Sentimento que conecta

Sentimento que conecta

por Nathalie Gutierres e Mirella Scattolin
fotos Moacyr Neto e Foto Andres 

Consolidada no mercado mundial como referência para o setor supermercadista, a APAS Show 2018 reuniu as tendências de mercado e as novidades que movimentam esse segmento, entre os dias 7 e 10 de maio, no Expo Center Norte, em São Paulo. Em sua 34ª edição, o evento foi norteado pelo tema Nós Amamos Supermercado, que valorizou o sentimento compreendido nas relações do setor com seus stakeholders.

“Tudo foi pensado para conectar pessoas e conhecimentos, incentivar a criação de soluções inovadoras e oportunidades de negócios que proporcionem resultados a todos os participantes”, explicou o vice-presidente da APAS e diretor da APAS Show, Erlon Ortega.

Guiado por esse sentimento, o evento, também conhecido como uma grande plataforma de geração de negócios, reforçou mais uma vez sua potência ao trazer várias inovações, além de alcançar patamares inéditos. E, pela primeira vez em sua história, contou com a participação do presidente da República, Michel Temer, que esteve presente na Solenidade de Abertura.

Foram mais de 70 mil visitantes aos quatro pavilhões do Expo Center Norte durante os quatro dias de evento. Eles andaram pelos 35 mil metros quadrados da área de exposições, que abrigou 738 empresas – sendo 200 internacionais – em busca de oportunidades de negócios, novidades das indústrias de alimentos e bebidas, equipamentos, tecnologia e fornecedores de serviços, entres outras.

Nessa edição, as Rodadas de Negócios da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex) totalizaram 1.423 reuniões, com a par- ticipação de 185 empresas e 50 compradores internacionais (10 a mais que na edição passada da APAS Show) de 23 países.

Várias novidades marcaram a APAS Show 2018, que se renova a cada ano e se fixa sem concorrentes na posição de maior evento supermercadista do mundo. Nos pavilhões, um dos destaques foi a Arena Hackathon, espaço em que equipes de tecnologia competiam com o objetivo de desnvolver soluções para dois problemas comuns nas lojas: prazo de validade e fila no checkout.

A área de exposição contou também com a Arena Facilities Bin e com a Arena de Gestão Falconi. Promovendo cursos gratuitos durante o evento, a proposta dos espaços foi levar conhecimento ao público, abordando questões que impactam de forma direta e constante a condução das lojas. Resultado da parceria da APAS e da FGV, por meio do GVcev (Centro de Excelência em Varejo da Fundação Getulio Vargas), o Congresso de Gestão teve as apresentações lotadas e trouxe várias novidades. Foram 4.052 congressistas que tiveram à sua disposição mais de 60 palestras (veja cobertura de tudo o que aconteceu nos auditórios nas próximas páginas). Foram abertos três novos Auditórios Temáticos nessa edição: Segurança dos Alimentos, Logística e Abastecimento e Fórum de RH, com palestras que ocorreram no período da tarde. Outra novidade sobre o Congresso de Gestão, realizado do segundo até o último dia do evento e que reuniu diversos profissionais de renome no mercado, foi o formato, que permitiu que parte das palestras dos Auditórios Temáticos ocorresse em um mesmo palco. Eram realizadas, simultaneamente, três apresentações e o público sintonizava, por meio de fones individuais, qual delas gostaria de ouvir.

Michel Temer participa da Solenidade de Abertura

Como citado no início da reportagem o evento contou com a participação do chefe máximo do Poder Executivo do Brasil, o que mostra sua relevância como referência do setor. Temer marcou presença na Solenidade de Abertura, junto ao ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, ao governador do estado de São Paulo, Márcio França, e ao prefeito da capital paulista, Bruno Covas, que estiveram presentes ao lado do presidente da APAS, Pedro Celso Gonçalves, e do presidente da Abras, João Sanzovo.

Ao dar início à cerimônia, Pedro Celso falou da importância da participação das autoridades na ocasião. “Neste ano, realizar a abertura da 34ª edição da APAS Show é muito especial para mim, em meu último ano à frente da presidência da Associação. É tam- bém a primeira vez que temos a honra de contar com a presença do presidente da República em nosso evento”, afirmou.

A relevância do segmento na contribuição da economia do país também foi destacada por ele. “O setor supermercadista representa 5,4% do PIB nacional. Então tê-los (autoridades) aqui engrandece muito o nosso evento. É o reconhecimento de todos que trabalham arduamente nos supermercados para abastecer 89% da população, além de girar a economia do nosso país”, acrescentou Pedro Celso.

O presidente da APAS também citou o sucesso dessa edição do evento. “A APAS Show 2018 já é a nossa maior edição de todos os tempos, com 100% das áreas de exposição comercializadas”, afirmou, citando que a entidade fechou 2017 com 1.478 empresas supermercadistas associadas, que representam 3.455 lojas.

