Como encarar a dependência química

Como encarar a dependência química

Menos de 5% das empresas brasileiras têm algum tipo de programa de prevenção e tratamento para um problema que vem crescendo em todos os níveis hierárquicos. Ignorar ou simplesmente demitir quem apresenta a doença é prejuízo na certa, garantem os especialistas

Se você pensa que a dependência química nada tem a ver com o seu negócio, reveja seus conceitos. A Organização Mundial de Saúde (OMS) aponta que 74,3% dos usuários de drogas ilícitas estão empregados e 10% fazem uso no ambiente de trabalho. A dependência química está presente em todas as empresas, o que varia é o grau de incidência e a maneira como se encara o problema. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta: drogas já ocupam o terceiro lugar entre as causas de ausências e é a razão mais frequente de acidente no trajeto entre casa e trabalho.

Reconhecida como doença pela OMS, a dependência química é progressiva e pode matar. Em 2012, foram 200 mil mortes relacionadas a ela, pelos números da Organização das Nações Unidas (ONU). A boa notícia é que pode ser controlada. A má é que apenas um em seis usu- ários tem acesso ou recebe algum tipo de tratamento para a dependência de drogas. No Brasil, menos de 5% das empresas têm algum tipo de programa de prevenção e tratamento. Em países como Estados Unidos, Canadá, França e Inglaterra, esse índice chega a 90%.

Estudiosos advertem para o avanço das drogas e a necessidade de uma política de prevenção e tratamento nas empresas. Segundo a Mental Clean, empresa especializada em dependência química e saúde mental, o trabalhador se tornou um ótimo cliente para o tráfico: compra com regularidade e paga em dia, não causa problemas por não atrair a atenção da polícia e tenta esconder o seu uso, procurando levar uma vida aparentemente normal. E os brasileiros estão começando a usá-las cada vez mais cedo. “Dez/11 anos é a média”, complementa a psicóloga Patrícia França Proença. “Há jovens com 14 anos ou entrando no mercado de trabalho já bastante comprometidos no uso.”

O perfil do consumidor de drogas vem mudando. Estudos da Mental Clean apontam que o perfil passa por todos os níveis de cargos e 75% são homens, de 35 a 50 anos, casados, com filhos, média de seis anos de empresa e, na maioria, sem histórico de uso de drogas pesadas. “Em muitos casos, amaconha não é mais a ‘porta de entrada’. Nem a bebida. Muitos adultos, inclusive pais de família, estão entrando diretamente no crack”, alerta Patricia.

Ignorar o problema ou substituir quem apresenta a doença só traz prejuízos. Embora prevista na CLT, a demissão por justa causa no caso de embriaguês está em desuso pelo entendimento da Justiça de que se trata de uma doença. Por esse raciocínio, também o funcionário dispensado por ser usuário de drogas ilícitas pode entrar com ação trabalhista e ser reintegrado. “Além disso, imagine demitir alguém com anos de casa, que já passou por treinamento e desenvolvimento. E quem garante que, se livrando dele, a empresa não contratará alguém que vai apresentar a mesma doença depois?”, questiona a psicóloga Patricia.

Assim como testes de HIV e de gravidez, o teste toxicológico é visto como discriminatório, portanto, proibido no exame admissional, salvo em condições já previstas em lei, como nas profissões de alto risco. Nada impede que as empresas o façam regularmente, porém, as que contam com um programa estruturado de prevenção e combate à dependência química tendem a ficar mais protegidas juridicamente, afinal, os testes toxicológicos se tornam necessários para detectar e tratar eventuais casos na equipe.

PRINCIPAIS SINAIS QUE SUGEREM O PROBLEMA DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA
  • Acidentes de trabalho;
  • Maior disposição para beber com os amigos;
  • Desinteresse em promoção de cargo;
  • Absenteísmo elevado para doenças pouco graves;
  • Atrasos constantes de horário;
  • Inúmeras solicitações para sair cedo;
  • Almoços e cafés longos;
  • Frequentes idas ao banheiro, principalmente às segundas-feiras;
  • Excesso de ausências justificadas ou não, às segundas e sextas-feiras.

Estudos da Mental Clean apontam que, ao não trabalhar a dependência, a empresa enfrenta aumento de absenteísmo, crescimento entre 20% e 25% das taxas de acidentes de trabalho, queda de produtividade em até 65%, alta taxa de renovação do quadro, prejuízo nas relações interpessoais e danos à imagem. A analista de RH e assistente social do Metrô de São Paulo, Selma Regina Ocker Pereira, avalia: “Ninguém entra na empresa e deixa os problemas do lado de fora. Um pai que tem um filho envolvido com drogas ou álcool e a mãe preocupada com o filho que não voltou para casa não vão trabalhar tranquilos. Nem o empregado em uso terá concentração e o mesmo rendimento”.

