Refrigeração em equilíbrio

Refrigeração em equilíbrio

por Tatiana Ferrador

O comportamento de compra do consumidor mudou muito nas últimas décadas, gerando algumas necessidades e fazendo com que os supermercados repensassem seu layout e apresentação de produtos. Os itens nas gôndolas e a exigência de uma exposição atraente e diferenciada impulsionam a venda de equipamentos de refrigeração que aliem soluções mais sustentáveis às novas legislações e normas trabalhistas, de vigilância sanitária, ambientais e urbanas.

Cada vez mais, os supermercados terão produtos frescos que necessitem de refrigeração, em detrimento do produto embalado, como explica o gerente de vendas da Danfoss, Daniel Marcucci, que desenvolve soluções para controle e eficiência.

“Há alguns anos a área refrigerada representava cerca de 30% de uma loja, mas, em breve, ela deve alcançar 70% do supermercado”, diz Marcucci. “O supermercadista deve investir em manutenção e monitoramento do sistema de refrigeração, ar condicionado, iluminação, entre outros, para torná-los sustentáveis e energeticamente eficientes”, destaca.

O primeiro lugar para começar a procura por economia de energia é o rack de compressores, que normalmente é responsável por 30% a 50% do consumo de energia da loja. “Vários estudos e experimentos mostraram que, para atender à demanda de resfriamento, os compressores só precisam executar toda a velocidade em cerca de 10% do tempo; no restante, podem funcionar a uma velocidade inferior e, ainda assim, entregar a carga térmica necessária”, alerta Marcucci.

O aumento da eficiência energética dentro da loja, no entanto, não é a única maneira de obter economias de custos e soluções ecologicamente corretas. A flexibilidade na demanda de energia ou a integração de redes inteligentes também é parte da solução – a variação de carga nos compressores em supermercados pode liberar 60% a 80% da capacidade de refrigeração em alguns casos.

Novas soluções

Um bom equipamento ajuda a rentabilizar a seção em que está inserido no supermercado, uma vez que, ao gerar pouca manutenção e menos paradas no setor, influencia diretamente no gerenciamento de energia, como no caso de controladores eletrônicos de balcão, que otimizam os ciclos de liga-desliga do sistema e ainda economizam energia.

Há, também, a preocupação ambiental com os equipamentos de refrigeração em dois pontos cruciais. O primeiro diz respeito aos fluidos refrigerantes, em que o setor busca cada vez mais adotar os refrigerantes naturais, como o CO2, com um GWP (Global Warming Potential, ou potencial de aquecimento global) baixo. A tecnologia tem caminhado a passos largos para atender essa demanda. O segundo ponto é sempre sugerir um equipamento mais eficiente energeticamente – diminuindo o consumo, há menor demanda para a geração de energia.

A Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento (Abrava), por meio de seu vice-presidente de meio ambiente, Paulo Neulaender, esclarece que, se por um lado o apelo em sistemas energeticamente mais eficientes é mandatório, por outro, há o desafio de usar substâncias ecologicamente corretas para minimizar o impacto ambiental.

“Há também o desenvolvimento de sistemas associados a pacotes eletrônicos que têm possibilitado instalações com alta eficiência energética. Podemos destacar os equipamentos variáveis que se ajustam em função da demanda de frio, como é o caso dos inversores de frequência, variadores de capacidade como o Varistep, válvulas de expansão eletrônicas e ventiladores/forçadores de ar variáveis (com motores EC)”, explica Neulaender.

Quanto maior a busca pela alta eficiência energética e menor o impacto ambiental, tornam-se mais sofisticados os sistemas com mais eletrônica, maior atenção quanto à segurança e, consequentemente, mão de obra mais treinada. “Os ganhos são rapidamente percebidos; a estabilidade da temperatura correta de armazenamento reduz a perda do produto (quebra de produto), que hoje ainda é elevada quando comparada com outros países”, afirma o executivo.

O mercado de fluidos refrigerantes, ainda de acordo com Neulaender, está caminhando para uma cesta de opções para aplicação no setor supermercadista, com destaque para fluidos que tenham o menor GWP possível. Por isso, os fluidos naturais e as novas famílias de HFOs (hidrofluorolefinas) devem ser uma aposta definitiva para o setor.

“Vale ressaltar que temos que caminhar com foco em economia energética, e a maioria dos equipamentos novos fabricados com esses tipos de fluidos visam essa questão. Sabemos que dentro de um supermercado as áreas de refrigeração chegam a ser responsáveis por até 70% do consumo de energia da loja”, pondera o executivo.

Na linha de produção

Em sua fabricação de expositores, a Eletrofrio emprega soluções de isolamento térmico isentos de agentes expansores agressivos ao meio ambiente, bem como nas instalações frigoríficas para supermercados. “Produzimos e instalamos equipamentos frigoríficos que não utilizam gases sintéticos, que estão sendo substituídos gradativamente por CO2 e propano”, afirma o diretor de marketing e vendas da empresa, Roberto Weidner.

A Eletrofrio lançou na APAS 2018 uma nova linha de expositores frigoríficos que, segundo Weidner, determinarão um novo marco nos parâmetros de dimensionamento dos equipamentos de refrigeração. “Essas novas condições proporcionam uma redução de mais de 20% no consumo de energia, privilegiando a exposição das mercadorias, a temperaturas adequadas, com iluminação que valoriza a exposição”, ressalta.

