as exportações significativas. E a inflação baixa, apesar do desemprego, garante um ganho de renda não muito grande, mas uma certa estabilidade. Então, eu vejo um segundo semestre melhor para o varejo; vai ser pior do que eu achava que podia crescer. A pior situação está na indústria, porque depende de decisões de investimento e, nesse quadro de insegurança, torna-se difícil crescer.

Inclusive no segmento dos supermercados?

Isso. A inflação está muito baixa; deu um pico por causa da greve e logo vai voltar a cair. E como esse setor depende menos de crédito, vai melhor; não vejo um colapso. Teremos um crescimento de 3,5% com viés de baixa. Em 2019, o perfil do quadro político vai alimentar ou não os investimentos de maneira global.

E, voltando ao dólar, o câmbio permanecerá alto também para 2019?

Não acredito, não, até porque os Estados Unidos vão entrar em recessão ao longo dos próximos 6 ou 12 meses. E a partir do momento em que o mercado interno tiver confiança, o dólar acomoda aqui e lá fora. Acho que o Banco Central atua corretamente nas intervenções pontuais, vendendo dólar para barrar grandes altas. Estabilidade? Equilíbrio? Acredito que só no final do ano, período em que entra em cena o próximo governo.

Por que a recessão estadunidense? Culpa do presidente Donald Trump?

Com certeza, ao cortar vários impostos, deu maior renda ao cidadão estadunidense, ao consumidor que já adora uma compra. Nesse ciclo, ele permanece com mais dinheiro para gastar diante de uma produção que não acompanha. A procura aquecida impacta na alta de preços, semelhante ao que já vimos por aqui com os mesmos problemas enfrentados no governo Dilma. Por lá, a inflação e os juros começam a subir, não é uma recessão dramática, mas uma redução do crescimento, e aí espera-se uma certa acomodação do dólar.

E isso pode trazer mais investidor para o Brasil, levando-se em conta quem subirá a rampa do Planalto em janeiro de 2019?

O próximo presidente assume numa condição muito favorável. O Brasil está numa recessão grande, a inflação está ultracontrolada, exportações estão indo superbem; então, é uma situação parecida com a que o Lula herdou em 2004 quando mudou a política econômica. Se o próximo presidente tiver cabeça e uma política econômica correta, começaremos rapidamente um ciclo de retomada. Aquilo que se perdeu em 2018, ganha-se rapidamente em 2019 e 2020. Dessa forma, acho que o PIB (produto interno bruto) volta a crescer até 4,0%, mas tudo vai depender da qualidade da política econômica do próximo presidente.

Com relação à guerra comercial que envolve a alta de impostos entre Estados Unidos e China, qual o impacto global do conflito e suas repercussões aqui para o Brasil?

É evidente que nós nunca tivemos esse tipo de situação. Agora, o Brasil pode tirar uma vantagem, por exemplo, na soja – caso a China coloque um imposto de importação no grão estadunidense, a soja brasileira ganha espaço entre eles. Então, vai depender muito da intensidade da briga. O que se sabe hoje é que o Trump, com seu jeito “gritão”, forma um conflito jamais visto, onde a China não fica mais quieta. Todo mundo perde; perde a China, perdem os Estados Unidos, e o Brasil, se ganhar, ganha por causa desses mercados marginais.

O Trump termina o governo?

Não sei, acho que ele não se reelege porque, se tiver todo esse quadro de recessão pela frente, perderá a empáfia que tem hoje. Ele é um troglodita, para falar a verdade. Houve uma perda política gigantesca com a separação de pais e filhos, os imigrantes ilegais. A sociedade estadunidense tem uma direita muito radical, mas detém um centro que reagiu rapidamente à questão das crianças.

Voltando para o nosso quintal, sobre a questão das reformas política, tributária e da previdência. O senhor mesmo mencionou a reforma tributária dos Estados Unidos, que melhorou, e muito, a vida da população estadunidense. E a nossa, como é que fica?

A nossa está toda jogada para o próximo governo. Ou teremos um governo que vai dar continuidade ou teremos um governo de pouca confiança e economia muito fraca, cheia de problema. Talvez em setembro teremos um quadro claro do que pode acontecer, pois entendo que o índice de abstenção nas próximas eleições vai ser maior, mas o eleitor brasileiro jogou isso para o começo de agosto. As pesquisas hoje não revelam nada e a decisão vai ocorrer nos últimos 30 dias da campanha.

Sem as reformas, quanto tempo leva para o sistema de aposentadorias e pensões da previdência cair no vermelho?

A reforma da previdência precisa ser colocada de maneira correta ao longo de certo período. Por isso que sua configuração vai marcar as expectativas do que se tem pela frente. Se for uma reforma que leve certo tempo e esteja na direção correta, acho que a gente passa a trabalhar com um quadro mais tranquilo. Agora, se vier uma transformação que não toca na questão central, aí vamos enfrentar uma crise de credibilidade da dívida do governo. Já a reforma tributária está muito atrelada aos gastos do governo. Então, eu não acredito nela antes de uma reforma das contas públicas, da estrutura dos gastos do governo, onde a pre- vidência é um dos mais importantes.

