Importar ou não?

Importar ou não?

Antes de partir para a importação direta, supermercado deve avaliar reais necessidades para identificar se vale o investimento

Com a crise econômica instalada no Brasil a partir de meados de 2015, vários segmentos de produtos foram impactados. Esse é o caso dos importados que, até essa época, eram presença constante na cesta de grande parte da população.

De acordo com as fontes ouvidas pela SuperVarejo, o cenário atual está longe do ideal, com as vendas desses itens aquém do esperado. Mesmo com as incertezas na economia ainda nos dias de hoje, as empresas observam uma perspectiva de melhoria no setor ainda em 2017. “Com o declínio do dólar e a possível queda do euro, o cenário se mostra ainda mais viável, e pesquisas mostram que os consumidores buscam cada vez mais por produtos diferenciados e itens premium em suas cestas de consumo”, afirma a gerente de produtos da importadora La Pastina, Fernanda Alves de Moraes.

Independentemente do atual momento do país, é importante oferecer opções de importados na loja. Disponibilizar essas alternativas aumenta o sortimento para o shopper e assim crescem as possibilidades de compra. Ao oferecer esses produtos, as lojas se destacam competitivamente no mercado, atraindo clientes que, de forma geral, topam comprar itens com atributos específicos e geralmente com maior valor agregado. Assim, o varejista irá garantir um tíquete médio mais alto, como também irá fidelizar os shoppers por conta do sortimento requintado.

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REFERÊNCIA NA VENDA
de importados nas regiões onde atua, a rede Supermercados Padrão conta com esses itens nas mais variadas seções

 

É o que acontece na rede Supermercados Padrão, com duas lojas na zona oeste da capital paulista. “O segmento de importados é relevante para nós. Nossos clientes sabem que temos uma variedade muito grande vem até a loja em busca deles”, detalha o gerente da unidade Butantã, Valdir de Cerqueira Fontes.

Além disso, ao trabalhar com importados, os supermercados têm a possibilidade de explorarem setores diferenciados e, assim, ganharem vantagem frente à concorrência. “Temos alguns nichos de mercado que os supermercadistas podem conquistar com produtos exclusivos, alguns desconhecidos no Brasil, ou com itens cuja produção nacional não é suficiente para atender à demanda”, afirma o diretor-geral da importadora IBF Trading, Ivaldo Bastos Filho.

E oferecer produtos que não possuam similares nacionais dá ainda mais destaque à loja. “Se o supermercado oferece itens sem comparativo, traz opção adicional ao consumidor. De repente, um shopper viaja para outro país e gosta de um produto que consome fora e encontra no Brasil. O que acontece? Ele vai até a loja comprar. Os consumidores são bastante fiéis a determinadas marcas e produtos”, ressalta o diretor da importadora Gourmand Alimentos, Sydney Bratt.

Diferentes estratégias nas lojas

Decidir entre uma importadora ou fazer a importação direta irá depender de diversos fatores, relacionados ao perfil de cada supermercado, como o tamanho, a maturidade no trabalho com tais itens, a estruturação de equipe, entre outros.

FONTES, DOS SUPERMERCADOS PADRÃO:
Clientes optam pela rede por encontrar extenso mix de produtos

 
Há as redes que, embora seja forte a comercialização dessas mercadorias, preferem por um intermediário que cumpra essa tarefa. Os supermercados Padrão trabalha com itens importados há cerca de dez anos e escolheu por essa forma de negócio. “Pelo fato de não sermos uma rede tão grande, optamos por trabalhar com importador. São empresas confiáveis, que estão no mercado há bastante tempo”, detalha Fontes, dizendo que não está nos planos da companhia importar produtos diretamente.

Os itens oriundos de diversos países estão presentes nas mais variadas categorias: de vinhos a chocolates, passando por massas, temperos, molhos, entre inúmeras outras. “No caso dos chocolates, que são produtos com alto valor agregado, os importados representam entre 5% a 10% das vendas”, exemplifica Fontes, dizendo que, em cada seção, há um espaço destinado a esses itens.

