O crescimento das cápsulas

O crescimento das cápsulas

Vendas de monodoses devem avançar 17% ao ano até 2020. Bom desempenho do segmento estimula produção nacional e reduz as importações

por Luciana Franco

hábito de tomar café em cápsulas chegou ao Brasil em 2006, quando a Nespresso, criadora da tecnologia, aportou no país. Desde então, é crescente o número de brasileiros que se rendem ao prazer de degustar uma xícara de café encapsulado.

Estimativas de mercado indicam que, no Brasil, já são consumidos 3 bilhões de cápsulas por ano, e a tendência é de que esse número cresça a taxas de 17% ao ano até 2020. É o que aponta um estudo feito pela Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). “A cápsula se traduz em diversidade e valor agregado elevado, que permite inovações de blends (misturas de cafés), de formatos e de máquinas”, avalia o diretor-executivo da Abic, Nathan Herszkowicz.

Pesquisas encomendadas pela Abic à Euromonitor mostram que o volume de café consumido na forma de cápsula representa 1,2% do consumo total do país, de 21 milhões de sacas de café de 48 quilos. “Em volume, essa categoria ainda é pouco expressiva, mas já representa 14% da receita das vendas do setor, ou seja, R$ 1,1 bilhão”, avalia Herszkowicz.

Por seu bom desempenho, o segmento de cápsulas recebe investimentos contínuos, principalmente a partir de 2013, depois que a Nespresso, líder de vendas do setor, perdeu a patente sobre a invenção das cápsulas. Com isso, o mercado se abriu e novas empresas – conhecidas atualmente no mercado como clones ou genéricas – puderam iniciar a produção de cápsulas compatíveis com as máquinas Nespresso. De acordo com Herszkowicz, até poucos meses atrás, a maioria das cápsulas consumidas no Brasil era importada.

As monodoses importadas chegavam ao Brasil prontas para o consumo. “Mais de 50% dos blends das grandes empresas do setor é composto por café brasileiro, que era exportado para a Europa e voltava na forma de produto industrializado de maior valor agregado. Hoje, esse movimento mudou”, conta o diretor da Abic.

A mudança ocorreu principalmente depois que a Nestlé e a 3 Corações, líderes de vendas, instalaram, em 2015,  duas fábricas em Montes Claros, MG.  A fábrica da Nestlé abastece a Nescafé Dolce Gusto, primeira marca de máquinas multibebidas lançada no país. Atualmente, a Nestlé conta com 20 opções de bebidas quentes e frias, que estão divididas em quatro categorias: cafés, chocolates, lattes e chás.

A empresa adquire as matérias-primas usadas na produção das cápsulas, como café, leite e açúcar, no mercado nacional. E desenvolve, desde 2011, o programa Nescafé Plan, para fomentar o desenvolvimento de produtores locais para a criação de um alto padrão de produção, atendendo especificações de sustentabilidade, por meio do Código Comum para a Comunidade Cafeeira (4C). A Nestlé trabalha com uma base de cerca de 820 fornecedores de grãos de café no Brasil, produzidos de acordo com o código de conduta 4C.

A decisão da Nestlé e da 3 Corações, de fabricar no país, favorece o produto brasileiro, uma vez que a atual legislação impede a compra de grão cru de outras origens, por segurança fitossanitária.

Na prática, não existe proibição de importação, mas alguns requisitos precisam ser preenchidos para liberar a transação, o que a torna mais burocrática e menos frequente. Por esse motivo, as indústrias, que antes usavam cafés de diversas partes do mundo, ao fabricarem no Brasil, adotam blends de cafés nacionais.

Pulverização das cápsulas

Além de grandes empresas, como a Dolce Gusto, a Nespresso (que produz em três fábricas na Suíça) e a 3 Corações, o segmento de cápsulas já comporta um número expressivo de empresas menores. “Há uma certa facilidade para quem não tem capital suficiente para investir no desenvolvimento de uma máquina de café que faz o serviço de encapsulamento”, conta Herszkowicz. De acordo com ele, a Abic fez um levantamento e identificou cerca de 100 pequenas indústrias que estão experimentando esse mercado.

A primeira delas foi a Dop Espresso, originária da paranaense Lucca Cafés Especiais. “Começamos nossa produção em 2013, no ano em que a Nespresso perdeu sua patente. Desenvolvemos nosso próprio sistema de produção, que molda a cápsula em um injetor de plástico”, conta Luiz Otávio Franco de Souza, diretor da Dop. Na fábrica que mantém em Pinhais, região metropolitana de Curitiba, PR, a capacidade instala- da é de 300 mil cápsulas por mês. “Além da nossa linha, com sete tipos de cafés, também produzimos marcas próprias para dois parceiros”, conta Souza.

