Profissionalização no tomate

Profissionalização no tomate

por Luciana Franco

O produtor Edson Trebeschi cultiva tomates há mais de 20 anos no Brasil. A trajetória de sua empresa reflete a evolução e a sofisticação desse mercado ao longo das duas últimas décadas, período em que o plantio foi modernizado, a distribuição foi aprimorada, dezenas de variedades foram desenvolvidas e novas embalagens atenderam aos anseios dos diversos tipos de consumidores.

De acordo com a Associação Brasileira do Comércio de Sementes e Mudas (ABCSEM), em 2017, a área de cultivo da fruta somou 60,3 mil hectares, com destaque para os estados de Goiás, São Paulo e Minas Gerais, que, juntos, respondem por mais de 60% da produção nacional. Estimativas apontam para uma produção entre 4 milhões e 4,5 milhões de toneladas no período.

No Brasil, a produção de tomate é altamente diversificada a fim de atender o consumo que ocorre em diversos momentos do cotidiano: sob a forma de molho, em massas e pizzas; in natura, em saladas e lanches; e seco, em pizzas ou aperitivos.

Atualmente, o consumo per capita no mercado interno representa, em média, 8,5 quilos por pessoa, por ano. O volume está em linha com a média mundial, que é de 9 quilos, mas bem abaixo da quantidade ingerida em países desenvolvidos, como a Itália e os Estados Unidos, onde o consumo beira os 20 quilos por ano.

“Esse é um produto consumido em maior quantidade nas regiões mais desenvolvidas”, afirma o coordenador de marketing da Sakata, empresa de sementes de hortaliças e flores, Gustavo Veiga.

E mesmo dentro do Brasil é possível verificar tais oscilações. Nas classes sociais com renda mais baixa, o consumo é de 4,5 quilos e vai subindo até chegar a 10 quilos por pessoa, por ano, na classe A. Além de adquirirem em maior quantidade, os mais ricos também compram itens de alto valor agregado, como os tomates grapes (uvas) e cerejas, da linha de especialidades (formada pelos híbridos cereja, coquetel, grape e holandês, que é o tomate em penca). “Essa linha é, atualmente, a grande aposta do setor”, diz o diretor executivo da ABCSEM,

Marcelo Rodrigues Pacotte. Os investimentos em produtos de maior valor agregado refletem as mudanças de hábito dos consumidores, que buscam produtos práticos e opções de lanches mais naturais e saudáveis. “O tomate se encaixa em diversas refeições dentro e fora do lar”, diz o produtor Trebeschi. Por esse motivo, cresceu o número de empresas que disputam o segmento.

Para o consumidor, o aumento da competitividade foi bom, uma vez que trouxe maior diversidade de produtos ao mercado. Entre as mudanças que ocorreram no segmento nas últimas duas décadas, Veiga destaca o aumento da demanda pelo tomate tipo italiano, que é mais alongado e apresenta consistência, sabor e atributos organolépticos diferenciados. Ele tem preço, em média, entre 15% e 20% mais alto que o tomate redondo e, mesmo assim, tem sido um produto cujo consumo está subindo.

“Em linhas gerais, a indústria de sementes foca em produtos com alta resistência a doenças, sabor agradável, formato padronizado e firmeza de fruto”, diz o diretor da ABCSEM.

Variedade em alta

É na diversidade de opções que a Trebeschi trabalha nos estados de Goiás, Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina. “Quando começamos a produção, 23 anos atrás, tínhamos no Brasil, basicamente, o tomate para indústria e as variedades redondas, como o santa cruz e o caqui”, lembra o proprietário da produtora, dizendo que só depois veio o tomate cereja.

“Em 1994, começamos a plantar o longa vida, conhecido como tomate salada e, na sequência, surgiram o débora, o italiano e, finalmente, os tomates sweet grapes vermelhos e amarelos”, acrescenta.

A Trebeschi foi, inclusive, uma das primeiras empresas que trouxeram o tomate sweet grape para o Brasil, na mesma época em que começou o desenvolvimento de embalagens para o setor. “Há cerca de 10 anos passamos a vender, além de granel, pacotes menores e criamos a embalagem plástica em formato de uva para diferenciar o sweet grape, uma vez que muita gente confundia com o cereja”, conta.

