Vai rolar a festa

Vai rolar a festa

por Mirella Scattolin

Há um velho mito de que o ano no Brasil só começa oficialmente depois do Carnaval, mas quem trabalha com varejo supermercadista, por exemplo, sabe muito bem que não é verdade. O verão e as altas temperaturas aumentam as vendas de diversas categorias, e os dias reservados para a folia devem ser encarados como uma grande oportunidade de vendas.

Além dos quatro dias de festa, deve-se atentar para todo o mês de fevereiro, quando o movimento dos bloquinhos de rua, populares em todo o Brasil, reflete diretamente no consumo ao levar milhares de foliões às ruas. Mas, enquanto as águas de março não fecham o verão, é hora de aproveitar o momento e alavancar as vendas desses produtos que melhor se destacam nas altas temperaturas.

O período é uma ótima oportunidade para aumentar as vendas, por exemplo, de bebidas alcoólicas. De acordo com um levantamento da Euromonitor International, em 2018 houve consumo de 4,7 bilhões de litros de cerveja, e estima-se que até 2021 o consumo alcance os 4,9 bilhões de litros ao ano. O crescimento também é esperado para as bebidas destiladas, que encerraram o último ano com uma soma de 243,6 milhões de litros consumidos.

Aqueles que preferem fugir da folia também acabam elevando o consumo das bebidas e de outras categorias, como acontece nas festas de rua.

Aproveitando a ocasião, o Arena Atacado – quatro lojas no interior de São Paulo – faz algumas ações diferenciadas em suas lojas, como publicar nos tabloides todos os produtos relacionados a churrasco, como conta o gerente comercial de não perecíveis da rede, Kleber Gusmão: “O Carnaval é um período em que as categorias de bebida e açougue crescem mais de 20% comparado a um mês normal”.

De acordo com Gusmão, as lojas recebem orientação de colocar em pontos extras os principais produtos dessa sazonalidade, os que têm melhor valor agregado e rentabilidade para cada categoria. “Para facilitar a visibilidade dos itens pelo consumidor, também se pode fazer a exposição como cross merchandising”, diz.

Já no Supermercado Estância – quatro lojas na região de São Roque, a cerca de 60 quilômetros da capital paulista –, o gerente de marketing da rede, Sidnei dos Santos, conta que no setor de açougue e autosserviço são trabalhados cortes embalados, que visam atender tanto o público que busca por peças para churrasco quanto quem prefere os cortes tradicionais para o almoço diário.

Quando o assunto são as bebidas, a loja opta por pontos extras, que necessitam de um espaço maior para o grande volume de mercadorias. “É bom lembrar de não deixar muito carregados os corredores, a fim de possibilitar o fluxo de clientes, que nesse período tende a aumentar, já que o feriado se estende por vários dias”, ressalta o gerente.

Outra engrenagem para garantir o sucesso dessas ações e resultar em aumento de vendas fica nas mãos dos fornecedores, já que não pode faltar produto na gôndola. Partindo desse princípio, a Ambev realiza um trabalho diferenciado nessa época do ano, como reforço na distribuição e logística, a fim de atender a toda a demanda, como explica o vice-presidente de autosserviço do grupo, Bruno Marsillac.

“Além dos eventos e campanhas na TV, digital e out of home, investimos no varejo. São campanhas exclusivas, ativações de marca com brindes, reforço de equipe de atendimento, instalação de pontos de venda externos para ajudar no abastecimento dos blocos, entre outras ações. Nosso objetivo é – em parceria com o varejista – potencializar ao máximo a data e atender o nosso consumidor da melhor maneira possível”, destaca o executivo.

Segundo o sócio-diretor da Moriá Consultoria, Weber Alves, para alavancar as vendas nessa época, o supermercadista pode e deve oferecer experiências que o cliente ainda não tenha desfrutado, deixando de lado a guerra de preços. “Esse é um momento em que a percepção de preço da cerveja ou do corte de carne mais vendido fica cada vez mais clara, de maneira que se inicia uma corrida desenfreada por oferecer o menor preço em um momento no qual os supermercados poderiam rentabilizar”, diz. “Todos perdem. A ideia é sair do foco, proporcionar ao cliente um diferencial, algo que outros não estejam fazendo. Somente assim poderemos rentabilizar sem focar o preço baixo”, acrescenta o consultor.

Comissão de Frente

No ano passado, a SPC Brasil e a CNDL divulgaram uma pesquisa que mostrou que o produto mais consumido no Carnaval foi a cerveja, que representou 57% do total do consumo de bebidas alcoólicas no período. Com essa expectativa, a Ambev aposta em alguns produtos da sua linha. “Em 2019, um de nossos destaques será a Skol Puro Malte, recentemente lançada. O produto já tem uma aceitação muito boa no mercado e tem tudo para continuar conquistando o paladar dos consumidores no Carnaval”, explica Marsillac.

