Conquista por mérito

Conquista por mérito

Por Nathalie Gutierres 

Com extensa trajetória em supermercados, gerente de loja mostra os desafios que superou para alcançar seu espaço no setor

Natural de Alvarenga (MG), cidade a aproximadamente 450 quilômetros de Belo Horizonte, Ronilson Martins de Souza praticamente não tem memória da região onde nasceu. Como a mudança com a família para o Grande ABC paulista foi feita ainda criança (primeiro eles se instalaram em Santo André, depois em Diadema), as lembranças se perderam. Contudo, seu jeito mineiro de ser, simples e discreto, entrega sua origem.

O segundo filho de uma família de oito irmãos (três deles nascidos em São Paulo), Souza tem sua vida confundida com o varejo. Afinal de contas, de seus 56 anos de idade, 42 foram vividos em supermercados, em uma trajetória que construiu até alcançar a posição de gerente de loja. Com apenas 14 anos incompletos, ele já trabalhava no varejo. Mas, mesmo tão jovem, engana-se quem pensa que essa foi a primeira atividade profissional dele.

Ainda em sua cidade natal, seu pai atuava na prefeitura, e, ao vir para São Paulo, começou a trabalhar em uma metalúrgica. Sua mãe era dona de casa, porém, diante da necessidade financeira, teve que contribuir com o orçamento do lar e passou a trabalhar fora. Para ajudar, Souza fazia o que estava ao seu alcance.

“Eu pegava papel na rua, vendia sorvete… Minha mãe foi trabalhar como cozinheira em uma pensão, em Diadema, e, como eu frequentava o lugar, a dona da pensão me deu uma caixa para engraxar sapato. Era assim que eu ganhava o meu trocado”, lembra Souza, de quando tinha 12 anos.

Foi por causa do local onde sua mãe trabalhava, que ele acabou parando no supermercado. “Ao lado da pensão existia um restaurante. Eu ajudava no serviço, mas não tinha salário nenhum. E era lá que o pessoal do Barateiro tomava café. Então eu aproveitava para sempre pedir um emprego a eles”, recorda.

Até que um dia um funcionário do supermercado avisou: o lugar estava contratando novos colaboradores. Souza não perdeu tempo. Foi à loja, e, antes de completar 14 anos, a vaga de guarda-volumes e empacotador era dele. O ano era 1976, quando ele começou a conciliar a atividade profissional com os estudos: ficava no estabelecimento das 8h às 18h e ia para a escola no período da noite.

O expediente era intenso naquele período, como lembra Souza. “Nós trabalhávamos muito, porque era tudo manual na loja. Além disso, como havia poucos supermercados, o movimento era bem grande”, relembra. Diante de uma intensa jornada para um adolescente, desistir da atividade passou pela cabeça dele, mas a ambição de crescer na carreira falou mais alto.

“Enxerguei a possibilidade de evoluir no supermercado quando vi a rede crescer e percebi que tinha toda a chance para me desenvolver junto”, ressalta. Passou, então, cerca de dois anos no pacote, até que surgiu uma vaga de repositor, função que ele desempenhou até meados de 1982, totalizando seis anos e sete meses nessa loja. Na sequência, com a inauguração de outra unidade do Barateiro, ele foi transferido.

Evolução na carreira

Alguns anos depois, mais precisamente em 1985, houve a mudança de endereço da loja, e surgiu outra oportunidade, que ele não desperdiçou. Foi quando assumiu a vaga de subencarregado de mercearia, posição em que atuou por dois anos. Souza continuou evoluindo na carreira e ascendeu ao cargo de encarregado, permanecendo na função até 1992.

No decorrer desse tempo, ele mudou mais uma vez de endereço, mas não de empregador. Houve a chance de ir para a unidade do Barateiro na Avenida Interlagos, na zona Sul de São Paulo. E o progresso profissional não parou. Em março de 1993, ele foi promovido a subgerente.

A mudança de empresa ocorreu em 1998, mas não pela vontade dele: aquele ano marcou a venda da rede Barateiro ao Grupo Pão de Açúcar. “Foi uma época difícil que enfrentamos, porque nessa mudança passamos a ser novos para a empresa, tivemos que começar o trabalho do zero”, lembra.

Como o próprio Souza diz, ele deixou o orgulho de lado diante das adaptações ao novo empregador, pois tinha que trabalhar: “Houve colegas que não aceitaram as novas condições e foram logo desligados da empresa. Nesse ano, meu filho estava com 3 anos, eu não podia arriscar”.

Como o período de transição para o GPA coincidiu com a aquisição de outro grupo supermercadista, a rede Peralta, eles precisavam de profissionais para tocar as lojas. Ele então ficou responsável por duas operações de Guarulhos (SP), na posição de gerente. Assim, permaneceu na empresa por um ano e dois meses.

Ao sair da então companhia de Abilio Diniz, Souza tentou um negócio próprio. “Nesse período eu morava na zona Leste da capital paulista e abri um mercadinho. Mas faltou capital para girar, e passei a loja para a frente”, lembra. Como o supermercado era sua área de domínio, ele voltou ao segmento como empregado. Souza passou por algumas lojas, em funções variadas, até retornar à estabilidade. Em outubro de 2007, surgiu a oportunidade de integrar a equipe do Supermercado Vila Rica Plus, em Diadema, no ABC Paulista.

“Eu estava trabalhando em uma loja quando um colega me avisou que havia uma vaga. Eu já conhecia o gerente daqui na época, que tinha trabalhado comigo no Barateiro. Foi agendada a entrevista com o diretor e conquistei a vaga”, lembra.

Quando começou a integrar a equipe do estabelecimento, Souza trabalhava junto ao gerente. “Eu ficava mais na frente de caixa, naquele tempo não existia fiscal de caixa. Esse meu colega abria a loja e eu fechava”, detalha.

Com o passar dos anos, houve mudança na estrutura do supermercado e, em 2011, ele assumiu a gerência do comércio: “Tudo o que conquistei foi por mérito. Nunca precisei pedir aumento de salário: todos os que sempre tive foram por merecimento”.

Hoje Souza segue na função, sendo responsável por mais de 80 colaboradores. Sua dedicação pelo trabalho não diminuiu ao longo do tempo. Muito pelo contrário. “Estou aposentado desde fevereiro de 2016, mas, enquanto tiver saúde e força, vou continuar trabalhando. Não me vejo sem o supermercado, a minha vida é isso”, resume.

O experiente gerente de loja deixa uma mensagem a quem deseja crescer no segmento, como ele. “O primeiro passo é o compromisso e o interesse pelo setor, tem que gostar, porque ele exige muito. É também preciso gostar de gente e saber lidar com o público”, ensina Souza.

Ele não deixa de reconhecer quem contribuiu com sua trajetória profissional. “Tive um líder no Barateiro, o Tadeu de Souza, que foi uma inspiração para nós. Hoje ele é um grande amigo. Na época, Tadeu comandava 5.000 pessoas e, quando estávamos desanimados, ele nos incentivava”, finaliza Souza, deixando claro que dedicação, gratidão e uma liderança como inspiração são importantes pilares na construção de uma carreira de sucesso.


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