O consumidor vai continuar agindo com cautela ou tende a se esquecer rapidamente dos momentos e percalços da crise, do desemprego?

Não, eu acho que a cautela prevalece porque o desemprego está aí. O que eu digo é que há uma recuperação natural do consumo, porque o brasileiro tem renda. O número de brasileiros empregados é muito maior em relação aos trabalhadores sem colocação. Então, a renda está disponível e o brasileiro gasta com mais cuidado. Não vai sair fazendo dívida aleatoriamente. Até porque a questão do consumidor endividado não foi equacionada, mas ainda acho que não há essa tendência. Agora, se tivermos um quadro favorável politicamente, essa retomada tende a ser maior devido à confiança do consumidor, que é o que move o mercado. Só que hoje é muito difícil o empresário opinar sobre o tema.

No cenário que se apresenta hoje, como o varejista pode largar e se manter à frente nessa lenta retomada da economia?

Com o receio de faltar mais adiante, o consumi- dor segue gastando com cuidado, priorizando o melhor preço, que mais uma vez é fundamental. Não há aquela corrida ao consumo. O automóvel, por exemplo, o brasileiro ficou muito tempo sem trocar, mas agora o setor volta a girar. Está sendo um ano bom. Outra coisa que é uma tendência mundial: há uma mudança no padrão de consumo geral da humanidade.

É o tal do desapego das gerações Y e Z, os millennials? O apreço pela sustentabilidade?

Sim, temos informações de que, nos Estados Uni- dos, empresas viram seu valor de mercado cair 40%, porque hoje a busca de produtos menos químicos vigora no mundo inteiro. E é fundamental o supermercadista estar ligado nessas mudanças de comportamento. Esse pessoal vai ficar cada vez mais importante no mercado. Veja, até mesmo o ketchup se reinventou e reduziu a química no produto. Está fazendo grande sucesso nos Estados Unidos a nova geração de ketchup mais natural.

E quando se fala em sobretaxar grandes fortunas e heranças?

Não, isso não tem importância coisa nenhuma. Isso é uma coisa que no governo FHC nós discutimos bastante, o que você arrecada com isso é muito pouco. O que se tem sobre o assunto, a grande discussão é a tributação dos dividendos das empresas. Aí, sim, estamos falando de dinheiro maior. Agora esse negócio de grandes fortunas é discurso da esquerda para aumentar arrecadação, mas não faz nenhum caixa. Se houver bitributação – empresa paga e acionista paga de novo –, nós estamos falando de uma arrecadação muito maior.

Qual o maior erro praticado pela equipe econômica do governo Michel Temer?

O erro mais crasso e grave foi a redução dos juros muito tímida e lenta pelo Banco Central, método que se adota numa recessão normal. Eu particularmente batalhei bastante pela queda dos juros e creio que deveria ser mais rápida. Essa gestão dos juros e a política monetária não levava em conta a gravidade da situação.

Aponte uma agenda com cinco temas essenciais para o próximo presidente.

Olhar para economia de mercado do Brasil e seguir o padrão de gestão, de gerência, que todo mundo conhece. Então, isso vai ser muito importante, porque o próximo presidente vai tomar posse com uma economia sem pressão de custos, de crescimento, sim, mas não tem pressão de desequilíbrio.

Segundo, o governo vai encontrar uma condição política mais complicada, porque perdemos a referência PSDB-PT que trabalhou nos últimos 30 anos, e deverá ter um cuidado muito grande na montagem do apoio político que vai receber.

Terceiro, claramente adotar uma postura contra corrupção clara e evidente, porque é demanda da sociedade.

Quarto, teremos sérios problemas estruturais a serem enfrentados, como reformas tributária e previdenciária.

Quinto, temos de reduzir a tensão política dos últimos dois ou três anos. Defendo haver um acordo nacional para deixar o governo trabalhar.

E a educação?

A reforma curricular no ensino médio do presidente Michel Temer ajuda bastante, mas existe a questão financeira, que é o sistema ineficiente da educação. Concordo que, sem recursos, é difícil, mas o Brasil precisa dar um pulo em termos de qualidade de ensino.

A renovação do Congresso vai ser para valer nas urnas nas próximas eleições, em outubro?

Não vai, porque a sociedade brasileira é as- sim, não dá muita importância para a questão política, e, com essa corrupção toda, piorou muito; porém, não existe democracia no mundo sem que haja uma classe política que tenha o mínimo de respeito. Isso é o que acredito que deva ocorrer num primeiro momento. A outra coisa que critico é a articulação política. O próximo Congresso vai ser pior do que o atual, porque nivelou por baixo. Hoje não tem nenhum grande partido.


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