Conference mira o Brasil

Conference mira o Brasil

por Nathalie Gutierres

Com fama mundial pela qualidade de seu chocolate, de suas cervejas e de suas clássicas batatas fritas (além de ter virado notícia por aqui ao eliminar a seleção brasileira nas quartas de final da Copa do Mundo da Rússia, neste ano), a Bélgica, a partir de agora, quer ser reconhecida no Brasil também por outro motivo: a pera Conference.

Maior produtor dessa fruta, o país totalizou, no último ano, o volume cultivado de 302 mil toneladas da variedade, segundo informações do Prognosfruit, evento anual do segmento de frutas que aponta as tendências dentro e fora da União Europeia.

Mas, afinal, que pera é essa? Seu nome, em inglês, conta um pouco de sua trajetória. Tipo mais cultivado no Noroeste europeu, ela foi encontrada por acaso há mais de 130 anos, a partir da variedade Léon Leclerc de Laval. E foi batizada dessa forma ao participar e sair vencedora da British National Pear Conference (Conferência Nacional Britânica de Pera, em tradução livre), em 1885.

A partir daí, não demorou para que ela conquistasse posição de destaque na Europa. A fruta, que recebeu ajustes em sua técnica de cultivo, apresenta entre suas características diversas qualidades que a popularizaram na região. Entre elas, está seu shelf life, de no mínimo um mês, maior  no  comparativo com outras variedades, o que é um de seus grandes atrativos. Além disso, quase não apresenta semente, o que a configura como boa opção de snack on the go.

A pera Conference, diferente dos tipos comumente consumidos no Brasil, como Williams e D’Anjou, tem um pescoço mais alongado e cor distinta. Antes do amadurecimento, apresenta uma coloração verde com manchas marrons, o que, em um primeiro momento, pode até gerar certa estranheza no público brasileiro, não acostumado com ela. Quando madura, ganha a cor amarela clara.

Mas as definições de “verde” e “madura” são apenas para relacioná-la ao gosto do freguês. Ou seja, é uma questão somente de preferência o momento de degustá-la: não significa que, se estiver verde, não é indicada para o consumo, como ocorre com boa parte das frutas.

“A pera Conference pode ser ingerida tanto no início como no final do processo de maturação. Suculenta e doce, a polpa branca fica mais amarela à medida que a fruta vai amadurecendo”, explica a coordenadora de projeto de promoção de exportação do Vlam, Anna Duginova.

Anna conta que, assim, vai depender do público a escolha do melhor momento para ingeri-la. “Se a pessoa quiser uma pera crocante, deve comê-la quando estiver verde. Agora, quem preferir uma pera macia, é melhor esperar até que ela esteja totalmente madura”, ensina.

No centro da Europa e da produção da Conference

Com 11 milhões de habitantes, a Bélgica tem apenas 30.528 quilômetros quadrados, (só para ter ideia de sua extensão, o Brasil tem mais de 8,5 milhões de quilômetros quadrados), mas esse pequeno país tem grande importância para seu continente. Localizada no centro da Europa, tendo como vizinhos Alemanha, França, Holanda e o menos famoso Luxemburgo, a Bélgica concentra grande produção de frutas e vegetais para consumo local e para seus arredores.

Nesse sentido, algumas frutas se destacam no cultivo do país, com as peras no topo da lista, somando 302 mil toneladas em 2017, como já mencionado no início da reportagem, o que a faz concentrar 68% do volume de frutas cultivadas ali. Na sequência, estão as maçãs, com 86 mil toneladas, e os morangos, com 47,5 mil toneladas, segundo dados do Vlam.

Com solo e condições climáticas que favorecem sua produção na Bélgica, a área de plantação das peras vem crescendo ano a ano no país e, atualmente, já chega a mais de 10 mil hectares. E à medida que aumenta a produção da pera, a maçã vai perdendo espaço nos pomares belgas, por um motivo bem simples.

“As maçãs estão com os preços muito baixos. Então, é melhor focar nas peras”, afirma o diretor do centro de pesquisa belga PC Fruit, Jef Vercammen, ao justificar o atual cenário do país. Mas essa não tem sido uma decisão unilateral dos produtores: nota-se que há uma mudança no comportamento do consumidor. “As pessoas estão buscando frutas de qualidade superior e estão dispostas a pagar mais por isso”, esclarece o diretor comercial da BFV, a maior cooperativa de frutas da Bélgica, Marc Evrard.

