Leite no  DNA

Leite no DNA

Empresa de laticínios do interior paulista, com mais de seis décadas de tradição, inova sem renegar o passado

por Fábio de Lima     fabio.lima@supervarejo.com.br

A cidade de Patrocínio Paulista, distante 420 quilômetros de São Paulo, faz divisa com o estado de Minas Gerais e abriga uma população de 15 mil habitantes. Como tantas pequenas cidades de interior, as ruas são tranquilas e o tempo parece passar mais devagar. É lá que está sediada umas das principais empresas de envase de leite do Brasil: a Laticínios Jussara, que conquistou seu espaço no interior paulista sem perder o peculiar jeito mineiro.

Tudo começou em 1954, quando o leite pasteurizado ainda era uma novidade vista apenas em grandes cidades do país. Nesse ano, o clínico geral Amélio Rosa Barbosa atendia na cidade de Franca (SP) e reparou que muitos pacientes eram diagnosticados com problemas de saúde, por conta do consumo de leite cru. Como também era um homem de negócios, já que era proprietário de fazenda de gado, Barbosa viu a oportunidade de investir em uma usina de leite na cidade, assim contribuiria com a saúde pública da região e ampliaria os negócios da família.

“No começo, houve resistência na cidade, principalmente dos entregadores de leite, que temiam perder os seus empregos”, comenta o diretor comercial da Jussara, Laércio Barbosa, filho do fundador. “Mas o meu pai foi em frente, e, após iniciar as atividades, contratou os entregadores para distribuírem o leite pasteurizado. Ele reorganizou o segmento de laticínios de toda a região”, conta.

O nome Jussara foi escolhido pela família depois de muito debate. A unanimidade só aconteceu quando se chegou a um nome de uma miss. Antes mesmo de haver o concurso oficial de Miss Brasil, uma modelo goiana chamada Jussara Marques era considerada Miss Brasil e ostentou esse título de 1949 a 1954. “Ela era conhecida em todo o país. Então, achou-se que Jussara seria um bom nome para a nossa empresa”, relata Barbosa.

As misses já faziam muito sucesso em todo o país, mesmo antes do evento oficial, que começou em 1954, quando coroou a baiana Marta Rocha. A cerimônia era realizada em Petrópolis, no Rio de Janeiro, com base nos concursos de beleza existentes nos Estados Unidos }

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Desenvolvimento

De 1954 até o fim dos anos 1960, a Jussara não parou de crescer. Era uma empresa que se expandia e se modernizava, ao ponto de, em 1970, aderir à embalagem de saquinho, uma inovação para a época em que o leite costumava ser comercializado em garrafas de vidro. No entanto, Américo Rosa Barbosa não viu a inovação no mercado. Logo após comprar as máquinas e implantar toda a estrutura necessária para a mudança de embalagem, faleceu em um acidente de carro.

“Aquele foi um momento muito difícil para a nossa família e a própria Jussara. Eu tinha 7 anos de idade, mais quatro irmãos, todos pequenos, e minha mãe estava grávida do sexto filho”, conta Barbosa. “Ela era professora, não entendia nada de negócios e muita gente dizia que deveria vender a empresa, porque não daria certo continuar sem meu pai. Mas ela foi forte e, cercada de alguns familiares e amigos, manteve a empresa de pé.”

A Jussara continuou crescendo pelo estado de São Paulo, mas sem o mesmo ímpeto e a modernidade de quando o seu fundador era vivo. Os filhos, crianças ainda, foram estudar para, após mais de uma década, conseguirem se dedicar ao negócio da família. “Só em 1985, 15 anos depois, acompanhado de um irmão, entrei na empresa e me deparei com as dificuldades de administrar um negócio que envolvia tanta gente e tantos detalhes”, lembra Barbosa.

“Acho que se demorássemos mais uns seis meses para agir, a Jussara teria falido. Naquele momento, devíamos para fornecedores e também tínhamos problemas com os nossos clientes”, analisa Barbosa. “Tivemos que visitar todo mundo, pedir um voto de confiança, usar o nome do nosso falecido pai e trabalhar muito para reverter a situação. De 1985 a 1992, trabalhamos apenas para pagar contas atrasadas”, conta.

Volta por cima

Nos anos 1990, a empresa voltou a investir e avançar, adquirindo uma nova e cara linha de produção para comercializar leite em embalagens cartonadas. “Aquela imagem dos filmes americanos, em que as pessoas abriam a geladeira, pegavam a caixinha e bebiam o leite direto nela nos seduziu. Pensávamos, à época, que aquilo era se modernizar”, recorda-se Barbosa.

No primeiro momento, a mudança pareceu mesmo acertada. O leite, que na embalagem plástica durava apenas dois dias, chegava a durar dez na embalagem de caixinha. No entanto, a conquista se dava em ambiente controlado, no dia a dia a coisa não era bem assim, e não demorou muito para chover reclamações. “Percebemos que na Europa, o leite de caixinha era do tipo longa vida, e esse era o modelo que crescia no Brasil”, relata Barbosa.

Em menos de três anos a Jussara mudou sua linha de produção novamente e investiu pesado no leite longa vida. Ganhou mercado no varejo de autosserviço nos últimos anos e se tornou uma das principais fabricantes de laticínios do país. Sim, porque ela não ficou restrita à produção de leite. “Atualmente, temos manteiga, queijo e inúmeros produtos funcionais. Vender só leite é vender commodities”, explica Barbosa, enfatizando que a ampliação do portfólio da Jussara visa oferecer opções aos consumidores e agregar valor à marca.

A Jussara chega aos 62 anos de existência com duas unidades fabris, sendo a sede em Patrocínio Paulista e a filial em Araxá (MG). Ela tem mais de mil funcionários, mais de 4 mil produtores de leite, 25 postos de captação, nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná e Goiás, e estima um faturamento de R$ 1 bilhão, só para este ano. “Atuamos forte no estado de São Paulo. Sozinho, ele é o terceiro maior mercado da América Latina, ficando atrás apenas do Brasil e México”, conclui Barbosa, sem antes enfatizar que a Jussara é uma empresa familiar, administrada profissionalmente e pertencente a seis sóciosCaptura de Tela 2016-11-04 às 11.55.51

Linha fabril em Patrocínio Paulista (SP) é uma das mais modernas no país

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