A era tecnológica

A era tecnológica

Em visita ao Brasil em 2015, o presidente da Microsoft, Satya Nadella, disse algo que muitos especia- listas gostam de repetir: “Toda empresa será de tecnologia no futuro”. Com os serviços “na  nuvem”, as análises de dados cada vez mais sofisticadas, a integração das máquinas – e das pessoas – por meio da internet e a disseminação sem precedentes dos smartphones, o futuro das empresas, diz Nadella, passará pelo desenvolvimento de algum tipo de software que incrementará o negócio original.

Esse futuro parece cada vez mais próximo da realidade do consumidor. Dados do IBGE mostram, por exemplo, que a penetração de aparelhos celulares chega a 80,1% nas classes D e E, e é praticamente universalizada se consideradas todas as faixas socioeconômicas.

Em 23 de agosto, o e-Bit divulgou o resultado de seu Webshoppers, levantamento anual sobre o desempenho do e-commerce brasileiro. O estudo revela um aumento de 7,5% no faturamento nominal do canal e de 3,5% na quantidade de pedidos feitos pelos consumidores via lojas on-line.

A tecnologia como meio de compra e usufruto de serviços e produtos é cada vez mais comum na rotina das pessoas, haja vista empresas como Airbnb, Uber e aplicativos como iFood. “A régua subiu”, diz o executivo da Totvs, Ronan Maia. A transformação tecnológica, com suas muitas aplicações para o consumidor, tem sido cada vez mais rápida.

Esse cenário não passa despercebido para o mundo corporativo. Segundo um estudo internacional da PwC, “CEO Survey 2017”, que ouviu mais de 1.300 CEOs em 79 países, a transformação digital é uma das principais preocupações desses líderes. Entre os 10 temas mais críticos, três deles relacionam-se com tecnologia, sendo “a velocidade das mudanças tecnológicas” o item que mais cresceu nos últimos três anos.

A maturidade no varejo

O varejo alimentar brasileiro, no entanto, ainda parece estar sendo operado majoritariamente no mundo analógico, enquanto busca avançar rumo ao uso mais amplo da tecnologia na operação, na gestão, na estratégia e, um pouco mais timidamente, na experiência de compra do consumidor.

É o que revela a segunda edição do “Estudo de Prontidão e Maturidade Tecnológica do Varejo Supermercadista”, realizado e conduzido pela Associação Paulista de Super- mercados (APAS). A amostragem deste ano representa muito do universo supermercadista; afinal, foram quase 200 supermercados que responderam à pesquisa.

“Uma primeira grande onda, digamos assim, parece já ter atingido um alto grau de penetração no setor, com as suas soluções operacionais (PDVs e ERPs). E estamos exatamente assistindo a um movimento natural em direção às soluções tecnológicas, as quais chamamos de ‘especializadas’ e ‘inteligentes’. Esse modelo mostra uma evolução em termos de maior complexidade e entrega”, avalia o professor da Fia, sócio do Oasis-Lab e consultor externo da PwC, Jorge Inafuco, um dos responsáveis pelo estudo.

O varejo está resolvendo ou resolveu há pouco a informatização do básico. Começa, agora, a pensar no que mais a tecnologia pode oferecer, a depender do porte.

A automação média declarada, numa escala de 0 a 10, foi 5,2 pelos pequenos; 6,4 pelos médios e 6,8 pelos grandes – que declaram também a menor prontidão e a menor maturidade, demonstrando que, nesse grupo, as demandas por tecnologia e a consciência de seu valor estratégico crescem.

Enquanto os pequenos ainda estão operando bem com o que o têm, os médios começam a sofisticar um pouco mais o controle operacional (com softwares de ERP, combate à ruptura etc.) e, eventualmente, inteligência de negócio (com CRMs, por exemplo, cuja penetração chegou a 31%, e Business Intelligence, segundo item em que as empresas desejam investir), mesmo caminho adotado pelos maiores, que procuram avançar também na direção da inovação e da inteligência. É o que mostram as intenções de investimento dos grandes em 2017 e 2018.

Assim, uma empresa pequena (considerada, pelo estudo, com até 10 checkouts em loja), em geral, investe em operação mais básica, como frente de caixa e controle básico de estoque. No mais, softwares operacionais, um pouco mais complexos, como um ERP, por exemplo, ainda não fazem parte da realidade ou dos planos desse grupo, no qual apenas 13% declararam ter uma TI estruturada, contra 94% no grupo 3, das grandes, com mais de 50 checkouts, e cujo nível declarado de prontidão tecnológica é o mais alto de todos os respondentes, chegando a 3,7 entre o grupo 1 versus 2,4 no grupo 3.