De outro modo, há as redes que partem para a importação direta como forma de se diferenciarem no mercado. A rede SuperPrix, do Rio de Janeiro, iniciou essa atividade em outubro de 2016, com a importação direta de vinhos, por meio de parcerias com viní- colas da América do Sul.

“Além de custos mais competitivos, a importação direta nos possibilitou a comercialização exclusiva de vinhos de excelente qualidade”, detalha a gerente financeira da rede, Margareth Dowek, contando que, apesar de o SuperPrix ainda estar começando nesse trabalho, já conta com uma equipe de colaboradores com experiência nessas operações, com parcerias com vinícolas e despachantes aduaneiros.

“Hoje, já estamos, inclusive, estudando a importação de novos produtos, pois temos a intenção de ampliar o mix”, diz a executiva.

Importar diretamente ou não?

Antes de optar por se tornar importador, o supermercado precisa avaliar as vantagens e desvantagens dessa escolha, uma vez que essa atividade requer vários esforços. Muitas vezes, as companhias tomam essa decisão tendo como único foco a redução de custos, e então a obtenção de uma margem maior a partir da compra direta dos itens. Mas é preciso se atentar que esse não é o único fator a ser observado. “Não podemos deixar de lembrar qual é a principal função do supermercado, que é trabalhar no varejo e, assim, focar no ponto de venda, na exposição, no merchandising, atuar de acordo com a necessidade do cliente dentro da loja”, detalha a professora doutora da Fucape e também da Universidade Tecnológica de Berlim, Juliana Campos.

Juliana analisa que a partir do momento em que o varejista passa a trabalhar com questões mais complexas que umasimples compra em âmbito nacional, ele foge do negócio principal dele. “Existe o risco muito grande de a empresa acabar investindo mais em algo que, na verdade, não vai agregar valor para o cliente final”, defende.

No caso de fazer a importação direta, o recomendável é que o supermercadista invista em itens de baixa perecibilidade. Isso é indicado porque há o risco de ter excesso de mercadoria em estoque, o que prejudica a venda dos produtos.

BRATT, DA GOURMAND:
Importar diretamente traz risco ao supermercadista de comprar mercadorias além da necessidade, o que prejudica o estoque

 
Toda a margem ganhada, tirando o intermediário da negociação, o varejista pode perder por meio de uma queima de estoque, pois o produto pode estar próximo ao vencimento e então será necessário baixar o preço de forma significativa, para que seja vendido. “Assim, o supermercadista não terá necessariamente margem”, ressalta a professora.

Bratt, da Gourmand Alimentos, expressa a mesma opinião de Juliana e explica que, ao trabalhar com o importador, o risco de excesso de produto desaparece, pois o varejista irá adquirir a quantidade ideal que necessita para as suas lojas. “O único incentivo ao eliminar o importador é obter o produto com valor mais baixo, porque o supermercadista não vai comprar, por exemplo, dez caixas de um determinado produto, e sim um contêiner, o que o leva a correr o risco de comprar além do que irá precisar”, afirma.

Além dos fatores relacionados diretamente às mercadorias, os supermercados precisam investir em profissionais que fiquem responsáveis pela operação. “É preciso estruturar todo um setor de importação, inclusive com despachante, agente nos portos, como também os trâmites burocráticos, pois há a movimentação de carga, aluguel de contêiner etc.”, alerta Juliana.

Ao comprar diretamente os produtos de fora, os varejistas devem também considerar o período que leva para que os itens cheguem ao Brasil. Geralmente, os pedidos para a China e os países da Europa demoram cerca de 30 dias para chegar ao território brasileiro de navio. Só que a demora não para por aí. Na sequência, há o processo de desmembramento dos produtos em território nacional, a burocracia da alfândega, fazendo com que as mercadorias levem por volta de três meses para chegarem até as lojas.