Outras companhias investem em soluções que vão atender à necessidade de eficiência energética nas lojas, como é o caso da Fricon. A empresa destaca, nesse segmento, recursos que propiciam um baixo consumo de energia combinada com melhor performance na eficiência da refrigeração, além de extensa vida útil. “Tendo em consideração as grandes cadeias de distribuição do ramo alimentar, com enorme know-how nos equipamentos de frio, e o parque de equipamentos instalados, utilizados em condições ótimas, podemos estimar a vida útil de um equipamento para cerca de 10 anos”, ressalta o executivo de vendas da empresa, Frederico Pacelli.

A AHT é outra empresa que fornece equipamentos para conservação de alimentos congelados e resfriados, tais como ilhas plug-in ou self, que são gabinetes horizontais modulares com motor acoplado e tampas deslizantes de vidro. De acordo com seu diretor de vendas, Ronaldo Bartolomei, todos os componentes elétricos e eletrônicos utilizados nos produtos permitem verificar possíveis falhas nos sistemas de proteção contra contatos acidentais de usuários nas partes vivas dos equipamentos.

Já a Arneg Brasil propõe ao mercado soluções de expositores refrigerados e congelados com unidade remota ou com motor acoplado para todas as exigências do varejo, de vitrines (refrigeradas e estufas) a balcões verticais com e sem portas, ilhas com motor acoplado e unidade remota e outras soluções expositivas. Segundo o gerente nacional de vendas, Nicola Gafforini,  a escolha do balcão correto para a exposição e venda de um determinado produto é de fundamental importância, pois ajuda na melhor visualização do item comercializado. “O conceito da loja desenvolvido pelo varejista e o tipo de serviço oferecido aos clientes também influenciam na escolha do produto adequado”, explica Gafforini.

O diretor da NSF, que conta com gôndolas e acessórios, balcões refrigerados, entre outros, Diniz Amilcar Matias Fernandes, explica que as novidades do setor podem ser divididas em duas áreas bem distintas. “Uma é relativa aos gases de refrigeração, função das novas regulamentações ambientais. A outra é relativa à aplicação da eletrônica nos sistemas de refrigeração”, relata.

Dependendo das condições da instalação e dos recursos aplicados, o retorno de investimento (payback) pode acontecer em apenas oito meses, segundo a Abrava. Porém, o setor varejista aceita, em média, um retorno de investimento entre 24 e 36 meses, considerando que esses equipamentos operam entre 10 e 15 anos.

Na rede GBarbosa, pertencente ao Cencosud, cada loja possui uma quantidade de equipamentos proporcional ao tamanho e ao mix de produtos que serão oferecidos. Eles são fatores determinantes para a compra dos balcões refrigerados e congelados, câmaras e sala de preparo.

O gerente de manutenção das redes GBarbosa, Perini e Mercantil Rodrigues, Alisson Bomfim, relata que, no Nordeste, onde estão localizadas as unidades GBarbosa Costa Azul e Mercantil Calçada (ambas em Salvador/BA), durante a reforma foi trocado 100% do sistema, composto de quadros elétricos, compressores, condensadores, linhas e tanques de líquido, evaporadores, balcões em geral, evaporadores das câmaras e salas de preparo.

Atualmente, o Grupo Carrefour Brasil conta com os mais diversos sistemas de refrigeração instalados em suas lojas no país, além de investir constantemente na adoção de tecnologias eficientes e mais sustentáveis. De acordo com a área de comunicação da rede, esse investimento está contemplado na estratégia de expansão de novas lojas e de revitalização das unidades.

Segundo informações da empresa, entre os sistemas de refrigeração adotados pela companhia, destaca-se o que utiliza gás natural, com fluidos ecológicos CO2, presente em mais de 20 lojas da rede, além dos balcões refrigerados com portas.

O Carrefour afirma que entre os quesitos avaliados para a aquisição dos equipamentos de refrigeração foi considerada a eficiência energética da tecnologia, a fim de garantir a qualidade e o correto desempenho do equipamento. Informa, ainda, que a adoção de tecnologias eficientes e mais sustentáveis contribuiu significativamente para a redução no consumo de energia, além de demandar menos manutenção e reduzir a perda de alimentos.

O diretor operacional da Rede Savegnago, Carlos Trovão, afirma que, atualmente, a rede opera com 41 lojas de supermercados e dois Centros de Distribuição, e que há mais de 3.300 metros lineares de gabinetes refrigerados e congelados, com área superior a 7.000 metros quadrados de câmaras resfriadas e congeladas para armazenamento de produtos.

“Com o avanço da tecnologia esses equipamentos estão se tornando cada vez mais eficientes e com consumo bem menor de energia elétrica. Podemos citar também o baixíssimo nível ou até mesmo a ausência de gases que prejudicam a atmosfera, além de contar com equipamentos que podem ser monitorados a distância”, explica.

Segundo Trovão, o primeiro critério utilizado no processo de compra na rede foi o desenvolvimento de um projeto de frio alimentar, com todas as premissas para a aquisição e a instalação, para que aquela fosse mais assertiva. “Com isso trouxemos, além da eficiência, maior confiabilidade na segurança alimentar dos produtos, baixo consumo de energia elétrica e menor impacto ao meio ambiente”, afirma.

Na opinião do gerente de vendas da Danfoss, Daniel Marcucci, no segmento de refrigeração, o principal desafio é fazer com que os responsáveis e os gestores dos supermercados entendam os tempos dos retornos nos investimentos em eficiência.

“Todos sabem que precisam de uma loja mais ‘verde’ e que consuma menos energia, mas grande parte não quer investir para ter um payback acima de dois anos. O setor precisa passar por uma mudança de mindset, investindo em tecnologia para ser sustentável, pensando no retorno do investimento em médio prazo, algo entre dois e cinco anos”, conclui Marcucci, deixando a lição de casa para os varejistas.


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