Sinais de recuperação econômica - SuperVarejo
Sinais de recuperação econômica

Sinais de recuperação econômica

por Jéssica Ishiba

Com o fechamento de 2016 marcado por um cenário de instabilidade política, crise econômica e dificuldades do governo para equilibrar as contas públicas, o ano de 2017 começou de forma desafiadora. Apesar do cenário de incertezas, após dois anos de retração, o PIB brasileiro começa a dar sinais de recuperação, apresentando crescimento de 1%, o melhor resultado econômico desde 2013.

Pelo lado da oferta, o setor agropecuário se destacou em função de uma supersafra, avançando 13% no primeiro trimestre, principalmente por meio de produtos agrícolas como milho e soja. Tal fator pressionou os preços de alimentação e bebidas para baixo, contribuindo com a redução da inflação, que encerrou o ano em nível inferior ao piso da meta.

Pela perspectiva da demanda, a redução dos preços, somada à melhoria das condições de acesso ao crédito, favoreceu o aquecimento do consumo, impulsionando o aumento do gasto das famílias. Embora com variação tímida, também de 1%, as famílias brasileiras tiveram grande influência sobre esse resultado, dada sua alta representatividade para o cálculo (são responsáveis por aproximadamente 65% do número).

Além da redução de juros, outro incentivo governamental para estimular o consumo foi a liberação de recursos do FGTS e do PIS/Pasep para saque. A medida ampliou o orçamento de cerca de 27,2% dos lares, sendo a quitação de dívidas a principal finalidade desse recurso.

Por outro lado, um indicador que ainda preocupa é a taxa de desocupação da população brasileira. Apesar da redução ao longo do ano, passando de 13,7% no primeiro trimestre para 11,8% no último, o indicador apresenta uma média anual de 12,7%, estando 1,2 ponto percentual acima da média de 2016 e atingindo o maior nível da série histórica desde 2012.

Consumidor reage ao novo cenário

Diante desse panorama, o consumidor se mostra mais otimista, apresentando, no último trimestre do ano, um índice de confiança de 85 pontos. Ainda abaixo da linha do 100, o indicador de confiança está 11 pontos acima do patamar obtido no segundo trimestre de 2016, quando foi registrado o mais baixo índice desde o início da medição.

Pela primeira vez nos últimos três anos, observamos os lares brasileiros atingirem um saldo positivo na balança de gastos e renda. Em 2017 a renda do brasileiro superou seus gastos em 9,9%, o que representa um passo importante para as famílias, indicando maior organização financeira e a busca por uma balança de gastos mais saudável, refletindo diretamente no patamar de inadimplência, que passa de 58,7% para 41,6% de um ano para outro.

O resultado desse cenário de melhor gestão dos gastos, com utilização do FGTS para quitação de dívidas e desaceleração do desemprego durante o ano, foi a redução do percentual de lares impactados pela crise (domicílios em que algum membro da família perdeu o emprego e/ou estava endividado), que retraiu 7,8 pontos percentuais em relação a 2016.

Diferentemente do cenário de crise internacional em 2007/2008, dessa vez o consumidor sofreu de forma mais intensa os impactos da recessão. Nesse contexto, os brasileiros se viram obrigados a se adaptar a um ambiente de racionalização, desemprego e estreitamento do orçamento familiar. Por causa disso, o consumidor ainda está buscando a estabilização, o que exige paciência do mercado para observar respostas mais contundentes em relação às melhoras do cenário econômico.

Mudanças no comportamento de compra

O recente cenário de crise e o aumento do controle sobre os gastos trazem implicações para o mercado de produtos de giro rápido e, consequentemente, para a indústria e o varejo. Essas consequências se refletem nos resultados das cestas Nielsen, que retraem pelo terceiro ano consecutivo. Entretanto, podemos visualizar uma desaceleração da retração ao longo de 2017, que termina com uma variação acumulada no ano de -3,5, uma queda muito menos intensa diante da variação de -5,7% em 2016 e de -6,7% no início de 2017.

