Profissionalismo na apicultura

Profissionalismo na apicultura

Na teoria, a apicultura é definida pelo dicionário da língua portuguesa como “a arte de criar abelhas”. Já na prática é necessário mais esforço do que arte na criação desses insetos voadores que chegaram ao Brasil por volta de 1830. Isso ocorre porque, como em qualquer atividade agrícola, o principal objetivo do apicultor é a alta produtividade. “Apicultura se faz com abelha, apicultor que tenha conhecimento técnico de manejo e pasto apícola”, diz o presidente da Apacame, Associação Paulista de Apicultores Criadores de Abelhas Melíficas Europeias, Constantino Zara Filho.

O Brasil detém excelentes condições para a atividade: abelhas produtivas e resistentes a doenças; apicultor com conhecimento; além do clima tropical e da extensa área territorial com biomas diversificados – Amazônia, Caatinga, Pantanal, Pampa Gaúcho, Mata Atlântica e Cerrado – e que possibilitam a produção de mel, própolis, geleia real e pólen de diferentes floradas, com alta qualidade e nos 365 dias do ano.

Mesmo estando presente no país desde a época da colonização, foi somente a partir de 1950 que a apicultura se tornou uma atividade lucrativa, após o cruzamento das abelhas europeias com as africanas, o que resultou em um híbrido mais produtivo e resistente a doenças, para originar um produto natural e livre do uso de medicamentos. Sob a égide de produto natural, o mel produzido no Brasil é, desde o início da década de 2000, um dos mais apreciados no mercado internacional, por ser coletado de floradas de matas nativas, isento de agrotóxicos. “O Brasil é o quinto maior produtor mundial e, em 2016, se posicionou em nono lugar no ranking dos maiores exportadores”, diz o presidente da Abemel, Associação Brasileira dos Exportadores de Mel, Agenor Sartori Castagna.

De acordo com ele, é possível saltar da quinta para a segunda posição entre os maiores produtores mundiais com ações simples: elevando a produtividade e aumentando o número de caixas coletoras atualmente distribuídas pelo país. “Podemos multiplicar em até quatro vezes a produção nacional, de 45 mil toneladas por ano para 200 mil toneladas, expandindo a área e aumentando a produtividade, com melhoramento genético, manejo, troca de rainha e alimentação estimulante, entre outras coisas”, diz.

A troca de rainha, por exemplo, é fundamental para se elevar a produtividade da colmeia, uma vez que ela carrega metade das informações genéticas de toda a família. Por esse motivo, uma rainha jovem e de boa genética garante o crescimento rápido da colônia.

O manejo da colmeia também é importante e, nesse quesito, a escassez de alimentos pode comprometer o tamanho do enxame e, consequentemente, a produção de mel. Portanto, recomenda-se a oferta de uma alimentação artificial com xaropes, na falta de néctar, ou com farinha de soja, na falta de pólen. Tais cuidados, no entanto, ainda não fazem parte da rotina dos apicultores. “O mais comum é o agricultor introduzir algumas colmeias em sua propriedade para diversificar e agregar valor à sua produção. Ele instala as caixas de abelhas e não se preocupa muito com o manejo”, diz o presidente da CBA, Confederação Brasileira de Apicultura, José Soares de Aragão Brito.

Por esse motivo, a produtividade média do Brasil se situa em baixos patamares, variando de 16 quilos a 18 quilos de mel por colmeia ao ano, ao passo que a Argentina, por exemplo, que ocupa o terceiro lugar entre os maiores exportadores do mundo, obtém, em média, 38 quilos de mel por colmeia ao ano. Alguns estados brasileiros já abandonaram a produção amadora, “bem como os produtores maiores, que imprimiram um caráter altamente profissional aos seus negócios e que conseguem de 70 quilos a 80 quilos de mel por colmeia ao ano”, diz Brito.

Na avaliação do presidente da Abemel, a apicultura brasileira está passando por um processo de renovação. Atualmente, cerca de 30% dos produtores já adotam estratégias de manejo diferenciadas e obtêm resultados excelentes. “Esses produtores respondem por 50% da produção nacional”, diz Castagna. Os apicultores que se profissionalizaram têm uma casa de mel, destinada à extração do mel das melgueiras trazidas do campo, com equipamentos de decantação e espaço para estocagem, além de maquinário para a rotulagem e o envase do mel.

Para Brito, a atual meta do setor é trabalhar o profissionalismo. “Sempre buscamos mostrar aos nossos apicultores o que acontece em outros países”, conta. As estatísticas do setor são divergentes, mas estima-se que existam atualmente, no país, cerca de 350 mil apicultores. Na maioria, são produtores que trabalham a apicultura como segunda opção de renda, o que justificaria o baixo aporte tecnológico na atividade. “Temos que mudar essa situação, porque a demanda pelo mel produzido no Brasil é muito alta”, diz Brito. De fato, além das vendas externas, que saltaram de 16,8 milhões de quilos em 2012 para 24,2 milhões de quilos em 2016, o mercado interno também está com desempenho positivo. “O consumo interno, apesar de ser baixo, quando comparado aos grandes compradores mundiais, é crescente”, diz Zara Filho.

O brasileiro, que consumia 70 g de mel por ano, há uma década, já faz uso de entre 100 g e 120 g de mel por ano. Os europeus, por outro lado, consomem aproximadamente 2 kg. “Há, portanto, muito espaço para crescer, mas não há como incentivar o consumo se eu não tenho produção. Atualmente, 52% da nossa produção é destinada à exportação. Se as vendas no exterior crescerem, eu não tenho como atender aos dois mercados”, lamenta Brito.

Na possibilidade de escassez de mel no mercado interno, haveria a abertura da fronteira para produtos de procedência desconhecida. “As abelhas europeias são mais suscetíveis a doenças e são frequentemente tratadas com antibióticos, diferentemente da nossa abelha, que não precisa de medicamentos. Por isso, nosso mel é diferenciado. Temos que trabalhar para elevar a produção e depois o consumo”, diz o presidente da Confederação Brasileira de Apicultura.

A mesma posição compartilha Zara Filho. “Temos uma enorme diversidade de espécies vegetais no Brasil, o que garante um paladar excelente para o mel brasileiro. E a vocação do Brasil para a produção de mel orgânico é enorme, já que a nossa produção é integralmente natural”, diz o presidente da Apacame. Ele alerta, no entanto, para a existência de um gargalo que atinge alguns apicultores: a pulverização aérea de agrotóxicos, que tem feito com que apicultores que atuam próximos às grandes plantações percam suas colmeias. “Estamos trabalhando com o Greenpeace e também com o Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para a Defesa Vegetal para tentar reduzir essas aplicações aéreas, que, com o vento, se espalham por toda a região onde se situa a plantação”, diz Zara Filho.

Representantes do setor são uníssonos quanto às tendências da apicultura no Brasil. “Gostaríamos que o número de apicultores profissionais crescesse”, resume Constantino. Nesse sentido, o Sebrae criou o projeto Apis, Rede de Apicultura Integrada e Sustentável, que promove a articulação de cooperação e parcerias entre os produtores, a fim de fortalecer a atividade. “O momento atual exige uma mudança de comportamento”, defende Castagna.

Além da demanda aquecida, os preços também se encontram em excelentes patamares, cotados a US$ 3,80 o quilo no mercado externo e a R$ 12 o quilo no atacado do mercado interno, o dobro do valor praticado em 2010. Pelo que tudo indica, essa é mesmo a hora de investir na profissionalização.


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