Os desafios para o próximo presidente alavancar o varejo alimentar

Os desafios para o próximo presidente alavancar o varejo alimentar

por Thiago Berka*

*Graduado em Economia pela UFSC e em Administração pela Univali, com MBA em finanças pelo IBMEC, é economista da APAS

Vários são os problemas apresentados pelo varejo alimentar no Brasil, que perduram por anos e são enfrentados pelos empresários dos mais diversos setores. O país precisa de reformas urgentes para que o empresariado possa trabalhar e competir de forma justa, sem amarras governamentais que emperram o seu crescimento.

Entre os vários problemas do setor estão o alto turnover (que gira em torno de 40%) e os custos trabalhistas que envolvem a contratação, bem como a burocracia brasileira, que impacta em ações diversas, desde ligar um ponto de energia e água em uma nova loja até conseguir a liberação de alvarás etc. Há também um excesso de documentações, taxas e encargos com os quais os empresários precisam lidar. Outro ponto desafiador é o emaranhado de leis e tributos existentes – segundo o Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação (IBPT), gastam-se 1.958 horas com isso, acompanham-se 63 tributos, 97 obrigações acessórias, 3.790 normas e se desembolsam R$ 60 bilhões para atendê-las (1,5% do faturamento das empresas). De cada 200 funcionários, um trabalha na área contábil, enquanto na Europa a relação é de um para 500. Há, ainda, os órgãos de fiscalização cuja fonte de receita são as multas aplicadas nas lojas (esses órgãos não têm dotação orçamentária pública, em geral), o que dá margens para excessos, preocupação e gastos constantes por parte do varejo alimentar, com o objetivo de evitar prejuízos que chegam a ser fatais para a continuidade das operações ou cujo montante poderia ser usado para investimentos.

Tudo isso cria instabilidade jurídica e custos que serão repassados, em parte, para o consumidor final, que paga a conta da ineficiência governamental, seja no aumento dos preços pelo sistema produtivo, seja nos elevados impostos dos produtos. Soma-se a isso a ineficiência dos serviços públicos, o que faz o cidadão recorrer à iniciativa privada. Para 84% dos brasileiros, o país é muito burocrático e, para 91% das empresas, isso afeta a competitividade.

A população e os empresários enxergam a mesma coisa.

Finalmente, além da absurda ineficiência tributária, outro desafio visando alavancar o setor é recuperar o emprego. Para isso, é necessário enfrentar a questão fiscal do Estado brasileiro de forma racional. Não é possível investir mais, se 93% dos gastos da União são obrigatórios (incluindo custos com previdência e folha do funcionalismo público). Da mesma forma, não há como alavancar gastos sociais (um mote de campanha de todo presidente, seja de direita, seja de esquerda), investir em infraestrutura ou em políticas públicas importantes de melhoria da ciência e da tecnologia mantendo-se esse cenário. O próprio Tesouro Nacional admite que temos o orçamento mais engessado do mundo.

Portanto, para recuperar o emprego, são necessárias reformas na previdência, na estrutura do funcionalismo público e no orçamento, que está amarrado via Constituição de 1988, com diversos gastos vinculados e obrigatórios. Só dessa forma se poderão direcionar recursos, aliviar a questão fiscal brasileira e a carga tributária, que gira, hoje, entre 32% e 33%.

É preciso imprimir um choque de confiança positiva com as reformas tributária, antiburocracia e previdenciária e, ainda, impedir o intervencionismo ideológico (que nos colocou nessa crise a partir de 2013). Esses fatores fariam toda a diferença para termos anos de forte crescimento no varejo alimentar, que assiste ao aparecimento de uma onda tecnológica no mundo – com recursos disponíveis para abertura e reforma de lojas –, mas que fica represado diante de uma economia fraca e de governos míopes.


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