Amor incondicional

Amor incondicional

por Nathalie Gutierres 

Ganhando cada vez mais a atenção das pessoas, os animais de estimação movimentam um mercado que só cresce. Em 2012, os brasileiros contabilizaram gastos de R$ 11,4 bilhões em itens que incluem alimentação, suplementos, acessórios e produtos de higiene para pets. Em 2017, a cifra foi de R$ 18,8 bilhões, segundo mostram dados da Euromonitor International, empresa de pesquisa estratégica de mercado.

Ainda de acordo com as informações da companhia, é esperado que o segmento de pet care movimente R$ 20,7 bilhões no Brasil em 2018, um crescimento de 9,8% em relação ao ano passado. Caso a projeção se confirme, o avanço colocaria o país, que fechou 2017 na quarta posição no ranking global desse mercado, em segundo lugar, ultrapassando o Reino Unido e ficando atrás somente dos Estados Unidos.

Mesmo diante dos desafios do país nos últimos anos, esse setor não retraiu; pelo contrário. “Enquanto muitos segmentos desaceleraram ou até caíram durante a crise econômica, o segmento de pet care apresentou boa resiliência e cresceu em torno de 10% ao ano entre 2013 e 2018”, explica a analista de pesquisa da Euromonitor, Caroline Kurzweil.

E um ponto importante é que as pessoas não têm se preocupado com o desembolso das categorias relacionadas aos pets, como acrescenta Caroline. “A premiunização do setor e a humanização dos animais de estimação colaboraram para que o brasileiro continuasse a investir em seus pets, mesmo com a renda mais comprometida. A expectativa é de que, com a recuperação econômica, o avanço do segmento se intensifique”, avalia.

Segmento de alimentação

A situação econômica do Brasil, entretanto, trouxe alguns reflexos no segmento de alimentação para pet, conforme indicam informações da Kantar Worldpanel. “Em uma análise dos últimos três anos, vemos que o mercado de alimentos industrializados para cães e gatos teve forte queda em volume em 2015 versus 2014 (6,8%), estabilidade no ano seguinte (+1,2% em 2016 versus 2015) e voltou a crescer em 2017 versus 2016 (+7,7%) principalmente via aumento de frequência de compra em alimentos para cães”, explica a gerente de conta da empresa, Karoline Dilho Alves.

Apesar de o canal especializado corresponder à maioria do volume vendido em alimentos para animais de estimação, os supermercados têm grande expressão na comercialização desses itens. Dessa forma, o autosserviço representa 22% da importância do faturamento de alimentos industrializados para cães e 27% para gatos. Em volume, a importância dos super- mercados é de 19% para ambas as categorias.

O segmento que traz melhor desempenho para os supermercados é o de snacks, categoria de inovação mais recente, como define Karoline, da Kantar. “Em primeiro lugar estão os snacks para gatos, que cresceram 22% em volume em 2017 versus 2016 nos autosserviços, e depois os snacks para cães, que avançaram 16% em volume na mesma base de comparação no canal.”

Pet no varejo supermercadista

Há muitas oportunidades para aproveitar o bom momento do universo de pet care no varejo supermercadista, uma vez que o setor segue em evolução. “Identificamos um avanço do canal especializado e o supermercado está conseguindo conquistar uma fatia grande desse segmento”, afirma o presidente da Interbrilho, que oferece itens de cuidados para os animais por meio da marca Petbrilho, Henrique Caran.

Algumas companhias têm notado uma evolução desse setor nos supermercados, com mais ênfase nos últimos tempos. “Percebemos esse crescimento nas redes supermercadistas há três anos, quando o espaço para produtos pet evoluiu de maneira rápida e consistente. Inicialmente, isso veio nas grandes redes, onde o aumento do espaço foi gradativamente crescendo e, agora, a proliferação se expande aos mercados menores”, avalia o gerente comercial da Matsuda, Marco Antonio Nastari.