Pedro Celso ressaltou, ainda, a importância do evento para seus participantes, destacando as oportunidades geradas. “Pode ser resumido em uma palavra: negócios. Os tomadores de decisão do setor supermercadista e da indústria ficam em contato direto durante quatro dias. Parece pouco, mas não é. Um supermercadista de menor porte, por exemplo, não teria tanta facilidade de contatar as gigantes da indústria de alimentos e bebidas”, frisou.

Em sua apresentação, João Sanzovo, da Abras, tratou do papel do setor supermercadista para o país e citou números recentes do segmento, mostrando a evolução do mercado. “As vendas no setor cresceram 2,28% no primeiro trimestre do ano versus o mesmo período de 2017. Esse é o melhor resultado acumulado desde 2013. O setor tem se mantido e registrou R$ 553 bilhões de faturamento no ano passado”, disse.

Sanzovo destacou ainda que, com a inflação controlada, o atual desafio dos supermercados é ganhar a confiança do consumidor. “Oportunidades precisam ser criadas”, ressaltou, acrescentando que várias trans- formações tecnológicas permeiam o segmento, que segue em constante evolução.

Medicação nas gôndolas

O presidente da Abras aproveitou a presença de Temer na cerimônia para pedir que seja acelerada a votação da proposta, no Congresso Nacional, de autorizar os supermercados a venderem medicamentos isentos de prescrição médica. “Essa medida irá contribuir para uma redução mínima de 30% no preço dos remédios, garantindo que mais brasileiros tenham acesso a tais medicamentos, que não põem em risco a saúde”, salientou.

A resposta ao pleito feito por Sanzovo veio de imediato. Temer afirmou, ao assumir o microfone: “Levarei em conta, para análise, essa proposta”, disse o presidente da República.

Em contrapartida, Temer fez sua solicitação aos supermercadistas. “Vou pedir aos donos de lojas que empreguem as pessoas que fazem parte do programa Progredir, contratando os filhos daqueles que são beneficiários do Bolsa Família”.

Em seu discurso, Temer destacou suas ações para o país ao fazer referência ao mote do programa do ex-presidente Juscelino Kubistchek, que falava em “50 anos em 5”. “Em dois anos, fizemos o que se esperava em 20 anos”, disse, ao antecipar aquele que seria o slogan do convite da festa de dois anos de seu governo, que ocorreria na semana seguinte à APAS Show.

A importância e a representatividade dos supermercados no Brasil constaram no discurso de Temer, que disse que o setor é o termômetro de como anda a economia. “Os supermercados convergem importantes cadeias do país”, resumiu.

Ele também comentou os resultados positivos do setor nos últimos meses. “As vendas do varejo aumentaram mais de 2% no primeiro trimestre do ano e mostram o melhor resultado dos últimos cinco anos. A confiança da economia está de volta. O Brasil voltou ao caminho do crescimento que se sustenta ao longo do tempo”, disse Temer.

Ao se pronunciar, Meirelles ressaltou os projetos desenvolvidos pelo governo para a retomada da economia do país, que levaram ao au- mento do poder de compra dos brasileiros. “Limitar o teto de gastos foi o primeiro ato da atual gestão, que começou em 2016”, declarou.

Participante de outras edições da APAS Show, o atual governador de São Paulo, Márcio França, falou sobre a evolução do evento ao longo dos anos. “O sucesso de hoje vem de muitos anos, enquanto formatávamos esse modelo de varejo que temos hoje.”

Já o prefeito de São Paulo, Bruno Covas, agradeceu a parceria da APAS com a cidade em diferentes questões, além de tratar das ações que estão sendo feitas em prol do setor. “Estamos trabalhando para reduzir a burocracia na liberação de licenças e alvarás para as lojas, de forma a contribuir com a geração de empregos e com a promoção da renda na cidade”, citou.

A evolução do consumo no último ano

Preço, qualidade e variedade são os atributos mais procurados pelos consumidores. Eles também preferem fazer suas compras em lojas do formato supermercado e acompanhados por familiares, de acordo com a pesquisa exclusiva realizada pela APAS, em parceria com o Ibope Inteligência, divulgada na coletiva de imprensa realizada no primeiro dia da APAS Show 2018. Ainda sentindo o reflexo da maior recessão econômica já vivida no país, os consumidores mudaram seus hábitos de compras e aumentaram, de forma significativa, a prática de pesquisa de preço, enquanto aproximadamente 69% das pessoas comparam os valores em supermercados. “O destaque são as mulheres, que representam 74% desse total”, afirmou o gerente da divisão de gestão coorporativa da APAS, Rodrigo Mariano.

Porém, os supermercados foram ao encontro da crise e impulsionaram a economia nacional. Em 2017, o setor supermercadista atingiu R$ 352,3 bilhões de faturamento, o que representa 5,4% do PIB brasileiro. Desse total, o estado de São Paulo teve participação de R$ 103,13 bilhões, o que representa cerca de 30% do valor total obtido pelo setor em todo o país.

Outro ponto de destaque para o setor foi a geração de oportunidades de trabalho. Em um ano em que a taxa de desemprego crescia de forma desenfreada em todo o país, os supermercados foram responsáveis por gerar 1,8 milhão de postos diretos. Só em São Paulo, por exemplo, foram empregadas 8.592 pessoas, com um total de 25 mil lojas, o que representa, aproximadamente, 28% do total existente no Brasil.

