Bebidas saudáveis ao corpo e à loja

Bebidas saudáveis ao corpo e à loja

Mesmo em tempo de economia lenta, shopper mais informado opta por produtos naturais

O consumidor mais bem informado adota hábitos mais saudáveis. Essa é uma das conclusões de um estudo sobre o mercado de bebidas não alcoólicas realizado pela empresa de consultoria Euromonitor International, no Brasil, em 2016. Nesse trabalho, foram analisadas as mudanças no processo de decisão do shopper, o desempenho das categorias de bebidas quentes e frias, além das tendências do segmento.

Ficou constatado que as bebidas saudáveis resistem à crise. Isso acontece porque, embora o crescimento desse segmento possa desacelerar, o apelo pela saudabilidade não se perde em tempos difíceis, já que o consumidor mais
bem informado mantém sua exigência por produtos com quantidade reduzida de açúcar e lê os rótulos em busca
de novos benefícios.

As empresas que produzem suco de uva 100% integral, pioneiras na oferta de produtos mais saudáveis no mercado nacional, foram as que primeiro sentiram os reflexos desse comportamento. “A publicação de diversas pesquisas científicas sobre o suco de uva contribuiu para dobrar as vendas nos últimos cinco anos”, afirma o vice-presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin), Oscar Ló.

Entre os benefícios proporcionados pelo suco de uva já reconhecidos pela ciência, estão a prevenção de doenças cardíacas e de câncer, melhoria da saúde muscular, redução do risco da doença de Alzheimer, combate ao envelhecimento e ação antibacteriana. De acordo com Ló, as pessoas que buscam um produto mais saudável colocam o preço em segundo plano. “Não é que elas não se importem com o preço, mas pensam primeiro na saúde ao adquirir um produto”, explica.

Foi esse comportamento que contribuiu para o aumento da participação dos sucos com posicionamento saudável nas vendas totais dessas bebidas no Brasil em 2016. No ano passado, foram comercializados 203,5 milhões de litros, segundo levantamento da Euromonitor International. Desse volume, 133,2 milhões de litros foram de produtos classificados como naturalmente saudáveis, que incluem os 100% suco, sucos de superfrutas e bebidas à base de soja. Projeções de mercado indicam que esse segmento tem crescido, em média, 20% ao ano, nos últimos tempos.

Nesse cenário, segundo dados do Ibravin, o suco de uva foi o líder do mercado em 2016, com um pouco mais de 94 milhões de litros vendidos no período. “Não foi nosso melhor ano porque houve uma quebra de 57% na safra de uva do Rio Grande do Sul, estado que responde por 95% da produção nacional de suco de uva. Essa redução comprometeu a oferta do produto em 2016”, conta Ló.

Vinícolas agregam mais valor com o suco de uva


Neste ano, o executivo espera que as vendas voltem aos patamares de 2015, quando foram comercializados 117 milhões de litros. “Agora que as pessoas já conhecem o produto, acreditamos que o crescimento será mais moderado, em torno de 10% ao ano”, afirma Ló. Segundo ele, desde que iniciaram a produção de sucos integrais em larga escala, as vinícolas estão apostando mais no produto, porque conseguem agregar mais valor. “No vinho, há maior concorrência, inclusive, com itens importados”, afirma.

O aumento das vendas dos últimos anos provocou a reconversão de vinhedos e do processo fabril, conta Ló. “Muitos
produtores mudaram as variedades de uvas cultivadas para atender à produção de sucos, já que elas são diferentes daquelas destinadas à produção de vinhos”, conta.

As variedades mais usadas são a Isabel, a Concord, a Bordô e a Niágara, que mesclam características essenciais à produção de um bom suco, entre as quais concentração de sabor, ampla produtividade, facilidade de manejo no campo, alta resistência a doenças e coloração vibrante.

De acordo com a legislação brasileira, para ser rotulada como suco a bebida não pode conter nada além de frutas, exceto as que são viscosas e necessitam de diluição, como a goiaba. Na avaliação de Ló, a palavra suco sempre foi fonte de confusão para os consumidores, por ser usada nos rótulos de diversos tipos de bebidas, como nos néctares e refrescos. Segundo ele, o suco integral de uva ajudou a explicar ao consumidor as diferenças entre os produtos. “Criou-se o conceito de um produto diferenciado”, diz.

Neste ano, as empresas que fabricam vinhos e sucos no Rio Grande do Sul devem processar 700 mil toneladas de uvas que, transformadas em produtos, vão gerar 550 milhões de litros de derivados de fruta. A expectativa é de que o suco responda por 20% desse volume. A produção de uva no estado é feita pela agricultura familiar, que conta com 15 mil famílias de pequenos e médios produtores. “Essa cadeia tem contribuído para manter o jovem no campo”, conta Ló.

Maior cooperativa da região, a Aurora trabalha, atual- mente, com 1,1 mil famílias de pequenos produtores associados. “Juntos, eles colheram 71,5 mil toneladas de uva na safra deste ano”, diz o diretor-geral da Vinícola Aurora, Hermínio Ficagna, (uma das primeiras indústrias a pro- duzir suco de uva integral, na década de 1980).

