O consumidor e suas expectativas

O consumidor e suas expectativas

por Fabio Caldas*

*É diretor de contas do Ibope Inteligência, formado em propaganda e marketing, mestre em comunicação social e especialista em marketing. Atua na área de pesquisas voltadas para o varejo.

Se existe algo verdadeiramente fantástico em nossas vidas é a incerteza do amanhã. Pense na seguinte situação: você convida seus amigos para assistirem à final da Copa do Mundo na sua casa – considere que o Brasil está em campo – com direito a churrasco e tudo o mais. Porém, o jogo já aconteceu e todos sabem o resultado. Faz sentido? O mesmo serve para o último capítulo da novela, ou para a trigésima vez que um filme passa na televisão.

A vida sem a incerteza não teria a menor graça. As surpresas nos motivam e levam a comportamentos inesperados. Uma boa surpresa é capaz de transformar a expressão fechada em um sorriso contagiante.

Não saber o que acontecerá no próximo minuto gera expectativas, positivas ou negativas, e isso é um dos fatores que influenciam nossos comportamentos. Mas, afinal, qual é a relação disso com o varejo? A resposta é simples. As atitudes do consumidor são muito parecidas, seja na relação com as pessoas, seja no ato de comprar.

Quanto maior a expectativa de um futuro melhor, mais dispostos a comportamentos positivos estamos. E o que é um comportamento positivo no momento de compra? Abrir a carteira. Veja que não estou falando que a melhora na condição de vida leva o consumidor a aumentar seus gastos, mas, sim, que a impressão de que dias melhores virão é suficiente para amolecer o coração e induzir a um gasto maior.

Isso sai do campo teórico quando observamos, simultaneamente, os números de duas pesquisas: o Inec (Índice Nacional de Confiança do Consumidor), desenvolvido pela CNI em parceria com o Ibope Inteligência, e a PMC (Pesquisa Mensal do Comércio), do IBGE.

Analisando o setor de supermercados, vemos que o consumo aumenta quando a confiança do consumidor cresce, mas também a queda ocorre na mesma velocidade e proporção.

Saber disso permite uma melhor avaliação do momento crítico em que vivemos. Em poucos dias o Brasil passará por uma eleição geral e, ao contrário do que aconteceu em outros anos, a incerteza sobre o rumo que o país tomará é grande. Entre 2002 e 2014, em maior ou menor grau, os rumos do país eram previsíveis, principalmente se considerarmos que a alternância de poder ficava restrita a dois partidos com políticas, até certo ponto, conhecidas. Hoje, a situação é outra. As cartas estão mais embaralhadas e quatro ou cinco candidatos têm reais chances de vitória.

O que isso significa? Que é impossível prever o ânimo do consumidor para os próximos meses, quanto mais para os próximos anos.

O que torna tudo mais difícil é que estamos em um ciclo vicioso difícil de ser quebrado. A confiança do consumidor está diretamente ligada à queda do desemprego e ao aumento da renda. E como isso pode acontecer? Com o crescimento dos investimentos, seja do setor público, seja do privado. Para que isso ocorra, a arrecadação de impostos e o faturamento das empresas precisam voltar a crescer. O que acontecerá quando as expectativas dos consumidores melhorarem e, logo, voltarem a gastar.

Essa recuperação será rápida? Impossível saber. A final desse campeonato ainda não aconteceu.


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