O canal Cash&Carry tem contribuído com a amortização da retração, sendo destaque em crescimento e, diferente de canais como Super e Vizinhança – que crescem exclusivamente pela abertura de lojas –, tem 40% do seu ganho relacionado a um aumento de desempenho por loja. Em outras palavras, o atacarejo é o único canal que apresenta, de fato, um crescimento orgânico, demonstrando como competitividade de preço é um fator vital para a decisão do shopper.

Sobre a dinâmica de canais, o consumidor encontra fôlego para dar maior mobilidade a suas escolhas. Dessa forma, vemos a tendência de mix de canais tornando-se mais intensa, com a reposição sendo a missão de compra da vez, voltando a ganhar importância. Esse é um indício de que o consumidor ainda busca por custo-benefício, mas que diversifica opções para equilibrar na balança outras vantagens – como a praticidade e um sortimento especializado.

Além disso, observamos a redução da intenção de troca para marcas mais baratas. Apesar de se manter como a primeira medida do consumidor para economizar, o movimento de trade down cai de 42% para 35% em 2017, evidenciando o desejo do brasileiro de manter o padrão de consumo, oferecendo uma boa perspectiva para a indústria em relação à lealdade de marca.

Por fim, o aumento do percentual de lares que buscam economizar por meio da redução da alimentação fora do lar e com lazer (de 7% para 10%) também é destaque, uma vez que o shopper abre mão da experiência oferecida no consumo local – com idas a bares, restaurantes e canais de entretenimento –, evitando comprometer seu padrão de consumo, que migra para dentro de casa.

O que esperar de 2018?

A perspectiva do ano é lidar com um consumidor mais consciente, que aprendeu a se organizar e, principalmente, a se planejar em função da crise. Um consumidor que planeja mais tende a ser menos impulsivo e mais racional no momento da compra. Logo, são necessários mais planejamento e precisão pelo lado da oferta – que de- verá oferecer condições mais alinhadas à demanda –, além de ações cirúrgicas para obter resultados reais e não subsidiar o crescimento. É preciso estar atento às tendências de consumo e às movimentações de mercado para atender eficientemente a esse consumidor que se tornou mais cauteloso, organizado e exigente.

Metodologia do estudo

O estudo Cinco Mais, divulgado anualmente na edição de julho da revista SuperVarejo, foi desenvolvido pela empresa Nielsen com base em 132 categorias de produtos auditados nas lojas do varejo alimentar brasileiro. São 489.601 estabelecimentos comerciais divididos entre os canais Autosserviço e Tradicional:

  • O Autosserviço é composto por lojas onde o consumidor escolhe os produtos sem intermediação de um vendedor ou balconista. Tem como característica fundamental o caixa, ou checkout, carrinhos ou cestas à disposição.
  • Já o canal Tradicional é composto pelos estabelecimentos onde a venda é realizada por intermédio de um vendedor, como é o caso de Padarias e Mercearias.

É importante ressaltar que as vendas realizadas nos canais bar, farmácias, perfumarias e cash & carry (atacarejo) não são consideradas nesse estudo.

Os cinco principais fornecedores são obtidos por meio da classificação das vendas em volume (quilos, litros ou unidades) de todos aqueles pertencentes a uma categoria ou segmento durante o ano de 2017 (janeiro a dezembro). Não entram no ranking fabricantes que detêm menos de 1% de participação no mercado.

A fim de enriquecer o estudo, foram incluídas informações complementares que possibilitam traçar um panorama de cada categoria, levando em consideração a evolução das vendas, alocação nas áreas geográficas e informações de consumo no lar.

A consolidação do ranking, o desenho e o processamento das informações de categorias foram realizados por Jéssica Ishiba, executiva de atendimento ao varejo da Nielsen.


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