Sob nova direção - SuperVarejo
Sob nova direção

Sob nova direção

por Mirella Scattolin

Tudo começou em 1977, no bairro da Paulicéia, Piracicaba (SP). Naquela época, a marca Candura ainda não existia e a pequena empresa fundada por Marino Antonio Zanotta produzia componentes para a indústria de vassouras e embalagens plásticas para produtos de limpeza.

Atuando e entendendo o setor domissanitário, quatro anos depois, em 1981, a empresa fazia sua estreia no segmento de limpeza. O momento foi de extrema importância para a sua trajetória porque, além do novo desafio, a companhia passava por uma mudança na composição societária, com a entrada de Marino Zanotta, filho do fundador.

Na época, Marino cursava engenharia na Escola Politécnica da USP, seguindo os passos do pai, que teve a mesma formação. Foi forçado, porém, a deixar os estudos por causa da rotina no trabalho. Entretanto, isso não o impediu de conduzir as principais operações na empresa e de, junto com o pai, Antonio Zanotta, dar o segundo passo importante da companhia, comprando a primeira marca de água sanitária. Naquele momento, surgia a Iplasa Indústria e Comércio Ltda.

Bruno Zanotta, neto do fundador da empresa, atualmente diretor financeiro, conta que o nome original da marca não surtia grande impacto no mercado e a mudança para o atual foi o resultado de uma sugestão do avô. “Essa foi a grande sacada: ele acertou o nome Candura. Fez inúmeras pesquisas, olhou tendências de mercado e decidiu dar esse nome à empresa, que significa pureza, transparência, brancura etc. Assim, ele batizou o primeiro produto lançado na área da limpeza: a água sanitária Candura”.

Em 1982, com a marca se estabelecendo cada vez mais no mercado, Marino Zanotta assumiu a presidência da empresa, enquanto o pai se dedicava ao outro bem da família, uma fazenda localizada nas proximidades de Piracicaba. “Foi naquele momento que meu pai começou a colocar a locomotiva e os vagões nos trilhos e a focar nas regiões que ele queria”, lembra Bruno.

Em meados dos anos 1990, depois de Marino ter posicionado a água sanitária, colocado o álcool Candura no mercado e ainda ensaiar o lançamento de um amaciante, a empresa começou a crescer e virou líder de mercado no interior do estado.

Carolina Zanotta, atual presidente da empresa, conta que a conquista foi prevista pelo pai anos atrás. “Minha mãe conta que namorava o meu pai e um dia ele foi buscá-la na faculdade e levou uma garrafa vermelha de plástico, onde estava escrito ‘Candura’. Era horrorosa. Ele mostrou para ela e disse: ‘Um dia eu vou fazer isso daqui crescer muito, nós vamos ter o maior mercado de água sanitária do Brasil, nós seremos muito fortes nisso. Eu vou ser o rei da água sanitária’. E, realmente, houve um período em que nós reinamos no interior. E é isso o que a gente continua buscando”, afirma.

Devido ao expressivo crescimento, em 1995 a empresa deixou o bairro da Pauliceia e reinstalou-se no Distrito Industrial Unileste, onde, atualmente, ocupa uma área total de quase 24 mil metros quadrados, sendo cerca de 12 mil metros quadrados de área construída. “Quando eles estavam para mudar para cá e não tinham nem começado a construir o galpão, meu pai trouxe todo mundo aqui, eram umas 30 pessoas, e disse: ‘Olha, é aqui que a gente vai mudar, é aqui que a gente vai trabalhar melhor, crescer, usar material de segurança, cumprir um horário legal, evoluir. Vamos construir uma história juntos’”, lembra Carolina.

O destino, porém, tinha outros planos. Em julho de 2004, Marino Zanotta teve seus sonhos abruptamente interrompidos em um acidente fatal, a caminho da fazenda. “Naquele dia, ele ligou para a gente e perguntou se queríamos ir com ele e dissemos que não. A gente acha que foi coisa de Deus. Foi o dia mais triste das nossas vidas”, comenta Bruno, enquanto o sorriso que estampava seu rosto dá espaço a um semblante fechado.