A diretora da Mental Clean, Fátima Macedo, chama a atenção também para mais uma consequência: a alta taxa de sinistralidade no convênio médico. Um caso de alcoolismo, por exemplo, pode levar até 15 anos para ser detectado. Imagine por quantos médicos o funcionário alcoólatra já passou, quantos exames já fez, quantos afastamentos teve nesse período? Tem dor de estômago, de cabeça, problema de pele, não dorme direito e está sobrecarregando o convênio médico.

A psicóloga Patricia complementa que, em consultas, como os usuários não falam da dependência, o médico dificilmente associa os sintomas ao uso de drogas e, assim, a dependência é mascarada por problemas como estresse, depressão e outras doenças físicas, que acabam sendo tratadas sem eliminar a causa.

Prevenção como saída

No entender de quem trabalha com dependência química, a saída passa por uma cultura da prevenção e do tratamento, sensibilizando as lideranças a olhar os empregados não apenas como mão de obra, mas como seres humanos. Selma conta que, uma vez por ano, a companhia do Metrô reúne empresas de diversos segmentos para mostrar a importância de prevenir e ajudar na recuperação de quem enfrenta a doença. “Aprendemos e ensinamos. Ninguém é soberano em dependência química. É um aprendizado constante para os profissionais de saúde, as empresas, a família e o próprio usuário”, diz.

Um bom programa de prevenção e tratamento de dependência química deve ter caráter psicoeducativo e envolver a todos: líderes, RH, jurídico, médico do trabalho e equipe de saúde e empregados. Assim, qualquer um estará apto a identificar sinais e sintomas e abordar adequadamente. “Fale da doença sem moralismo, tire o peso do conceito moral”, recomenda Fátima.

Uma vez apresentado a todos os empregados e discutido com frequência, o tema deixará de ser tabu, aumentando as chances de virem à tona eventuais casos. O funcionário usuário vai recebendo inputs de todos os lados, até que chega o momento em que irá reconhecer que precisa de ajuda.

A PSICÓLOGA PATRICIA
diz que, em muitos casos, a maconha não é mais a “porta de entrada”

Ciente de que a empresa realiza testes toxicológicos periódicos na equipe, o usuário vai saber que mais dia menos dia poderá ser pego, por sorteio ou convite, por apresentar comportamentos sugestivos de uso. Se abordado, e não aceitar tratamento, a empresa pode pedir-lhe que assine um termo de recusa. Isso a resguarda de eventual demanda trabalhista. “Mas, geralmente, um bom programa, com diretrizes sérias, respeito e compromisso de confidencialidade, faz crescer o número dos que buscam ajuda espontaneamente. O funcionário passa a confiar que não será demitido sem antes lheoferecerem a chance da recuperação”, observa Fátima.

A especialista garante que é possível atuar na prevenção e no tratamento sem comprometer os custos. Um convênio médico com cobertura para o tratamento de dependência química é o primeiro passo. Muitas até têm, mas pecam por não mapear quem são e onde estão os psicólogos, os psiquiatras e as clínicas especializados que o convênio oferece. Pelo menos no começo, também se recomenda uma consultoria para ensinar a lidar com a questão de maneira mais tranquila. “As empresas ficam totalmente perdidas quando descobrem um caso, e acabam gastando até mais do que se contassem com um especialista por perto”, afirma Fátima.

Tratado, o dependente químico resgata suas habilidades, volta a ser produtivo, se torna muito participativo, responsável e grato, pois descobre que foi salvo a tempo

Para as que não possuem planos de saúde, recomenda-se um mapeamento de profissionais da rede pública de saúde que lidam com o problema (Capes-AD – Álcool e Drogas), saber os locais, os horários de atendimento etc. “O médico do trabalho, que faz as consultas periódicas na empresa, pode fazer o encaminhamento para o especialista do serviço público”, diz a diretora da Mental Clean.

Sinais quase sempre sutis

Muitos gestores deixam passar despercebidos comportamentos tí- picos de usuários de drogas. “Um comportamento superativo ou totalmente apático acaba sendo entendido como “o jeito da pessoa.” As alterações variam segundo as características do usuário, das substâncias, a quantidade, do efeito que delas se esperam e as circunstâncias do consumo, mas o comportamento destrutivo e os prejuízos são semelhantes. A psicóloga Viviane Silva garante: há drogas cujo uso passa muito mais despercebido que outras, mas em todas algo errado sempre vai acontecer.