A Trebeschi planta dezenas de variedades de tomates em mil hectares distribuídos em quatro estados, estratégia para produzir durante o ano inteiro. Essa produção é feita com o auxílio de agricultores integrados, em uma parceria na qual a empresa oferece ao produtor semente e assistência técnica e se compromete a comprar o produto ao final.

O proprietário da empresa costuma pesquisar novas variedades fora do Brasil e adaptar o produto ao clima tropical. “Há cinco anos criamos uma estação interna de pesquisa para entendermos quais são as melhores variedades ao clima brasileiro”, detalha. Dessa maneira, ele consegue desenvolver produtos para todos os públicos. Na linha sweet, além dos minitomates, a empresa também comercializa espigas de milho pré-cozidas. “São produtos inspirados no milho produzido fora do Brasil, que é mais doce. Esses itens são voltados para o segmento infantil e servem como opção de lanches fora de casa, por serem naturais e práticos, comercializados em embalagens de 180 gramas”, diz Trebeschi, que desenvolveu também uma embalagem plástica em formato de coração para os minitomates.

Diferencial na infraestrutura

No Brasil, os produtos da linha de especialidades ainda respondem por uma pequena parcela da produção nacional. Esses itens são cultivados em ambientes protegidos (estufas), em um es- paço onde o manejo da lavoura é feito por meio do controle biológico de pragas e doenças.

O custo de produção em estufas é maior, pois a tecnologia empregada é mais alta. O resultado, no entanto, compensa, já que os produtos cultivados em estufa não sofrem interferência do clima, são mais padronizados e muito saborosos. Além disso, em estufas é possível produzir durante o ano inteiro.

Da produção total de tomates da Trebeschi, 20% é da linha de especialidades, ou seja, cultivado em ambientes fechados. Esse cenário não reflete a realidade brasileira, uma vez que 95% do plantio nacional é feito a céu aberto.

Como o tomate é um produto sensível, que sofre com vento forte, chuvas, granizo e pragas, os produtores que cultivam a céu aberto têm uma grande dificuldade de manter a padronização da fruta e estão constantemente sujeitos às quebras de safras em virtude de condições climáticas adversas.

Os 5% cultivados em estufas são resultado de altos investimentos, uma vez que as estruturas são semiclimatizadas e o ambiente fechado reduz o ataque de pragas. Algumas estufas mais modernas possuem paredes e tetos de vidro, com transparência de 95% (o que viabiliza a entrada de luz durante o inverno, fundamental para o desenvolvimento do tomate), além de telhado e janelas que podem ser abertos durante o inverno.

Cuidados no detalhe

A Trebeschi tem uma produção sustentável e está em fase de implantação do certificado Global GAP, que atesta as boas práticas agrícolas. “Temos o maior reservatório do Brasil de aproveitamento da água de chuva, o que nos permite usar, durante cinco meses do ano, a água armazenada nos períodos chuvosos”, diz o proprietário.

São dois reservatórios, com capacidade de 20 milhões de litros de água. Também, no cultivo convencional – feito fora das estufas – usam, além da irrigação por gotejamento, a proteção do canteiro de cultivo a fim de trabalhar a água de forma mais racional. “Com essas estratégias conseguimos uma redução de 35% no uso de água”, diz.

A empresa aderiu inclusive a uma prática cada vez mais comum na produção de frutas, legumes e verduras: a rastreabilidade, pela qual todos os produtos saem das fazendas com a indicação da origem de produção. “No produto vendido a granel é ainda possível fazer o rastreamento junto ao supermercado, uma vez que as caixas entregues em cada unidade têm o código de sua origem”, diz Trebeschi.

Além disso, a empresa participa do Programa de Rastreamento e Monitoramento de Alimentos (Rama), da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), tendo sido premiada como modelo na rastreabilidade e segurança do alimento.

“Criamos uma estrutura para facilitar o trabalho dentro do supermercado e, sempre que há um produto novo, ele é amplamente divulgado, o que ajuda a agregar valor no metro quadrado da loja, a reduzir quebras e a gerar a fidelidade do cliente”, finaliza Trebeschi, mostrando que diferenciais não faltam no trabalho da empresa com esse alimento.

Tomatoes growing on vines awaiting to be picked

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