Menos açúcar

Menos açúcar

por Luciana Franco

Nos últimos dois anos, varias empresas de alimentos reformularam seus produtos com a finalidade de reduzir a quantidade de açúcar na composição final de seus itens. Assim fizeram companhias como a Nestlé e a Coca-Cola, entre tantas outras, seja para oferecer produtos mais saudáveis aos consumidores, seja para pagar menos impostos aos governos.

Isso ocorre porque o açúcar vem sendo retratado como um vilão nas sociedades modernas, devido, principalmente, à estreita relação que existe entre o produto e a obesidade. Sua imagem negativa chegou a tal ponto que é comum ser comparado com outras substâncias nocivas à saúde, como o álcool e o tabaco. Um estudo realizado há dois anos pela Euromonitor Internacional, em 54 países, mostrou que, entre os alimentos industrializados, as bebidas açucaradas se destacam como a maior fonte de açúcar das populações desses países.

Ainda de acordo com o estudo, a recomendação da Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2015, era de um consumo de 50 gramas de açúcar por pessoa por dia, incluindo o açúcar de mesa, o adicionado aos alimentos industrializados, o dos alimentos in natura, o açúcar das bebidas e quaisquer outros produtos equivalentes ao açúcar, como frutose, maltose, glicose ou lactose. Entre os 54 países pesquisados, poucos respeitavam a recomendação, na época. Entre os motivos que justificam esse comportamento estão a dificuldade para quantificar os açúcares de todos os ingredientes consumidos ao longo do dia, o nível de renda, o índice de urbanização dos países e a idade das pessoas.

Na tentativa de evitar que a alta ingestão de açúcar gere problemas de saúde, a OMS publicou, ainda em 2015, uma declaração que visa limitar o consumo livre para menos de 10% das calorias consumidas diariamente e que aponta como dieta ideal aquela na qual o açúcar responde por 5% das calorias diárias. Além disso, em setembro do ano passado, a OMS pediu aos governos de todo o mundo que tarifassem em, no mínimo, 20% os impostos sobre as bebidas açucaradas.

No Brasil, além dos tributos PIS/Cofins (contribuições para financiamento da seguridade social) e IPI (Imposto sobre Produto Industrializado) que já incidem sobre as bebidas industrializadas, um projeto de lei (PL 430/2016) do senador Jorge Viana (PT-AC) propõe a instituição da Cide (Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico) sobre a comercialização da produção e da importação de refrigerantes e bebidas açucarados, com alíquota de 20%. Ele também sugere que os valores recolhidos sejam repassados ao FNS (Fundo Nacional de Saúde).

Redução na indústria

A indústria tem feito progressos substanciais na redução de açúcar, seja por meio da simples diminuição da doçura, da substituição por edulcorantes de alta intensidade, da oferta de porções menores, seja pela inovação em outras alternativas de açúcar. A tarefa, porém, não é fácil, uma vez que, segundo especialistas, os consumidores, especialmente os brasileiros, querem menos açúcar, mas ainda esperam o mesmo gosto nos alimentos.

“Em alguns casos, as empresas estão reduzindo o açúcar, substituindo-o por edulcorante artificial, porque o brasileiro não aceita um produto menos doce. Então, é razoável pensar se vale a pena trocar o açúcar por edulcorante, porque, às vezes, é necessário acrescentar também outros ingredientes, além do edulcorante, em substituição ao açúcar”, explica a nutricionista Marcia Daskal, especialista em nutrição dietética e porta-voz da Campanha Doce Equilíbrio, uma iniciativa da Unica (União das Indústrias da Cana de Açúcar), para promover informações sobre o equilíbrio na alimentação e estilo de vida das pessoas. “Trata-se de uma campanha para levar informações verdadeiras sobre o papel do açúcar na alimentação, evitando radicalismos e a vilanização do ingrediente, já que, quando há um equilíbrio, tudo pode ser consumido”, explica a nutricionista.

De acordo com Marcia, alguns estudos mostram que, quando a redução do consumo de açúcar é drástica, ela é temporária e de curto prazo. “Queremos um discurso mais equilibrado, de consumo com moderação”, defende.

Marcia explica que a proposta de redução de açúcar segue na linha do que já foi feito com relação às gorduras trans e ao sódio, mas entende que, neste caso, a conscientização do brasileiro é mais complexa. Isso porque se trata de um produto que, além de fazer parte da nossa cultura, também está relacionado ao afeto: “É comum que as pessoas levem uma criança para tomar vacina e ofereçam um pirulito se ela colaborar ou que ofereçam uma sobremesa se a criança comer todo o almoço”, diz.

Segundo a nutricionista, desde cedo, o doce é oferecido a título de premiação, o que não acontece em sociedades mais antigas, por exemplo, a França. “Devemos olhar o açúcar apenas como um ingrediente a mais da nossa alimentação. Vale ressaltar que o Guia Alimentar da População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, diz que açúcar, sal e gordura devem fazer parte de uma alimentação saudável, porque contribuem com o prazer. E a alimentação também tem que ser prazerosa”, afirma.