Ainda de acordo com dados divulgados pela pesquisa, que focou na tendência e no comportamento do consumidor, 89% dos entrevistados disseram que têm o hábito de usar os supermercados como principal canal para abastecer a casa com alimentos, bebidas e produtos de higiene.

“Os números também mostram que 44% dos consumidores da classe AB frequentam supermercados pelo menos uma vez por semana. No outro extremo, na classe DE, essa taxa é de 23%. Hoje, em média,

o brasileiro vai ao supermercado quatro vezes ao mês”, disse Mariano. Esse contraste ocorre porque as famílias de menor poder aquisitivo, de modo geral, fazem compras mais planejadas, ao mesmo tempo em que aquelas que têm recursos podem fazer mais compras por impulso.

A diretora do Ibope, Márcia Sola, complementou o discurso e chamou a atenção à familiaridade que os consumidores têm com os supermercados. “O mais importante para o setor é ficar atento ao fato de que os consumidores conhecem a distribuição dentro das lojas, sabem sobre os preços e, principalmente, sobre as pessoas. Então, as mudanças que os supermercadistas fazem nas lojas podem afetar um pouco o comportamento de compra dos clientes, é importante estar atento a isso”, concluiu.

Falando em frequência de idas às lojas, o levantamento mostra que 59% dos respondentes preferem ir acompanhados aos supermercados. Entre eles, 28% divide as atividades com os filhos e 57% é acompanhado pelo cônjuge. Porém, referindo-se à classe C, essa taxa sobe para 61%, havendo, entre os casais na faixa etária de 35 e 44 anos, elevação para 66%. Há um outro ponto observado pela pesquisa, que mostra as diferenças nas preferências entre homens e mulheres. O público masculino valoriza questões pouco observadas pelo sexo oposto, como fatores que agilizam todo o processo de compra, a exemplo da facilidade para achar vagas de estacionamento, entrar e sair mais rapidamente do supermercado e o pronto atendimento em áreas como o açougue. Já o público feminino dá mais atenção para questões relacionadas ao ato da compra, como ênfase à qualidade dos produtos, ofertas e, de modo geral, à limpeza dentro da loja. Ou seja, o senso crítico do público feminino é mais aguçado.

Sendo assim, a atenção aos detalhes é imprescindível. Segundo o levantamento, um dos fatores que mais influenciam na hora de abandonar um supermercado é ter um açougue com aspecto desagradável. Isso porque  a aparência suja não impacta apenas na categoria carnes, mas influencia no pré-julgamento da loja de forma geral. Aparecem, ainda, na pesquisa a questão de produtos vencidos disponíveis nas gôndolas, além de propagandas que não fazem jus à realidade, como fatores que desestimulam a compra em um determinado estabelecimento.

Ou seja, dar a devida atenção, de forma geral, à loja e não apenas focar em produtos aumenta, e muito, as chances de uma ótima experiência de compra para o shopper. Ajustar pequenos aspectos que antes passavam batido e tratar o consumidor da forma que ele espera pode ser um ótimo começo para fazê-lo realmente amar seu supermercado.

O futuro da política no Brasil

Sociólogo e cientista político, Bolívar Lamounier foi o convidado para realizar a Palestra Inaugural da APAS Show 2018, em apresentação que aconteceu no formato de bate-papo, conduzido pelo jornalista Mílton Jung. Ele tratou de vários assuntos relacionados ao futuro do Brasil, mostrando quais são as importantes demandas a serem discutidas. “Nós investimos 16% do PIB e temos que elevar a 25%”, exemplificou. Lamounier abordou as próximas eleições, que irão escolher, entre outros cargos, o novo presidente da República. “Um ponto que gostaria de frisar é que a eleição deste ano vai precisar das contribuições de organizações como essa (a exemplo da APAS) para a agenda dos próximos anos, pois temos muitos problemas pendentes”, resumiu. Como um dos pontos importantes para ditar a questão da política rumo ao caminho ideal no Brasil, o sociólogo e cientista político destacou que seria necessária uma mudança na quantidade de siglas existentes no país. “Temos uma descrença séria em relação aos partidos políticos. Atualmente, são 36 registrados, 28 com representantes na Câmara. Há muita fragmentação dos partidos e o eleitor não se sente representado.”

Ele também analisou o cenário político do país desde a última década do século 20 até o presente, observando que o posiciona- mento dos cidadãos brasileiros segue bastante segregado. “Somos um país muito dividido nos últimos 25 anos, com o PT e o PSDB dominando”, comentou.

Porém, ao tratar de alguns nomes que eram tidos como pré-candidatos à Presidência da República, ele não demonstrou otimismo. “O Joaquim Barbosa (ex-ministro do Supremo Tribunal Federal, que viria a confirmar que não seria candidato nessas eleições no dia seguinte à abertura da APAS Show) é um nome importante, mas não está preparado para ser presidente”, exemplificou, sem citar perfis com potencial para conduzir o país.


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