Por conta da triste fatalidade, Marino Antonio Zanotta, na época com 78 anos, foi forçado a reassumir a presidência da Candura. “A minha tia não teve interesse em assumir a empresa, ainda que tivesse trabalhado aqui no passado. Ela havia feito uma escolha, estava focada na fazenda, e meu avô não cogitava a possibilidade de profissionalizar a empresa. Na época, o Bruno tinha 12 anos e eu ia fazer 11; então, não dava. Mas, ao voltar, ele deixou claro que o objetivo dele era conduzir a empresa até os netos poderem assumir”, diz Carolina.

“Nosso pai era extremamente centralizador e isso foi um problema quando ele veio a falecer. Nossa governança praticamente não existia. Quando nosso avô voltou, pegou uma empresa que era extremamente centralizada e que não tinha regras claras de gestão”, completa Bruno.

Precisando reverter a situação, Marino Antonio Zanotta contou com o suporte dos novos e antigos funcionários para colocar a Candura novamente nos padrões. A empresa respondeu à altura, registrando crescimento, gerando caixa e com os processos em ordem.

Em 2007, o cenário mudou e a companhia começou a enfrentar problemas que estavam escondidos desde a primeira gestão, como a ausência de processos de compras bem definidos, de procedimentos, políticos etc. “Ficou meio informal a maneira de se trabalhar aqui, meio amadora, e isso se tornou um problema”, explica o diretor financeiro.

Com quase 90 anos e a saúde já debilitada, Marino Antonio Zanotta dividia a rotina entre as idas à Candura e semanas no hospital. Na época, Carolina e Bruno já tinham mais de 18 anos e estavam formados. Então, o avô conseguiu cumprir a promessa que havia feito anos atrás e deixou a gestão para os netos. Carolina foi a primeira a assumir os negócios da família, no primeiro trimestre de 2015. O avô veio a falecer em abril do mesmo ano.

Bruno só retornou ao quadro de funcionários da empresa dois anos depois, em junho de 2017. A primeira passagem dele tinha sido em 2011, durante a gestão do avô; porém, logo depois ele saiu do negócio para concluir os estudos universitários.

Mudanças e investimentos

Juntos na gestão da Candura, os irmãos precisaram fazer algumas mudanças, a fim de manter as portas da empresa abertas. Os primeiros pontos foram a reorganização salarial, os cortes de gastos e a reestruturação da equipe; até mesmo alguns diretores foram substituídos. “Nós estamos mexendo em tudo, olhando para tudo. Só tapando os buracos vamos crescer 30%”, projeta Bruno.

Ainda contratando reforços externos, ele afirma que o foco da gestão, ao longo desses anos, também foi desenvolver e capacitar os profissionais internos e começar um processo de profissionalização. “Uma das questões foi trabalhar as pessoas que estavam com os talentos reprimidos aqui dentro. Daqui para a frente, nós só vamos chegar lá se nos profissionalizarmos mais; por isso, tivemos dois grandes investimentos ao longo dos anos: no varejo e nas pessoas.”

Além dessas mudanças, também aconteceu a reorganização da fábrica. Com área para crescimento, os irmãos Zanotta decidiram repaginar o estoque. “Antigamente, a empresa crescia sem planejamento. A necessidade ia aparecendo e meu pai ia construindo. Nós começamos as mudanças, repaginamos o posicionamento das máquinas e ganhamos espaço. Antes, eram 12 SKUs, hoje temos 42 SKUs”, afirma Carolina.

Expectativas e futuro

Atualmente, a empresa tem um faturamento anual de R$ 90 milhões e segue investindo nas regiões de maior atuação: interior e Grande São Paulo e Minas Gerais. “Colocamos uma meta de trabalhar apenas essas regiões, que são aquelas onde estamos mais bem avaliados no mercado. Por enquanto, ainda não temos pretensão de expandir para outras regiões”, explica Bruno.

Dando continuidade ao projeto de recolocação da marca no mercado, os gestores apostam em fichas que antes estavam esquecidas e acreditam que, por esse caminho, é apenas uma questão de tempo até tudo voltar a ser como era antes.

Apostando nas novidades, o diretor financeiro assume que fará o que é melhor para beneficiar a empresa. “A gente não sabe como vai ser no futuro, se vai acontecer um crescimento orgânico absurdo ou uma fusão de operações. Mas estamos abertos a fazer o que for para trazer mais benefícios para a empresa. Nosso trabalho tem sido o mais coerente possível”, afirma Bruno. “Se a Candura conseguiu segurar esses 10 anos de crise, o futuro é muito bem visto por nós”, completa Carolina.


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