A diretora da Mental Clean, Fátima Macedo, comenta que as empresas costumam buscar ajuda especializada em dependência química quando algo mais grave acontece, acidentes, inclusive. “O trabalho é o último lugar onde o drama da dependência química aparece. E, geralmente, esse funcionário já se encontra com várias áreas da vida prejudicadas, acumula perdas de ordem financeira, familiar e social, sofre pressão do traficante, enfim, está acuado. Tudo isso provoca reflexos no trabalho.”

Viviane explica que quando uma pessoa faz uso de uma substância depressora do sistema nervoso central e entra em abstinência, tende a ficar irritada, nervosa, e acaba descontando nas pessoas à volta, gerando desconforto e conflito entre os colegas. “O uso de álcool é facilmente percebido pelo odor etílico e pela alteração mais grave de comportamento. Já o uso de maconha demora mais a vir à tona; a substância deixa o usuário mais lento, com perda de memória e dificuldade de concentração, mas interfere muito pouco no convívio com os colegas”, diz a psicóloga.

FÁTIMA, DA MENTAL CLEAN:
ao ficarem perdidas, ao descobrir um caso, as empresas gastam até mais se contassem com uma especialista por perto

Em todos os casos, o líder precisa estar atento ao funcionário que apresenta constantes dificuldades financeiras, pedidos de empréstimo consignado, venda de bens, recebe 13º, bônus, aumento e continua reclamando. Mudança brusca de humor sem motivo aparente, isolamento, descuido com a aparência, intolerâncias ou irritações desproporcionais são sinais importantes.

Frequentes idas ao banheiro, principalmente às segundas-feiras ou no dia posterior à folga, podem ser um alerta. Desinteresse por promoção também. A especialista Fátima Macedo explica: “Uma promoção implica mais cobran- ça e mais responsabilidades. O que o usuário mais deseja é ficar quieto noseu canto. Não há espaço para pensar em desenvolvimento profissional, pessoal, social, familiar etc.”.

Também se observa que muitas chefias contribuem para o desenvolvimento da dependência química entre os funcionários. Quantos não convidam a equipe para o happy hour, bebem junto e isso acaba virando rotina? O que poucos sabem é que algumas pessoas desenvolvem a dependência, outras não. Há os que tomam um copo de cerveja; outros, duas/três garrafas.

Lícitos, álcool e cigarro são altamente comprometedores, embora maiores danos sejam mais a longo prazo.

MEU MAIOR PATRIMÔNIO É MEU TEMPO LIMPO

“Hoje, dia 27 de novembro de 2016, faz 20 anos, um mês e 17 dias que estou limpo. Tenho duas datas de nascimento: 30 de julho de 1958 e 10 de outubro de 1996. Eu renasci aos 38 anos.”

Francisco Chagas, 58 anos, mecânico de manutenção do Metrô de São Paulo, é dependente químico em recuperação. Ele não disfarça o orgulho ao contar sua história, daquelas que não se ouve muito por aí. Aos 38 anos, usuário de vários tipos de drogas, ele conheceu o fundo do poço. Chegou a sair de casa. Como funcionário da companhia, tinha livre acesso às dependências e chegou a morar nas galerias do Metrô.

Hoje, Chagas faz pesca oceânica. Em 2015, foi para a Nova Zelândia praticar seu hobby. “Sou respeitado pela minha condição de adicto. Não tenho vergonha nenhuma de minha condição de dependente químico em recuperação. Não me importa o que pensam. O importante é o que eu faço comigo hoje. Uma coisa magnífica aconteceu na minha vida! E começou com a empresa acreditando que minha recuperação era possível!”

Chagas teve acesso a drogas muito cedo. Aos 15 anos, em bailinhos, fazia uso de bebidas alcoólicas. Logo passou do cigarro à maconha e à cocaína. Por muito tempo, fez uso de crack. “O começo foi muito bom”, confessa. “Era a libertação de todas as minhas dores e angústias. A droga me levava ao céu, porém, me tirava o chão. Cheguei a um estado lastimável”, lembra.

Com 12 anos de empresa e vários relacionamentos rompidos, se viu questionado pela supervisão e pelo serviço social da companhia sobre a maneira como estava conduzindo a vida. Decidiu, então, largar o emprego. “Eu pagava com o meu dinheiro e ninguém tinha nada a ver com isso. Eu achava que tinha total controle sobre a droga.”