O Grupo Heineken segue também com a expectativa em alta para este Carnaval, trabalhando com diferentes estratégias sobre as marcas do portfólio de cervejas, principalmente Amstel, Devassa e Schin. As áreas de vendas, trade, marketing, patrocínio e comunicação têm atuado de forma integrada no mapeamento dos diferentes momentos de consumo, característicos desse grande evento, conforme informou a companhia à reportagem da SuperVarejo.

O consultor Weber Alves faz um alerta aos supermercadistas ao afirmar que a seção deve receber uma atenção especial para que não haja rupturas nem falta de opções aos consumidores. “Além disso, é preciso fazer o planejamento de compra, que envolve a análise do giro das mercadorias durante as últimas ações, um estoque de segurança, entregas programadas e fluxo de caixa financeiro”, comenta.

Pensando em mix, a linha de cervejas deve ter as de primeiro preço, seguidas pela líder de mercado, importadas e artesanais. “Quanto à apresentação, temos que ter lata de 350 ml – tradicional; latão, de 473 ml ou mais – para os que não economizam na porção; latinha, de 269 ml – para quem aprecia com mais moderação e não quer grande quantidade para a bebida não esquentar; e long neck”, explica o consultor.

No Estância, que vê o mix da categoria aumentar com o surgimento de outros tipos e sabores de cerveja, essa mesma atenção é aplicada. “As opções artesanais vêm ganhando cada vez mais espaço no gosto dos brasileiros. Por consequência, não podemos nos limitar às marcas populares. Sabemos que a grande maioria prefere as tradicionais e líderes de mercado, como as cervejas do tipo Pilsen, por isso procuramos trabalhar prazos e entregas de modo antecipado com os nossos fornecedores para que não falte mercadoria no período, mas deixando um espaço bem atrativo para as cervejas especiais e artesanais”, detalha Santos, do Estância.

No Arena, por exemplo, a previsão de crescimento de vendas para a categoria de cervejas está bem acima, quando comparada com o mesmo período de 2018, muito disso por influência das cervejas puro malte e especiais, que seguem como tendência no mercado geral. “A definição do mix das lojas é feita pela nossa área de Gerenciamento em Categorias, por cluster e perfil de consumidor. Para não termos impacto de rupturas, fazemos o planejamento com as indústrias projetando o incremento de cada produto e abastecendo com antecedência em nosso Centro de Distribuição”, diz o gerente, Gusmão.

Harmonia

Apesar de a cerveja ser o carro-chefe da data, não podemos nos esquecer de outras bebidas que são tão consumidas quanto a famosa “gelada”. Sendo assim, atenção também para as gôndolas que comportam outros produtos, como água, sucos, refrigerantes e, principalmente, bebidas destiladas. No caso dessas últimas, o supermercadista deve apostar nos drinques que fizeram sucesso no verão, sugerindo as bebidas que servem de base para as receitas, como os gins, bitters, vodcas, cachaças, entre outras.

“A venda de outras bebidas é sempre uma aposta para amenizar o risco de perdas. É necessária uma negociação com o fornecedor a fim de garantir a troca dos excessos não vendidos ou incentivos para ofertar o menor valor (sell out é uma boa alternativa) caso seja realmente necessário”, destaca Weber Alves.

No Arena Atacado, é realizado todo um trabalho nos tabloides, que ficam expostos nas lojas, a fim de sugerir aos clientes a compra da cesta completa de alimentos com bebidas. “Na sugestão de churrasco, por exemplo, colocamos cervejas, whisky, vodca, refrigerantes, águas e sucos com carnes para churrasco. Como opção de viagem, as bebidas com snack, frios, aperitivos em geral”, conta Gusmão.

Se para as bebidas toda a atenção é pouca, para as comidas a situação não é nada diferente. Itens para churrasco – como mencionados anteriormente – devem ter um local de destaque, preferencialmente perto das gôndolas de bebidas, assim como petiscos e aperitivos, comenta Alves. “Não são só as carnes para churrasco e afins que têm aumento de procura nessa época. Como o folião está focado em curtir o momento com os amigos, a última coisa em que ele pensa é ficar horas na cozinha. Dessa forma os alimentos pré-prontos e itens de rotisseria também têm maior procura nessa data”, diz.

Com tantas opções a ser trabalhadas, é importante o supermercadista levar em consideração as variáveis relacionadas à área de atuação do supermercado, como o tamanho e  o formato da loja, além da definição do público que o estabelecimento atinge.

“Para não cometer nenhum equívoco, é sempre importante analisar o histórico, conhecer a capacidade de venda e o público que visita a loja. É interessante oferecer algo que surpreenda o público por não estar na lista de compras dele, porém, com muita cautela para não exagerar em produtos que ficam parados nas prateleiras, comprometendo o fluxo de caixa”, alerta Alves.

Assim, buscar sempre entender os gostos e as preferências do consumidor, apresentá-lo a coisas novas e fazer uma boa gestão dos produtos que mais se destacam na data a fim de evitar rupturas são sinônimo de boas vendas e corredores sempre lotados.


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