Na avaliação do executivo, porque a Lucca Cafés Especiais já trabalhava com café gourmet para a gastronomia desde 2002, a decisão de investir na produção de cápsulas foi uma consequência natural do negócio. “Como já tínhamos tradição na divulgação de cafés especiais, promovendo sempre a degustação, resolvemos ingressar também nesse nicho de mercado, que privilegia o produto de alta qualidade”, conta Souza. A Dop Espresso trabalha com cinco produtores parceiros das regiões do Sul de Minas, Cerrados, Mogiana e Norte do Paraná. Adquire, mensalmente, 10 sacas de café para encapsulamento.

Outra empresa que produz cápsulas compatíveis com o sistema Nespresso é a Kaffa Brasil, que mantém uma planta na cidade de Cravinhos, região de Ribeirão Preto, SP, com capacidade para 9 milhões de cápsulas por mês. A empresa, que atualmente opera com 25% da capacidade instalada, atende a diversos clientes e produz cafés arábica, conilon, descafeinado, orgânico, biodinâmico e aromatizado. Alexx Noga, diretor comercial e de marketing da empresa, conta que a Kaffa encapsula cerca de 10 toneladas de café por mês. “Nossa produção cresce perto de 7% ao mês”, conta o diretor.

De acordo com Noga, por se tratar de um segmento novo, o consumidor ainda está aprendendo a se relacionar com as cápsulas. “O Brasil tem tradição no consumo de café coado. Por esse motivo, a introdução da cápsula tem sido lenta. Mas percebemos que, aos poucos, o consumidor a agrega ao seu dia a dia, sem deixar o café coado de lado”, avalia Noga.

Para ele, toda concorrência é saudável, desde que seja honesta e tenha sempre em vista a qualidade e o prazer proporcionado ao consumidor. “Atualmente, a maioria das empresas produz cápsulas compatíveis com o sistema Nespresso, mas já começam a aparecer versões compatíveis com as outras máquinas”, destaca Herszkowicz.

Alta qualidade

Cada cápsula contém cerca de 5,5 gramas de pó de café, enquanto o café expresso, por exemplo, contém entre 8 e 9 gramas. E, assim como ocorre com o café expresso, o sistema de extração de café da cápsula exige um produto de altíssima qualidade. Isso porque a injeção de água sob alta pressão durante um tempo muito curto, aliada à pouca quantidade de pó, extrai do produto torrado e moído os elementos de sabor e aroma mais adequados. “As cápsulas alinham conveniência, praticidade e alta qualidade”, diz Herszkowicz. Segundo ele, é por isso que elas fazem tanto sucesso no Brasil.

A Abic tem um programa de certificação exclusivo para as cápsulas, cujo objetivo é auxiliar o industrial que está no ramo ou mesmo aquele que deseja ingressar nesse segmento. Em síntese, o programa testa as cápsulas e emite um laudo indicando tanto as características de qualidade do café quanto aquilo que precisa ser aprimorado.

“Assim, as indústrias conseguem melhorar a condição do seu produto e ainda ganham uma certificação, que podem utilizar na sua embalagem como um diferencial no mercado”, ressalta Herszkowicz. Das cerca de 100 indústrias que disputam o segmento, 30 já estão certificadas pela Abic. “Com certificação, as empresas falam com o consumidor de uma forma mais adequada.”

Desde que surgiram, em 1986, as cápsulas modificaram o consumo de café em todo o mundo. “Elas estimulam o consumidor a fazer as próprias experiências e a definir seu gosto. São uma maneira de educar”, avalia Herszkowicz. Segundo ele, a introdução da cápsula no dia a dia de milhares de pessoas trouxe mais do que uma nova forma de beber café. “Ela acelerou o surgimento de novos negócios envolvendo o café, com a criação de clubes de café, compra exclusiva pela internet, serviços de café com locação das máquinas, entrega em domicílio, venda doméstica. Esses novos negócios utilizam a facilidade da comunicação digital e das redes sociais, e estão trazendo para o setor de café empreendedores que jamais participaram desse negócio”.

Dentre os exemplos desses novos negócios do café, o executivo cita um que pode ser visto no aeroporto de Belo Horizonte, onde há uma “bike café”, adaptada, que transita entre os terminais oferecendo café. Essa alternativa de trabalho e renda com café, cinco anos atrás não existia. O diretor da Abic afirma, ainda, que é essencial ao supermercadista estar atento a esse segmento, pois as cápsulas o ajudam a definir uma imagem de quem está alinhado com a preferência do consumidor. “O supermercado que não tiver algum tipo de cápsula está em desvantagem em relação ao seu concorrente”, conclui.


menu
menu