Ao pedir demissão, a supervisão pediu-lhe que fizesse a carta de próprio punho, pois nada o desabonava como funcionário. No dia da entrevista de saída, encontrou-se com o supervisor. “Foi meu ‘bote salva-vidas’. Ele me disse: ‘Cara, você tem filho, mãe, família. Se quiser desistir, falo com o gerente e ele reverte sua demissão, e, se você quiser, providenciamos sua internação’.”

Já arrependido de ter pedido as contas, Chagas voltou atrás. Entrou na sala do serviço social alegando estafa, e que precisava de um lugar para se recuperar. Tinha como certo, porém, que, tão logo recolocasse a vida nos eixos, voltaria às drogas, mas de maneira controlada e esporádica, e levaria uma vida mais sossegada.

O serviço social do Metrô o encaminhou a uma instituição que trata dependência química. Entrou em 10 de outubro; ficou 50 dias. “O primeiro momento foi assustador. Sabia do problema, mas não o admitia. Nessa hora, o problema é o outro.” Aos poucos, foi tomando consciência de que não existe “uso controlado” de drogas, e que dependência química é uma doença que pode ser controlada. Ele teria de evitar o primeiro gole, o primeiro trago, não poderia ir a festas como antes, beber socialmente etc. “É muito difícil aceitar que se é impotente perante a droga.”

Quando saiu da internação, Chagas era outro homem. “Desde então, não faço uso de nenhum entorpecente”, diz. Rapidamente se corrige: “Estou falando com você agora e asseguro que hoje eu não uso, mas posso falhar. Então, amanhã, eu não sei. Vivo só por hoje. O amanhã não chegou e o ontem já passou. O ontem serve apenas como parâmetro para que eu não cometa os mesmos erros e espere resultados diferentes”.


“E já tivemos casos em que o gestor sabe que o funcionário é usuário de substâncias ilícitas e faz vista grossa, afinal, continua produzindo bem. Usuário de cocaína, por exemplo, é acelerado, tem pique, consegue virar a noite. A chefia sabe e deixa rolar. Gente, cuidado. A droga é uma bomba-relógio!”, alerta Fátima.

Luz no fim do túnel

O caso de sucesso do mecânico de manutenção Francisco Chagas não é isolado. Pelo menos no Metrô de São Paulo, que oferece tratamento especializado aos empregados que apresentam uso nocivo ou dependência de substâncias psicoativas e comportamentos compulsivos. Na cartilha do Programa de Prevenção e Tratamento da Dependência Quí- mica e Outras Compulsões estão depoimentos emocionados, de quem aproveitou a chance oferecida pela companhia.

Com quase três décadas, o programa já atendeu a mais de 2 mil pessoas, homens e mulheres que aceitaram o desafio de tratar-se e hoje comemoram ganho de qualidade de vida e de trabalho longe de comportamentos compulsivos. A analista de RH e assistente social do Metrô de São Paulo, Selma Regina Ocker Pereira, avalia: “Um programa de dependência química salva vidas. E as empresas têm esse dever”.

Antes, o programa dizia respeito à dependência química e ao tabagismo. Hoje, engloba o comportamento compulsivo de modo geral. “A doença é a compulsão. Observamos o crescimento de outras compulsões que, como o álcool, o cigarro e as substâncias ilí- citas, também afetam a qualidade do trabalho e da vida, como internet e celular (nomofobia), sexo (erotomania/ ninfomania), trabalho, jogo, comida, anabolizantes, medicamentos, dietas etc.”, enumera Selma. A dependência química (uso de drogas), todavia, continua recordista em número de casos.

Com série de ações, tanto na preven- ção quanto no tratamento, o programa atende ao empregado e à família e é assessorado pela empresa Mental Clean, especializada em dependência química e saúde mental. O empregado pode acessá-lo por conta própria ou ser encaminhado pelo gestor, pela família ou pelo colega de trabalho. Os gestores contam com grupo de apoio e orientação (que se reúne mensalmente) para que observem comportamento social e familiar, atitudes em festas, reuniões, bares etc., saibam identificar sinais físicos e emocionais da doença e, acima de tudo, saibam acolher, ouvir e encaminhar o empregado ao serviço social.