Líder de mercado, com 35% das vendas brasileiras de sucos integrais, de acordo com a União Brasileira de Vitivinicultura (Uvibra), a empresa caminhou na contramão do setor no ano passado, quando aumentou em 18% as vendas sobre 2015. “Atualmente, comercializamos duas marcas de suco de uva: a Aurora e a Casa de Bento, que, em 2016, somaram 32 milhões de litros comercializados no mercado interno”, conta Ficagna. A Aurora também exporta para mais de 20 países, tendo na Ásia seus principais compradores.

Ficagna credita o bom desempenho dos sucos Aurora à divulgação dos benefícios do consumo. “Trata-se de uma bebida muito democrática, pois atende desde o público infantil até as pessoas da terceira idade, sendo, inclusive, recomendada por médicos e nutricionistas, o que é um excelente aval para um produto”, afirma.

Além disso, ele explica que, diferentemente dos vinhos e espumantes que alcançam vendas maiores no inverno e no final de ano, o suco de uva não tem sazonalidade e vende o ano inteiro.

Sucos pasteurizados são referência em qualidade

De olho nesse mercado em franca expansão, empresários do ramo de bebidas não medem esforços para atender à nova demanda. A Xandô, empresa de Itapira, no interior do estado de São Paulo, produz suco natural de laranja desde 2000. Como o produto é pasteurizado, seu prazo de validade é curto. Por esse motivo, a empresa atua somente no estado de São Paulo, onde se tornou referência em qualidade, mantendo um bom crescimento nos últimos anos.

Na avaliação do diretor geral da Xandô, Carlos Eduardo Pasetti, a pasteurização é um grande diferencial da empresa, pois esse tipo de tratamento mantém o suco íntegro ao preservar a qualidade e o sabor. Por outro lado, há a necessidade de um serviço de distribuição complexo e extremamente eficiente, para colocar diariamente suco novo no mercado e oferecer aos consumidores todo esse frescor e qualidade.

A Xandô é ousada e pretende crescer acima do mercado nos próximos anos. “Temos experiência e estamos há mais de uma década nos preparando para essa oportunidade”, justifica Pasetti. Para ele, os consumidores estão se conscientizando dos efeitos dos refrigerantes e bebidas adoçadas, o que tem contribuído para que os sucos
naturais ocupem um espaço cada vez maior nas gôndolas dos supermercados.

Para produzir o suco, a Xandô utiliza frutas de suas fazendas e também adquire uma parte de parceiros comerciais. “Como o nosso suco é 100% natural, precisamos de frutas ma- duras e selecionadas o ano todo. Por isso, nós as compramos em regiões distintas, que têm épocas de amadurecimento diferentes”, conta.

Outra empresa paulista que tem tido um grande sucesso no setor é a Natural One, que também apostou na pasteurização para preservar a propriedades das frutas. Lá, os sucos comercializa- dos são acondicionados em garrafas transparentes que trazem no rótulo a quantidade de frutas que os compõem. Uma garrafa de 245 mililitros de suco de laranja, por exemplo, tem 3,5 laranjas. A ideia é mostrar ao consumidor a diferença entre néctar e suco integral.

Nem todo mundo sabe, mas o suco integral é 100% natural, sem adição de água, açúcar, conservantes nem aditivos. Já o néctar contém entre 20% e 50% de polpa de frutas, açúcar, água, conservantes e aditivos químicos. A Natural One chegou ao mercado em 2013, oferecendo sucos de frutas em vários sabores, ou misturas deles, sucos detox, chás e águas saborizadas. Atualmente, comercializa sua produção em 40 mil pontos de venda distribuídos por todo o país.

“Conseguimos isso porque nossos produtos possuem um prazo de validade que varia de 8 a 18 meses, dependendo do produto. Isso é possível devido à tecnologia de ponta, única linha no hemisfério Sul que produz a própria garrafa e envasa assepticamente, sem qualquer contato manual”, conta o diretor comercial e de marketing da companhia, Cláudio Kliemann Silva.

A Natural One, que vendeu, recentemente, 49,9% de participação para a empresa Gávea Investimentos, estima dobrar de tamanho neste ano. “Creditamos esse aumento, principalmente, à migração do consumidor, que está abandonando a categoria de néctares e refrigerantes e voltando-se para o mercado de sucos 100% sem conservantes nem conservadores”, explica o executivo.

A percepção de Silva parece estar correta. Um estudo da Nielsen sobre suco natural mostra que o atual cenário econômico influencia a volta do consumo para o lar, impulsionando novos hábitos, como a ingestão de sucos naturais. Outros dados da pesquisa mostram que, dentro de casa, sete em cada 10 lares fizeram suco natural em 2015; que o produto é consumido, preferencialmente, na hora do almoço; e que, em média, uma jarra de um litro de suco é feita a cada nove dias nas residências brasileiras.


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