É necessário, entretanto, mais investimento nesse setor, com o objetivo de garantir a preferência do consumidor para fazer as compras desses produtos no canal, conforme indicam as fontes entrevistadas pela reportagem.

“Identificamos alguns supermercados que focam nesse segmento, abrindo espaço para todos os produtos. É preciso ir além e aproveitar que os clientes já estão dentro da loja para vender tais itens a eles”, afirma o gerente de marketing da Special Dog (que trabalha com várias linhas de alimentos para cães e gatos), Fernando Manfrin.

Na visão de Manfrin, no caso dos alimentos para os animais de estimação, a indicação é ampliar a oferta de marcas no ponto de venda. “Vemos que muitos supermercadistas trabalham com poucas marcas em um grande espaço. E é fundamental investir em mais variedade nas lojas”, alerta o porta-voz da Special Dog.

Aliado ao aumento de fornecedores para os alimentos dos pets, Manfrin afirma que é fundamental priorizar a comercialização de produtos de companhias que estejam preocupadas com a saú- de dos bichinhos, ou seja, os supermercados têm que atentar para trabalhar com empresas sérias.

Além dos alimentos, os demais produtos atrelados aos animais de estimação merecem atenção nos supermercados. “Uma vez no supermercado, o cliente vai comprar a ração e lembra que o cachorro tem carrapato e, então, quer comprar um xampu específico para isso ou deseja comprar uma coleira… A seção pet no supermercado está saindo de um espaço que complementa esse tipo de compra para ser destino”, explica o gerente de produtos da World Veterinária, empresa que atua com diversos itens de cuidados para cães, Bruno Grecco.

Essa é a realidade das lojas do Confiança Supermercados, rede do interior paulista. “O público busca aproveitar seu momento de compra para incluir na cesta de consumo os produtos do pet, pois encontra variedade e itens de qualidade em um só lugar”, resume a gestora de compras, Tatiane P. Gasparotto.

Dessa forma, é essencial oferecer itens que atendam às mais diversas necessidades dos animais. “O consumidor busca itens de higiene a alimentação no supermercado. E, nessa área de alimentos, é preciso oferecer o sortimento completo para os pets, incluindo snacks, bifinhos, patês, entre outros, que são complementos”, defende a coordenadora de marketing e comunicação da Rações Reis, que trabalha com a marca Baw Waw, Aline Garcia.

Como citado por Manfrin, da Special Dog, Grecco sustenta que o autosserviço deve aumentar a variedade de produtos disponibilizados também para os itens de higiene dos animais. “Hoje, existe o preconceito do shopper de que no supermercado ele não irá encontrar o melhor produto. Acreditamos que é preciso que esse canal desenvolva um trabalho para que seja mais bem visto e disponibilize aquilo que é encontrado no canal especializado”, orienta.

O Grupo Muffato, com forte atuação no Paraná e com presença no interior paulista, tem identificado essa necessidade de direcionar mais atenção para a seção e, a cada ano, o segmento pet vem ganhando mais espaço nas unidades da rede.

“Em algumas de nossas lojas já dobramos a área destinada a esses produtos e ampliamos também a variedade de itens e marcas disponíveis”, explica o gerente comercial da rede, Adilson Corrêa.

Além disso, o Muffato nota o aumento da visita de pessoas à procura de itens para seus pets a esse espaço das lojas. “Mais de 60% de nossos clientes nesse segmento têm acima de 40 anos e 90% pertence às classes C, B e A. Mais da metade é de pessoas casadas. Percebemos que tem sido cada vez mais frequente a visita desse público à seção de produtos pet de nossas lojas, certamente buscando praticidade, preços competitivos, variedade de itens e marcas”, conta o gerente comercial.

O porta-voz do Muffato explica que os alimentos são os itens com melhor desempenho nas lojas da rede, com prevalência dos úmidos, seguidos pelos snacks e, depois, pelos secos. “Esses produtos, juntos, correspondem a mais de 80% de nossas vendas na categoria. Os demais itens também crescem, mas em ritmo menor”, avalia.

