O queridinho do autosserviço?

O queridinho do autosserviço?

por Natalie Catuogno Consani

Pela primeira vez, o atacarejo ultrapassa o supermercado em índice que mede canais visitados – e a notícia pode ser ótima para os formatos concorrentes

O atacarejo é a jabuticaba do autosserviço. Só existe no Brasil, a começar pelo nome. “Atacarejo” é um neologismo que designa uma forma híbrida de varejo, que atende tanto ao atacado quanto ao varejo. Mas é uma jabuticaba muito bem-sucedida.

Em sua origem, o canal servia para pequenos empresários, comerciantes, transformadores, trabalhadores informais que vendiam cachorro-quente na porta das escolas e das baladas nas grandes cidades.

Há oito ou dez anos, a participação do consumidor final nas vendas desse canal era irrisória, pouco mais de 10%, a depender da região, da bandeira e das condições oferecidas. O atacarejo nem sequer aceitava cartão de crédito como meio de pagamento e, não raro, era preciso ter um CNPJ para fazer suas compras.

Com o tempo – e a economia instável –, o atacarejo ocupou um espaço que, na Europa, é dos hard discounters. Ou seja, foi esse formato que, no Brasil, assumiu a proposta de valor, especialmente em não perecíveis.

A derrapada da economia nacional, que reduziu drasticamente o poder de compra dos brasileiros em seu período mais agudo, entre 2014 e 2016, ajudou o canal a ganhar visibilidade, mais clientes e a vislumbrar possibilidades mais agressivas de expansão.

Foi nesse momento que as grandes redes passaram a investir mesmo no canal e a substituir lojas de hipermercado, formato em declínio, por atacarejos. Olhando para os balanços dessas redes, foi uma boa escolha.

Atacadão, do Carrefour, e Assaí, do GPA, por exemplo, sus- tentaram números positivos – ou não tão ruins – de suas respectivas companhias quando a crise apertou.

O Atacadão puxou a alta de 6,2% do Carrefour até o terceiro trimestre de 2018, anunciada no final do ano passado. Seu cartão de crédito também teve desempenho melhor que o esperado. No GPA, o cenário é parecido: pelo segundo ano consecutivo, o segmento de atacarejo – que já é o negócio mais vantajoso do grupo, garantiu a maior alta: 24% no faturamento contra 12% do grupo como um todo.

As bandeiras e redes grandes ou médias, por sua vez, também avançaram sobre esse mercado, buscando atender um público crescente, que vinha tanto da classe média, que ganhou poder de compra na década passada, quanto daqueles que estavam comprando menos com a crise.

O Roldão e o Tenda são exemplos disso. Eles têm expandido sua operação, investido em tecnologia e em atendimento ao consumidor final, com sucesso. O Roldão foi um dos pioneiros na terceirização do abastecimento. O Tenda tem click and collect, um serviço que muitas lojas de supermercado não têm.

Outro exemplo é a bandeira Spani, do Grupo Zaragoza, que chegou à capital São Paulo em 2018 e inaugurou 14 lojas em 2017.

O consumidor, decisivo nessa expansão, foi obrigado, em um primeiro momento, a racionalizar as compras. Trocou de marca no supermercado e migrou para canais que oferecessem um preço adequado ao bolso, mais apertado.

A expansão do atacarejo nesse cenário foi ininterrupta e robusta: mais recentemente, cresceu na casa de dois dígitos anualmente, enquanto o restante do setor de autosserviço alimentar amargava resultados pífios.

“Conforme o consumidor foi conhecendo o modelo, aprendendo, familiarizando-se, o atacarejo foi fidelizando o cliente”, explica o presidente do Grupo Zaragoza, detentor das bandeiras Spani (atacarejo) e Villarreal (supermercado), Cléber Gomez. A rede tem 26 lojas no interior de São Paulo e na capital.

Em números, essa evolução pode ser definida assim: lojas tipo atacarejo foram visitadas por nada menos que 60% dos consumidores em 2018, segundo dados da Medição Nielsen. Já os supermercados receberam a visita de 58%. Esse é um fato inédito, especialmente considerando-se que, em 2015, o atacarejo ficava atrás até do hipermercado, em terceiro lugar em visitas. “Isso quer dizer que mais e mais pessoas têm escolhido o atacarejo frequentemente como um de seus canais de compra”, avalia o coordenador da área de varejo da Nielsen, Jonathas Rosa.

Uma das razões desse desempenho é a proposta de valor do canal, que garante, ainda de acordo com a Nielsen, 12% de economia ao consumidor, comparando-se a mesma cesta adquirida num supermercado.

Outra é o aumento expressivo de lojas e o grande investimento que vem sendo feito nesse canal pelos gigantes e pelas redes grandes e médias. No ano passado, por exemplo, o Carrefour anunciou aceleração de seu plano de expansão e abriu 20 lojas no formato.