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Ao abordá-lo, o gestor apenas aponta o que tem prejudicado seu desempenho na função. “Se percebe comportamento alterado, embriaguês ou odor etílico, manda-o para casa e que compareça ao serviço social no dia seguinte”, explica Selma, que atua no Departamento de Engenharia de Segurança e Saúde Ocupacional/Coordenadoria de Saúde Ocupacional/Núcleo Serviço Social. Atendido pelo serviço social, a primeira reação do empregado, em tese, é negar a dependência. Às vezes, está tão fragilizado, que se abre facilmente. É, então, encaminhado a uma clínica especializada credenciada do convênio Metrus para diagnóstico.

O serviço social solicita a presença da família, apresenta o programa e pede que colabore no sentido de convencer o familiar a se tratar. O tratamento pode ser ambulatorial, com psicólogos e psiquiatras, grupos de apoio e, nos casos mais graves, internação. “Nem sempre é fácil envolver a família; às vezes, ela já sofre a codependência e é comum que negue o fato por receio de que o familiar perca o emprego. Quando fazemos uma abordagem, plantamos uma sementinha, que pode dar frutos logo, se a intervenção for imediata, ou no futuro, porque o empregado acaba sucumbindo ou a família, sem aguentar, pede socorro.”

Outro cuidado no Programa de Tratamento e Prevenção da Dependência Química e Outras Compulsões é firmar parceria com sindicatos de empregados, para que acompanhem o processo de recuperação e reintegração do empregado. “Caso haja demissão, estarão cientes de que foram esgotadas todas as alternativas”, diz ela, lembrando que há casos de pessoas que não conseguiram levar a sério o tratamento e acabaram perdendo o emprego por problemas de desempenho funcional. “Para ter sucesso, o tratamento exige mudança do estilo de vida.”

A escolha do tratamento

O convênio médico do Metrô conta com clínicas credenciadas, terapêuticas e em geral. O serviço social do Metrô acompanha o empregado por dois anos até a alta. É o funcionário quem escolhe os meios para se livrar da dependência, mas terá de segui-los à risca. Se não quiser terapia coletiva, escolhe a individual; se não quiser frequentar grupos de anônimos, terá o grupo (Qualidade de Vida) da companhia, que se reúne às quartas e quintas; e se for requerido tratamento mais especializado, externo, será amparado pelo programa.

Quando o problema é o tabagismo, o programa se volta para a Legislação Estadual 13.541, de 7 de maio de 2009, que proíbe fumar nas dependências da empresa. O combate é feito por intermédio de campanhas de conscientização, especialmente em datas como Dia Mundial Sem Tabaco (31 de maio) e Dia Nacional de Combate ao Fumo (29 de agosto).

O serviço social realiza a abordagem e encaminha o fumante que quiser aderir ao tratamento para a rede credenciada do convênio (equipe multidisciplinar e grupo de apoio) para exames e atendimento psicoterápico, se necessário. “A companhia subsidia, no primeiro tratamento, 50% dos medicamentos prescritos”, afirma a supervisora de serviço social do Metrô, Lucia Kimie Maeda.

SELMA, DO METRÔ SÃO PAULO, E CHAGAS:
Programa de dependência química salva vidas

Empregados dependentes químicos em abstinência há mais de dois anos são convidados a participar do Grupo de Multiplicadores. Usando como exemplo a própria história, eles falam das dificuldades da recuperação e  disseminam o programa do Metrô. Hoje, são 12 pessoas. Em encontros mensais, recebem treinamento para acolhida, ajuda e encaminhamento do funcionário com problemas. “São os nossos olhos na companhia. Às vezes, antes mesmo do gestor, o multiplicador identifica o problema e faz com que o colega chegue ao serviço social para pedir ajuda.”

No dia a dia, várias ações sustentam o programa. O norte é a prevenção. A mensagem é levada aos departamentos/ unidades, com ênfase onde se observam casos. Todos os anos, por ocasião do Dia Internacional de Combate às Drogas (29 de junho), o Metrô realiza a Semana de Prevenção da Dependência Química e Outras Compulsões, com palestras, gincanas, teatros etc. “Quando intensificamos as campanhas, a demanda por atendimento no serviço social aumenta muito”, avalia Selma.

Para a assistente social do Metrô, a abordagem é decisiva para o enfrentamento de um problema do qual ninguém quer ouvir falar, todo mundo finge que não vê e empurra para debaixo do tapete. “A primeira reação é a negação. Por isso, insistimos no olhar preventivo do gestor para intervir a tempo! A dependência não começa de repente. É um processo de uso, de abuso compulsivo, até chegar ao fundo do poço.”


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