E caso os supermercados tenham dúvida de como preparar a seção na loja, várias companhias estão preparadas para auxiliar as redes no desenvolvimento desse espaço, como é o caso da Matsuda. “Geralmente, seguimos a orientação do próprio estabelecimento na questão de espaço para esse segmento e depois fazemos nosso trabalho de reposição, organização de gôndola, separando por idade, espécie e tamanho das embalagens”, cita Nastari.

Exposição e ações no PDV

Cada loja vai ter sua estratégia particular para a seção, seguindo a realidade do negócio. Na seção pet, as lojas do Grupo Muffato reúnem os mais variados produtos. “Trabalhamos com rações e petiscos, que são separados da seguinte forma: cão seco, cão úmido e cão snacks; gato seco, gato úmido e gato snacks. Os alimentos úmidos e os snacks ganham maior destaque por conta de serem os mais vendidos atualmente”, detalha Corrêa.

Mas o Muffato oferece também os demais itens para pets, conforme conta o gerente comercial. “Temos itens de higiene e tratamento (por exemplo xampus e sabonetes); acessórios (como correntes, roupas, caminhas, comedouros); areia e itens para outros animais (rações para pássaros e tartarugas, por exemplo)”, descreve.

Para a organização das gôndolas nas lojas do Muffato, a rede leva em consideração a demanda, iniciando o fluxo do corredor, na seguinte ordem: cão (ração saudável, úmidos, snacks, ração seca, raças pequenas e demais raças); gato (alimento úmido, snacks e alimento seco); seguidos pelas demais rações para outros animais, como pássaros e tartarugas, e os acessórios e itens de higiene.

Outro aspecto relevante é facilitar o processo de compra na loja, como faz o Muffato. “Estamos instalando stoppers na seção pet de algumas lojas para separar as categorias, auxiliando o consumidor a localizar os itens para seu animal de estimação”, ressalta o porta-voz do Grupo.

Os recursos utilizados nas mais variadas categorias da loja podem ser aplicados também nos itens relacionados aos pets. Corrêa conta que, nas lojas da rede, são realizadas ações pontuais, com pontos extras e ilhas. A companhia também trabalha periodicamente com encartes exclusivos para a seção e mensalmente dedica páginas específicas para divulgar o mundo pet nos encartes veiculados.

Com a seção ganhando maior espaço na área de venda dos supermercados, a rede Confiança trabalha de forma semelhante para promover os produtos voltados aos animais de estimação. Tatiane, a gestora de compras da companhia, explica que os produtos desse segmento estão posicionados em local nobre da loja, além de contar com diversos pontos extras em locais estratégicos de venda.

Assim como o Muffato, o Confiança direciona esforços para divulgar os produtos. “Reservamos um espaço para as categorias nos tabloides, que denominamos ‘Cantinho Pet Confiança’. Nesse local o cliente encontra ofertas exclusivas e novidades”, resume Tatiane.

As recomendações da indústria

O afeto existente entre os animais de estimação e seus donos deve ser transmitido para o PDV no momento em que o consumidor fará a compra. “É preciso investir na ambientação do ponto de venda com base nessa emoção. Isso é fundamental para aumentar as vendas desse segmento”, detalha Manfrin, da Special Dog.

Outra iniciativa que pode ser aplicada aos supermercados para incrementar as vendas é disponibilizar um profissional para assessorar os clientes, em área específica. O espaço pode ser trabalhado no estacionamento da loja ou, então, é possível agregar um pet shop à loja.

“O interessante é o cliente fazer a compra e ter um veterinário para dar assistência. Além disso, esse espaço na loja permite que, enquanto os donos escolhem o que levar, o cão possa ficar no banho”, indica Grecco, mostrando exemplos de ações que podem ser feitas para promover, nos supermercados, esse segmento que só cresce.


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