Além dos aspectos já abordados nesta reportagem, como atrativos para a atuação junto às importadoras, as companhias que atuam nesse setor, ao defenderem seu trabalho, mostram que há mais pontos a serem considerados para que elas sigam na parceria com o varejo supermercadista.

Bratt, da Gourmand Alimentos, explica que, em muitos casos, a compra de diversas marcas consolidadas no mercado fica restrita às importadoras que já têm negócios com as fornecedoras. “Normalmente, o importador trabalha com exclusividade, e, dessa forma, o supermercado não consegue importar direto tais produtos”, esclarece o executivo.

Já Fernanda, da La Pastina, acrescenta que, entre outros pontos, ao atuar com uma importadora, é garantida a constância em estoque. “Por meio da importadora, o supermercadista consegue oferecer continuidade aos seus clientes, mantendo nas gôndolas produtos de marcas bem posicionados, que tiveram investimento para a sua consolidação”, resume.

Como importar diretamente

Antes de optar pela importação, os supermercados devem fazer a equação correta para identificar se o volume de produtos a ser importado justifica a importação direta. “A empresa terá que obter o Radar (Sistema de Rastreamento da Atuação dos Intervenientes Aduaneiros) para se habilitar no Siscomex (Sistema Integrado de Comércio Exterior), além de estruturar uma equipe interna qualificada para gerir essas operações e cumprir com todas as respectivas obrigações fiscais e aduaneiras”, detalha o sócio do HBC Advogados, Felipe Ceccotto Campos.

E assim a equipe bem formada é imprescindível para garantir o sucesso da operação. “A empresa terá que contar com profissionais aptos a identificar a correta nomenclatura e classificação fiscal das mercadorias que pretende importar, precisando de um profissional com treinamento e formação em comercio exterior”, explica o sócio do escritório de advogados que leva o seu sobrenome, Paulo Bassil Hanna Nejm.

Como o custo de formação de uma equipe interna pode ser muito elevado no início dessas atividades, Hanna Nejm explica que a empresa pode contar com assessoria externa, até que tenha profissionais qualificados internamente para executar as tarefas.

Na lista de prioridades para se tornar importador, outro ponto de destaque é o planejamento financeiro e econô- mico da empresa, como avalia o consultor de empresas e fundador da Telos Resultados, Luiz Muniz. “Isso é preciso para definir a capacidade de suportar a imobilização do estoque, até que o produto seja divulgado e consolidado no mercado”, resume.

No início dessas atividades, a dica de Muniz é começar com categorias que já tenham uma predisposição maior ao consumo, a exemplo do setor de bebidas ou para os produtos que comprovadamente tenham o custo de mercadoria significativamente mais baixo – em torno de 50% a 70% mais baixos, se comparado com o nacional.

Mas, dependendo das categorias estrangeiras a serem trabalhadas na loja, o supermercadista pode importar parte dos itens e seguir com a importadora para os demais. Campos esclarece que, para produtos com mais restrições legais, que exigem mais burocracia na obtenção de licenças e autoriza- ções, esse trabalho pode continuar em parceria. “A empresaimportadora pode ter mais experiência no desembaraço e na regularização dos produtos”, esclarece.

ATENTE-SE ÀS QUESTÕES BUROCRÁTICAS PARA IMPORTAR
Por Luiz Muniz, Da Telos Resultados
  • Certifique-se de que o produto possui uma codificação internacional;
  • Tenha toda a documentação necessária para realizar a importação. É fundamental o cadastrado no Registro de Exportadores e Importadores (REI) da Secretaria de Comércio Exterior e no Siscomex (Sistema Integrado de Comércio Exterior);
  • Verifique com os órgãos governamentais, Anvisa, por exemplo, se para a importação de um determinado produto é necessário algum tipo de certificação prévia;
  • Identifique quais tributos internacionais e brasileiros que incidirão sobre a operação. Especificamente neste caso, isso é importante para que a empresa evite a chamada bitributação.

 

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