Consumo per capita

Em meados do ano passado, o Ministério da Saúde e a Abia (Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação) anunciaram que estudam um acordo para reduzir a quantidade de açúcar nos alimentos processados. A ideia é que outras indústrias façam o mesmo que a Coca-Cola, que lançou a versão com stevia, que contém 50% menos açúcares. A Nestlé também anunciou a descoberta de um processo de produção que permite reduzir em até 40% o açúcar de seus produtos sem alterar o sabor final.

A estratégia faz sentido: no Brasil, o consumo médio de açúcares é de 16,3% do total de calorias, de acordo com o Ministério da Saúde. A quantidade excede em 6,3% o recomendado pela OMS. Isso se deve, em grande parte, ao fato de que as pessoas consomem produtos que contêm “açúcar oculto”, ou seja, produtos que contêm açúcar, mas não são necessariamente doces no sabor, como molhos, enlatados, legumes e sopas.

E não é só no Brasil que as pessoas consomem açúcar acima da quantidade recomendada. No estudo feito pela Euromonitor, em 2015, em 54 países, quando a OMS recomendava 50 gramas de açúcar por pessoa ao dia, a média registrada foi de 73 gramas. Apenas cinco países não excederam o limite diário recomendado.

O Chile é o país que compra mais açúcar, 142 gramas por habitante por dia, enquanto alguns países da Europa, incluindo Holanda, Hungria e Bélgica, consomem mais de 130 gramas por dia. Os volumes contrastam fortemente com os registrados nos países asiáticos, como China e Índia, onde os números são muito menores, com 48 gramas e 45 gramas per capita por dia, respectivamente.

Outros resultados apontados pelo estudo indicam que, até 2020, a compra global de açúcar crescerá em 15,8 milhões de toneladas, que a maioria dos mercados em desenvolvimento aumentará o consumo de açúcar per capita em até 24 gramas e que a principal fonte de crescimento do açúcar nesses mercados serão as bebidas, dando a oportunidade para o uso de edulcorantes de alta intensidade. Enquanto isso, muitos mercados desenvolvidos esperam uma queda na compra de açúcar.

Desaceleração do crescimento

Já é possível perceber uma redução na taxa de crescimento do consumo de açúcar no mundo. “O consumo mundial crescia historicamente 2,3% ao ano, até quatro anos atrás. Mas, a partir de 2013, caiu para 2% e, nesse último ano, reduziu-se para 1,8%”, diz Plínio Nastari, diretor da Datagro, consultoria especializada na cadeia sucroalcooleira.

Essa tendência de desaceleração do crescimento do consumo ainda não está clara no Brasil porque a redução de açúcar nos produtos industrializados está começando a acontecer no país. Então, ainda é cedo para saber qual será o comportamento dos consumidores. “Não é uma coisa que já se possa afirmar como consolidada, mas, no mundo, claramente se observa uma redução na taxa de crescimento”, explica Nastari.

No Brasil, segundo o analista, a taxa de crescimento de consumo se mantém em 0,9% ao ano. “O consumo cresce pouco, mas se eleva em regiões com déficit nutricional, a exemplo do Norte e Nordeste, onde a renda é menor. Esse é um fenômeno de países em desenvolvimento. Mas a realidade é diferente em São Paulo, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina, estados com renda maior e onde o consumo per capita não muda, pois, a partir de determinada faixa de renda, mesmo que ela cresça, o consumo não vai subir”, explica o consultor.

De acordo com Nastari, o consumo de açúcar está muito relacionado ao nível de desenvolvimento do país, à faixa etária e à renda da população. “Quanto mais jovem e mais urbanizada a população, maior é o crescimento no consumo de açúcar”, diz. Isso ocorre porque há aumento no consumo de alimentos industrializados, que carregam açúcar em sua composição.

A desaceleração do crescimento não gerou impacto sobre a produção de açúcar no Brasil, já que as indústrias podem converter a produção em etanol em caso de demanda mais fraca de açúcar. O Brasil é o maior exportador mundial de açúcar e vende no mercado externo dois terços do que produz. A produção brasileira está estimada em 39,8 milhões de toneladas neste ano. Com isso, as vendas externas devem se situar em torno de 26,53 milhões de toneladas, para um consumo mundial de 185 milhões de toneladas.

Na safra atual, a produção de açúcar respondeu por 48% da cana de açúcar colhida no país. Os outros 52% foram destinados ao etanol. “Quando o preço fica ruim se faz mais etanol e vice-versa. A vantagem é que o consumo de biocombustível tem crescido”, diz Nastari.

A média mundial indica um consumo de 23,5 quilos de açúcar per capita ao ano. Na China, o consumo é de 12,5 quilos e, na Índia, de 18 quilos. Esses são países que estão se industrializando e tendem a aumentar o consumo nos próximos anos. Nos países industrializados, o consumo é maior. Nos Estados Unidos, por exemplo, se situa em 82 quilos per capita (em açúcar equivalente). “Já no Brasil, o consumo oscila em torno de 60 quilos. Mas como o país é muito grande e tem características tanto de nações em desenvolvimento quanto de países desenvolvidos, não é possível antecipar uma tendência para os próximos anos”, afirma Nastari.


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