Embora seja o grupo dotado do nível mais inicial de informatização, esse tipo de negócio respondeu positivamente quando perguntado sobre seu nível de prontidão tecnológica, ou seja, em que medida a tecnologia já implantada atende às necessidades, principalmente porque sua operação é mais simples e não demanda, na prática da rotina, muita sofisticação tecnológica.

“São supermercados que ainda estão muito baseados no trabalho do dono, no modo dele de operar a loja, de pensar e planejar as compras, de atender os clientes. São lojas que, em sua maioria, ainda não têm nem uma página nas redes sociais e cuja rotina é bastante demandante pelo pequeno número de funcionários e pela centralização da operação no dono. Não que não haja necessidade estratégica de avançar no modelo, mas a gestão ainda está às voltas com equacionar necessidades primeiras”, conforme lembra o sócio da PwC Brasil, Ricardo Neves.

Já as empresas médias, com até 50 checkouts, chamadas de grupo 2 pela pesquisa, são as em maior posição de vulnerabilidade – ou que, ao menos, se percebem assim. É o grupo que declara ter menor maturidade tecnológica. Isso pode ser explicado porque se trata de um negócio bem mais complexo que o pequeno, mas ainda sem os recursos de um grande.

Basta comparar, por exemplo, o número de funcionários em TI declarado por grupo. O grupo 1 tem, em média, 1,9 funcionário responsável por tecnologia. Já o grupo 3 declarou ter 10 pessoas nessa função. Os médios, que têm demandas já bem mais próximas dos grandes, têm apenas 2,9 funcionários, quantidade muito mais próxima dos pequenos.

No estudo, embora as grandes lojas sejam as que declaram menor prontidão, as médias são as que se apre- sentam mais vulneráveis, porque a cultura de investimento em tecnologia ainda é a dos pequenos, mas as necessidades, não.

Para os grandes negócios, o ponto de maior vulnerabilidade talvez sejam as políticas de gestão de RH para o setor de TI. Apenas 16% têm remuneração variável de acordo com o desempenho da equipe e somente 22% mantêm um plano de carreira estruturado para a área.

Passado, presente…

Essas assimetrias se repetem em outros aspectos quando se analisa a pesquisa e a fotografia que ela revela do varejo como um todo, exemplificando bem a análise de Inafuco, como citado antes.

Enquanto a maioria (56%) dos entrevistados não reserva orçamento anual para TI, mais de 76% dos respondentes, por outro lado, declara que a TI participa desde o início em novos projetos, como abertura de novas lojas.

Para os especialistas ouvidos pela SuperVarejo, isso demonstra que o varejista está cada vez mais pressionado pelas demandas tecnológicas de um mundo em transformação, em que as relações, inclusive de consumo, são cada vez mais digitais.

“A nova geração de jovens adultos não compra nem pizza pelo telefone. É tudo em aplicativo pelo celular. Tem aplicativo para tudo. Já o supermercado, em geral, oferece, quando muito, uma entrega em domicílio, que exige que o cliente, na melhor das hipóteses, ligue para a loja e saiba de cor as marcas e produtos que deseja”, avalia o sócio da NeoGrid, empresa de tecnologia focada em inteligência de abastecimento, Robson Munhoz.

O gerente de TI da rede Superbom, no interior de São Paulo, Thiago Ponce Lopes, conta que é preciso uma mudança de cultura – deixar de ver a tecnologia como custo e passar a enxergá-la como investimento – para avançar na informatização, abrindo espaço para se pensar nessa área estrategicamente.

A experiência do grupo exemplifica aquilo que a pesquisa revela: o que guiou e guia a implementação da tecnologia no Superbom é a necessidade concreta da rede, que pode ser considerada média pelo critério do estudo.

Ponce Lopes conta que uma estratégia do supermercado para definir em que investir é mirar no “calcanhar de aquiles”, ou seja, no ponto fraco. “A tecnologia existe para facilitar nosso trabalho”, declara ele.

E, de fato, ela tem facilitado o trabalho do Superbom, em áreas como gestão de categorias, definição de mix, controle de rupturas, estratégia de promoção e relacionamento com os clientes. “Estamos fazendo testes com um software para reduzir a ruptura, por exemplo, que nos mostra dados mui- to interessantes, comparativos sobre nosso desempenho e o do mercado”, diz.

Para ele, com esse tipo de investimento, é possível tornar-se mais eficiente, baratear custos, ter um mix mais ajustado, comprar melhor e, com isso, aumentar a margem. Além, claro, de ganhar o cliente, que sempre prefere uma loja bem montada, sem ruptura e com um mix que entregue o que ele procura. “Assim, a tecnologia passa a ser vista como estratégica. Aqui na rede, participamos de todas as tomadas de decisão”, conclui Ponce Lopes.