O GPA anunciou que abrirá 20 lojas do formato em 2019. O Zaragoza vai na mesma linha: planeja abrir uma única loja da bandeira Vilarreal. O Spani, no entanto, deve inaugurar quatro pontos de venda. “O foco está no atacarejo”, diz Gomez.

Para a Associação Brasileira do Atacado de Autosserviço (Abaas), a jovem associação que representa o setor, o faturamento estimado em 2018 foi da ordem de R$ 95 bilhões, contra R$ 90 bi de 2017. Nada mau, considerando que o faturamento dos supermercados em 2017 foi de R$ 353 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras).

Expansão

Com tanto crescimento – e com projeções otimistas –, as expectativas são de que o setor continue a se desenvolver, mesmo se o poder de compra voltar a patamares de antes da crise.

“As pessoas não vão querer deixar de lado essa sensação de fazer um bom negócio”, avalia Gomez.

Para Jonathas Rosa, da Nielsen, o setor deve seguir as avaliações que foram feitas por especialistas no começo do boom do atacarejo: mesmo com mais recursos, os consumidores não aceitarão pagar mais por um produto que custa mais barato logo ali.

Embora as lojas desse formato sejam mais afastadas do que as lojas de bairro ou de supermercados, a proposta de valor compensa e, por se tratar de uma compra de abastecimento (que representa 70% das vendas do canal), o consumidor entende que vale a pena o deslocamento.

Para ter uma ideia de como essas lojas estão presentes nos grandes centros urbanos, basta dizer que, no Brasil, a cada 267 mil habitantes, há um PDV de atacarejo. Em São Paulo, essa proporção diminui para 154 mil por loja.

Esses mesmos dados dão uma ideia da direção para a qual devem avançar as lojas. Analistas ouvidos para esta matéria concordam que o Rio de Janeiro e a região Sul do Brasil são áreas com pouca oferta desse tipo de canal, apesar da demanda. Tanto em um lugar quanto no outro há uma loja por 400 mil habitantes, três vezes menos lojas por habitante que em São Paulo.

Ganha-ganha

No Sul, a questão é cultural: há redes de supermercados fortíssimas e clientes satisfeitos com as propostas de valor que encontram.

De toda forma, o atacarejo vem se adequando ao gosto do freguês e às comodidades com as quais ele está acostumado em outros canais conhecidos por oferecerem mais serviço.

Se, por um lado, o atacarejo não pode nem deve competir com esses canais em serviços, por outro, alguns avanços são positivos para sinalizar ao consumidor que ele é um dos principais públicos-alvo do atacarejo.

“Os atacarejos estão também indo além do básico. Não se veem mais só aquelas lojas com chão de cimento, empilhadeiras que quase te atropelam. Começaram a colocar ar condicionado, investir em um atendimento mais especializado em algumas seções, vemos até degustações. Eles estão investindo em setores voltados para hortifrúti e começaram a se preparar para essa concorrência de forma muito melhor, com novos serviços para os clientes, o que era impensável um tempo atrás”, avalia o Head de Eficiência Operacional da AGR Consultores, Rodrigo Catani.

Gomez, da Spani, reforça: a rede de atacarejo está investindo em FLV e em refrigerados. Esse não será o forte do canal, mas, onde der para atender, melhor.

Jonathas Rosa, da Nielsen, conta que, embora o carro-chefe do atacarejo sejam as compras de abastecimento, estão crescendo as de reposição. Um dado que sinaliza isso é o aumento de visitas.

Em 2017, informações davam conta de que o consumidor ia uma vez por mês ao canal. Em 2018, esse número aumentou para 13 – e não 12 – visitas por ano. Dependendo do grupo de consumidores avaliado, esse aumento é ainda maior e bate 18 visitas, ou 1,5 compra por mês.

Para Catani, os cartões de crédito e programas de fidelidade de bandeiras como Assaí e Atacadão deixam claro um movimento no sentido de o atacarejo ser cada vez mais varejo, um varejo de preço baixo à brasileira.

Talvez o mais interessante nesse cenário seja o fato de o aumento de penetração e o faturamento do atacarejo não ser, de forma alguma, uma má notícia para outros canais, pelo contrário. Dados da Nielsen mostram que consumidores que se abastecem no atacarejo gastam cerca de 10% a mais em outros canais que aqueles que não fazem essa mistura.

A cesta total de produtos em supermercados, por exemplo, encolheu 0,7% no geral. Olhando apenas para o grupo que vai ao super e ao atacarejo, porém, a cesta subiu 8,6%. Bela diferença, não?

A questão é não competir com o atacarejo em preço, mas oferecer serviço, perecíveis de qualidade e frescos, além de comodidade. “As lojas na ponta – ou mais baratas ou com melhores serviços – estão crescendo. Só há problema para quem está no meio”, pondera o porta-voz da Nielsen.


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