Disponível 10 meses no ano

Os pomares da variedade Conference são formados por árvores que têm por volta de 25 anos. Mas elas podem continuar frutíferas por muito mais tempo. “Tenho árvores de mais de 50 anos aqui e 60% delas são de longa data”, afirma Chris Groven, proprietário da produtora Grofrubel, localizada na cidade de Borgloon, que é membro da BelOrta, outra importante cooperativa belga.

A colheita da pera Conference ocorre em agosto, mas a fruta está disponível ao mercado por 10 meses. Para que isso seja possível, não existe mágica e, sim, tecnologia. As cooperativas belgas contam com um sistema de trabalho organizado e com recursos que asseguram que, após saírem do pé, as frutas passem por um processo de higienização para, em seguida, serem armazenadas em ambientes com recursos especiais para manter sua qualidade e sua disponibilidade por muito tempo.

“As peras são colhidas em agosto e estão disponíveis até meados de junho do próximo ano. Elas são armazenadas em um ambiente controlado. Se, por exemplo, o nível de açúcar estiver em 20%, é preciso colocá-las em uma temperatura mais baixa e ajustar o nível de oxigênio. As frutas ficam em um coma artificial”, detalha Evrard, da BFV.

Pelo fato de serem frutas delicadas, as peras são cuidadosamente armazenadas, para garantir que, mesmo após uma viagem de navio, como ocorre no trajeto para o Brasil, elas cheguem intactas. “Nós a embalamos em sacos plásticos antes de irem para as caixas de madeiras, para evitar que elas fiquem marcadas”, explica o responsável pela divisão de vendas de frutas da cooperativa BelOrta, Miguel Demaeght.

E todo o processo compreendido na produção da Conference segue em um controle contínuo, conforme acrescenta Demaeght. “Fazemos análises constantes, para certificar a qualidade das nossas peras”, ressalta o porta-voz da BelOrta.

Conference no Brasil

A exportação tem grande representatividade para o negócio de frutas na Bélgica, considerando que cerca de 80% de todas as peras cultivadas por lá têm como destino outros países. No Brasil, a Conference chegou em 2017, como parte de uma estratégia dos produtores belgas para buscar novos mercados de atuação.

“Há alguns anos nós estamos buscando a diversificação nos destinos de exportação. A proibição de importação que a Rússia colocou em 2014 afetou fortemente os produtores belgas e deu um incentivo extra para explorar novos mercados”, esclarece Anna, do Vlam.

Anna explica que a América do Sul entrou, então, no foco das peras belgas. Ao observar o mercado brasileiro, foi notado que as condições positivas da economia do país levaram a um aumento do consumo de frutas ao longo dos últimos anos. “A produção própria de pera no Brasil é limitada a 15 mil toneladas (dados de 2016) e a maior parte das peras consumidas no país são importadas”, discorre.

Ao avaliar o contexto daqui, considerando o volume de pera comercializado, a Bélgica identificou que havia bastante oportunidade para crescimento do mercado da fruta. “Devido às boas características da pera Conference, tais como sabor doce e extenso shelf life, nós consideramos que essa variedade será apreciada pelos consumidores brasileiros”, reforça Anna, dizendo que o Brasil é o único país da América do Sul em que a Bélgica está trabalhando a fruta no momento.

De outubro a dezembro do ano passado, a Bélgica exportou 36 toneladas de peras para o Brasil e, no período de janeiro a abril deste ano, já foram enviadas para o país 98 toneladas da fruta. Em valores, as exportações contabilizaram 41.328 euros em 2017, enquanto, neste ano, embora ainda não estejam finalizadas, já somam mais de 108 mil euros, o que demonstra um rápido avanço.

Para apresentar a pera Conference aos brasileiros e incentivar a sua compra, algumas lojas já estão promovendo a degustação no ponto de venda, por meio de campanha patrocinada pelo Vlam, para tirar dúvidas e educar o consumidor final. A forma de consumo, a exemplo do preparo em receitas, comum na Europa e pouco explorada no Brasil, também é uma das maneiras de estimular e ampliar o mercado da fruta em solo tropical.

Com uma história que já atravessa três séculos pela Europa, a pera Conference tem, agora, a missão de conquistar o Brasil. Se seguir o mesmo ritmo dos chocolates, das cervejas e das batatas fritas, será apenas questão de tempo. O desafio está lançado.

*A repórter viajou para a Bélgica a convite do Vlam


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