Para o porta-voz da Consinco, uma das principais fornecedoras de soluções tecnológicas para supermercados, Silvio Sousa, é justamente saber do que precisa e no que vale a pena investir que leva o supermercadista a adotar tecnologias. Se a informatização ainda não avança mais é também por causa do que chama de “fase de transição” entre a lógica analógica e a digital, na qual, diante de tanta oferta, o varejista não sabe o que priorizar nem o que efetivamente vai “pegar” ou dar retorno ao seu negócio.

Robson, da NeoGrid, pondera também que, por ainda ter pouca demanda, as soluções tecnológicas, em sua maioria, são pouco acessíveis aos pequenos negócios. E, por outro lado, por serem muito caras, também afastam esse mesmo grupo. Um ciclo vicioso.

…e futuro

De todo modo, a boa notícia é que tanto o varejo está mais aberto a implantar tecnologias quanto tem havido um barateamento de muitas delas que, inclusive, têm sido consideradas soluções que vão se firmar. O self-checkout é uma delas. A Consinco, fornecedora do equipamento e da inteligência por trás do negócio, faz as contas: custava cerca de R$ 100 mil implantar um desses numa loja. Agora, custa R$ 25 mil, um quarto do preço.

Não à toa, só dessa marca há mais de 200 máquinas em operação, em mais de 40 lojas de redes tão díspares quanto Angeloni, Savegnago e Imperatriz. “Há lojas em que 30% do faturamento vem de self-checkouts. É o autosserviço funcionando plena- mente”, diz Sousa, da Consinco.

É interessante notar que, entre as vantagens desse tipo de equipamento, estão não apenas a satisfação do consumidor em não pegar filas – o que já seria muito –, mas também  a redução de custos com funcioná- rios e a otimização do serviço: os self-checkouts podem ficar abertos ininterruptamente.

Do mesmo modo, embora ainda seja considerado caro, operar a tecnologia “na nuvem” vem ficando mais acessível. Grosso modo, hospedar na nuvem significa não precisar ter um servidor físico e toda a infraestrutura de telecomunicação suportando os sistemas, o tráfego e o armazenamento de dados.

É possível alugar, de gigantes como Microsoft e Amazon, um servidor, e pagar proporcionalmente ao uso, para trafegar e armazenar softwares e dados via internet, in cloud, ou “na nuvem”, como acontece no nível pessoal e, guardadas as pro- porções, com serviços como Google Drive e Drop Box.

Há empresas especializadas em intermediar esse tipo de serviço, negociar com esses fornecedores, definir especificações de uso e traduzir a linguagem técnica ao supermercadista em um “combo” de serviços adequados ao seu perfil. Caso da Sky.One, por exemplo, para quem trabalhar “na nuvem” barateia a operação, uma vez que dispensa o investimento em servidores e infraestrutura, e também amplia a segurança dos dados.

“Servidores como a Amazon garantem 99,99999% dos dados armazenados, sejam dados em uso, sejam backups”, explica o sócio da Sky.One, Caio Klein. Servidores físicos e backups, aliás, são tópicos críticos para o varejo alimentar, de acordo com o estudo.

No ranking declarado de prioridades, no topo da lista está a implementação ou atualização de infraestrutura local (58%). Não por acaso, já que 80% dos supermercadistas ouvidos declara que o servidor está hospedado de forma caseira e em ambientes não aderentes às boas práticas.

Em quarto lugar, com 51%, aparece melhorar a segurança dos dados, o que também faz sentido, considerando que 47% dos respondentes declaram fazer backup em mídia física (como CD ou pendrive) e 51% têm só uma solução em caso de dano.

O e-commerce, que está ensaiando passos no varejo alimentar, avançou um pouco. Cresceu 4% em faturamento, segundo dados do e-Bit. Para Maia, da Totvs, embora o consumidor deseje cada vez mais comodidade e esteja disposto a pagar por isso, ainda há pontos que emperram a atuação mais agressiva do varejo. Um deles é o desconhecimento do ambiente de negócio para esse varejo que acaba de informatizar o básico. Outro é a logística – a operação da entrega e o custo dela.

Maia lembra serviços como click and collect, em que o consumidor compra pelo site, agenda um horário e vai buscar seus produtos na loja, dispensando a entrega.

Munhoz, da NeoGrid, sonha mais alto: ele pondera que a escolha dos produtos, em vez de ser feita num site, poderia ser via aplicativo de celular, como tantos que existem para outros produtos. No próprio aplicativo, o consumidor poderia definir loja e horário para retirada. “Seria só passar e pegar.”


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